Bombardeio sofístico

O Brasil vive um momento de grande crise política, causada por recessão econômica somada à investigações de corrupção, com consequentes prisões de empresários (Marcelo Odebrecht) e políticos (José Dirceu). Com isso, boa parte da população, desde 2015, manifesta-se de forma cada vez mais efetiva nas ruas do Brasil. A última foi dia 13 de março de 2016, com participação de 3 a 4 milhões de pessoas, segundo a Polícia Militar, os manifestantes e o DataFolha.

Diante desse cenário, dentro de uma sociedade democrática, por óbvio, há aqueles que são à favor e outros que são contra as manifestações. Também por óbvio, os contrários são aqueles que defendem ferrenhamente o governo, enquanto os favoráveis pedem a saída de Dilma da Presidência. Ainda no que diz respeito à essa polaridade, uns acusam a outra parte de serem adeptos da ofensiva comunista na América Latina, enquanto a outra parte acusa uns de condenarem apenas um partido como corruptos, com muita parcialidade.

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Até aí, tudo bem; se fosse “somente” isso – apesar do baixo nível dos debates –, não seria surpresa dentro da história política e democrática. Ambos os lados defendendo sua verdade. O problema é que, na política, a verdade é um pouco (muito) mais complexa. Pode ser facilmente manipulada, e Sócrates percebeu esse perigo nos sofistas. Estes reduziam o conhecimento à retórica (arte da persuasão) e, assim, moldavam a verdade de acordo com suas conveniências.

Ora, por mais que a “arte do bem falar” permeie toda a história da política ocidental, vale a pena observar com cautela a presença dos sofistas eleitores nos últimos tempos. Principalmente nas redes sociais; estão cheio deles nos últimos meses, no Brasil. E isso vale para ambos os lados da discussão, i. e., tanto aqueles à favor quanto os que são contra as manifestações, que tentam convencer os outros de sua “verdade’, por meio de pseudoconceitos.

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Do lado daqueles que menosprezam as manifestações, primeiro começou uma massa (de manobra (sic)) de compartilhamentos com um documento público que mostrava Sérgio Moro ser filiado ao PSDB. Milhares de compartilhamentos. Problema: o Sérgio Moro do documento é Sérgio Roberto Moro, não Sérgio Fernando Moro, juiz federal responsável pela “lava-jato”. Depois, veio o “argumento” de que os manifestantes do dia 13 não representam o Brasil, pois somaram cerca de 4 milhões de pessoas, dentro de 210 milhões de habitantes. Isso significou 1,9%. Problema: em 1992, 1 milhão de pessoas foram às ruas pedir o impeachment de Collor, quando havia cerca de 154 milhões de habitantes. Isso significou 1,56% e representou o País. Terceiro, viralizaram uma foto de um casal na manifestação que tinha uma babá cuidando de seus filhos. A ideia foi vincular a desigualdade social “naturalizada” presente no Brasil, não percebida pela “elite” que foi às ruas. Problema: a manifestação é contra a corrupção acintosa que salta aos olhos de todos, e que, certamente, se não ocorresse (ou fosse menor), já teria resultado para o País menos desigualdade, menos racismo, etc. Inclusive, a babá fotografada estava empregada, algo muito caro para as campanhas governistas, que melhoraram o estado das “domésticas” com relação às leis trabalhistas Ou seja, falácia pura. E muitos, mas muitos mesmo, compraram todos esses falsos argumentos como sendo de formação, epistêmicos.

Já do lado da oposição, primeiramente, muitos se valeram do manifesto para criticar tão somente o PT e apoiar Aécio e/ou Alckmin, como salvadores da Pátria. Problema: os dois políticos estão cheios de investigações nas costas (Aécio inclusive citado na “lava-jato”). Em segundo lugar, tantos outros apoiaram a volta da Ditadura Militar. Problema: este nem vale a pena perder tempo com explicações. Terceiro, muitos apoiaram Jair Bolsonaro como próximo Presidente. Problema: político conservador, com opiniões machistas e homofóbicas. E muitos, mas muitos mesmo, compraram todos esses falsos argumentos como sendo de formação, epistêmicos.

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Nesse sentido, a sofística domina a arte da política e tira o foco do que, verdadeiramente, o povo requer com as manifestações: fim da corrupção, seja ela cometida por político do partido A, B, C ou Z. Entretanto, por causa dos “fanáticos-partidários-extremistas-cegos”, os políticos nem precisam mais ser altamente competentes na arte da oratória. Mesmo com dados evidentes do sítio em Atibaia, dos “presentes” do Palácio do Planalto, do Mensalão e do Petrolão, Lula é considerado um Deus inocente, e tem forte apoio de ótimos sofistas espalhados nas redes sociais e nos quatro cantos do Brasil. Aécio Neves, investigado por fraudes no Governo de Minas e delatado na operação “lava-jato”, também é defendido com unhas e dentes, como probo e bom. Bolsonaro, idem. Bem que Clarice Lispector já dizia: “Abutres espertos se multiplicam ao se alimentarem dos incautos”. Mentira. Inventei agora. Mas você já estava compartilhando.

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Verdadeiros mitos! (ou mitos verdadeiros?)

Curioso o momento da humanidade. Com sociedades altamente avançadas em termos científicos e tecnológicos e com a informação facilmente acessível, o questionamento, a crítica, a insatisfação com várias questões tradicionais é cada vez maior, em busca de pressionar e realizar melhorias, não somente com relação a questões do ser humano em si (inclusão, tolerância, etc), mas também dentro do aspecto ambiental – o cuidado com a Terra-Mãe.

Nesse sentido, sob a ótica científica, os argumentos para que se diminua a poluição da atmosfera mostram gráficos com o aumento da temperatura no globo terrestre nas últimas décadas. Dentro da temática da pobreza, dados estatísticos mostram que, quanto menos desigualdade social existe numa sociedade, menor é a violência; da mesma forma que o pequeno índice de analfabetismo leva a um pequeno índice de desemprego. Logo, a verdade científica cada vez mais é reforçada como a epistemologia (teoria do conhecimento) do mundo atual. Em contrapartida, os mitos – que tiveram seu momento de epistemologia durante longa época da humanidade, até o surgimento da filosofia ocidental, entre os séculos VII e VI a. C. – perdem cada vez mais credibilidade… Será, mesmo?

Do grego mythos, significa “narrativa, palavra, o que se diz”. E sobre o que se diz? Sobre a representação da realidade. Portanto, o que ocorre na atualidade é que, no geral, a representação da realidade obtida pela ciência, muitas vezes, traz respostas mais plausíveis que a representação da realidade mítica. Assim, ao mito resta uma conotação pejorativa, associada à mentira. Esta pode se ligar a dois aspectos: à história da carochinha (inexistente) ou ao indivíduo destaque, muito bom, gênio (quase inexistente). Consequentemente, dentro de acaloradas discussões cotidianas, sobre variados temas – política, economia, conhecimento, aborto, pena de morte, Deus –, o indivíduo que constrói argumentos mais racionais, críticos, dotados de lógos, que fogem do lugar comum, do senso comum, do dito raso, é mais bem assimilado pelos que buscam o eruditismo, o academicismo, a episteme. Já aquele cidadão que está na outra extremidade é o que carece de estudos, está mais próximo do pseudoconhecimento dos mitos, pois enxerga uma falsa representação da realidade.

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Dentro de todo esse contexto, a celebração do Oscar se tornou um grande local para se aprofundar em algumas questões. Nada melhor do que aproveitar a enorme audiência de uma festa de premiação de filmes de Hollywood para se criticar questões sobre racismo e ambientalismo. Chris Rock, no início da festa, chamou atenção para os “progressistas brancos”, roteiristas e produtores de Hollywood, que “não contratam negros”, mas que são boas pessoas. Como Rodrigo da Silva – editor da Spotniks – muito bem salientou aqui, em centenas de séries e filmes analisados, “somente 28,3% de todos os personagens com falas nas obras não são brancos, cerca de 9,6% abaixo da composição populacional dos Estados Unidos. Nas 414 obras analisadas, lançadas desde 2014, apenas 1/3 dos personagens com falas eram mulheres, e pífios 2% eram gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros”. Isto é, ainda nos dizeres de Rodrigo, “a mesma indústria que discursa contra a desigualdade de renda e financia políticos de esquerda enquanto mantém seus membros no topo da pirâmide da economia americana, é a que pauta um debate fantasiado de mea culpa enquanto ignora solenemente os negros em suas obras e transforma a discussão étnica numa mera peça vote democrat de propaganda em ano de eleição”. Conclusão: falsa representação da realidade, mas engolida por muitos como verdadeira (quando Leonardo DiCaprio usa sua suada conquista para versar sobre a questão ambiental, então… que lindo! Que audácia! Que exemplo!). Ponto para o mito, mas o ar é de academicismo, engajamento, intelligentsia.

A (falsa) representação da realidade não se difere aqui no Brasil. Lula diz que o sítio em Atibaia não é seu. Entretanto, nos últimos poucos anos, visitou o local nada menos que 111 vezes. E agora há notícia de que os pedalinhos presentes no pequeno lago do sítio possuem os nomes de seus netos. Mas, ora! Certamente é intriga da oposição, é lógico, claro e científico! Assim como a crise é verdadeiramente representada nos dizeres de Dilma: “basta ter otimismo!” A representação da realidade mostrada por Lula, Dilma e – principalmente – por seu marqueteiro João Santana é a verdade mais absoluta que se pode ter sobre o Brasil, assim como os filmes de Hollywood retratam a humanidade!

Lula é um verdadeiro mito! Hollywood também! Leonardo DiCaprio idem.

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“Diké” rompida, república morta

Desde sempre a justiça é um valor caro à humanidade. Mesmo em tempos muito remotos – como pode ser estudado nas religiões antigas e na mitologia (sem confundir nem unir ambas) – há uma necessidade em se buscar harmonia em meio ao caos da natureza e das intempéries, a partir de explicações aceitas como justas (mesmo que não tão lógicas). O sacrifício a vidas humanas ou animais faz justiça às benesses divinas doadas às suas criaturas; a traição da Parsifae a Minos é justa na medida em que este não sacrificou um touro à Poseidon; a criatura que teve uma vida viciosa vai, ao morrer, ao reino de Hades, enquanto a outra que teve uma vida virtuosa se deleita nos Campos Elísios.

Nesse sentido, dentro de suas funções sociológicas, mitos e religiões fundamentaram os pilares da moralidade humana, bem como a convivência social e a criação de suas leis. Como ressalta Werner Jaeger em sua monumental obra Paideia, a justiça, ou diké, já é preocupação desde Homero (ou até mesmo antes), representando a medida justa para a atribuição do direito, medida esta encontrada na exigência da igualdade. Diante desse contexto, a estrutura social cria a pólis na região da Grécia Antiga, o que dá origem à filosofia, à democracia, à cidadania.

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A estrutura política germinada por volta do século VI a. C. na região de Atenas e seu derredor foi o berço do Ocidente no qual vivemos atualmente, rodeados pelas sociais democracias. Obviamente, muito foi modificado e inovado desde sua origem, com grandes contribuições sobre a res pública (coisa pública), não somente pelos filósofos clássicos, mas também por Maquiavel e uma gama de pensadores políticos modernos e contemporâneos. Todos com a diké embaixo do braço, em busca do bem comum de todos, da paz e da harmonia.

Entretanto, em pleno século XXI, no Brasil, sociedade bem avançada em termos científicos e tecnológicos (apesar do relevante problema da desigualdade social e intelectual), a crise política salta aos olhos. Não obstante a corrupção seja – infelizmente – histórica no País, há uma década vem sendo ainda mais criticada e apurada, bem como condenada pelo Poder Judiciário. A imoralidade no âmbito político é epidêmica, no sentido de que as todas esferas – municipal, estadual e federal – estão infestadas de parasitas que prestam um desserviço ao Estado Nação.

Diante disso, a diké saiu de cena, e a coisa pública não é mais, há tempos, preocupação dos representantes do povo. Obviamente, assim, a política serve como espaço de interesses pessoais e corporativistas de uma pequena minoria dos brasileiros, que aos poucos matam toda uma construção milenar em busca de um bom funcionamento da pólis, da política, da justiça.

Jaeger afirma que, na Antiguidade, o legislador era considerado educador do seu povo. Heráclito, filósofo do século V a. C., disse: “O povo deve lutar pelas suas leis como pelas suas muralhas”. Os políticos, que deveriam significar o povo representado, destruíram o conceito de república e de justiça, ou seja, quebraram a diké. O efeito disso é o mesmo mar de lama com a quebra do dique da Samarco. Talvez até pior.

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O que realmente importa? – com Eliane Brum e José Mujica

Há alguns dias, chegou às minhas mãos um texto – de Eliane Brum (leia aqui) – e um vídeo – de José Muijca (veja aqui). Penso que ambos podem ser relacionados, à luz do que tenho como verdade: a doutrina espírita.

Vamos, primeiramente, ao texto.

Trata-se de uma visão acerca da vida e da morte. A autora tem um olhar à lá “the dark side of the moon”, isto é, “o lado negro da lua”, no caso aqui, o lado negro da morte (ou melhor, da vida). Ela olha o lado pessimista, finito, finado, triste e pesaroso.

Não obstante, não é assim. Ela diz que “a verdade é que se morre aos poucos”. Isso não é verdade. Mais cedo ou mais tarde, viveremos aos poucos. A bem da verdade, a verdadeira vida é aquela na qual caminhamos para frente, progredimos e, assim, totalmente oposto ao que a autora diz, nós vivemos aos poucos; cada vez mais efetivamente, com mais luz, com mais vida!

Além disso, ela assina embaixo de uma citação de Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”. Não. Somos espíritos imortais, e vivemos para florescer, não para apodrecer.

Brum diz também: “A verdade (…) é que se morre aos poucos”. Discordo. O ser humano acorda aos poucos, passo a passo nasce para a vida verdadeira, cada vez mais próxima de Jesus e de Deus. Amanhã nunca é um dia a menos, mas sempre um dia a mais, de mais trabalho, de mais oportunidade, de mais caridade e amor que cada um pode dar para o outro e para o universo.

Ao associar a morte com um livro de outra autora – Joan Didion -, Brum aprofunda no “lado negro da vida”, com sua análise da experiência da perda do marido e da filha de Joan e de sua dor. Consequentemente, Joan envelhece triste, porque não sabe lidar com a morte, que não é o fim, mas meramente o retorno à verdadeira Pátria, a Espiritual. A não aceitação dos desígnios de Deus geralmente nos leva a dores, e nos leva também a sentir nossas provas e expiações mais pesadas do que são, porque não soubemos aproveitar a oportunidade da perda como aprendizado.

Eliane continua sua linha de raciocínio: “A surpresa final de que o melhor cenário, o de viver mais, era também o de perder mais”. Não, Eliane. Quando se vive mais, encarnado, não se perde mais. A intenção é justamente o contrário, é de se ganhar mais. A única perda interessante ao longo da vida é a perda de débitos que temos para nós mesmos e para a Justiça Divina.

Várias pessoas desencarnaram à época (e no ano) de Eduardo Campos. É verdade. Várias pessoas famosas, como Gabriel Garcia Marques, Plínio Arruda Sampaio, Rubem Alves e vários outros. Mas e os não famosos que também se foram? Mas… e os tantos que reencarnaram? Essa é a vida. Início e fim de uma de bilhões de passagens dos espíritos, ao redor do universo.

Talvez o imortal que morre trocasse toda a sua imortalidade por dividir uma última vez uma garrafa de vinho com o melhor amigo ou por mais uma noite de amor lambuzado com a mulher que ama ou apenas para ler o jornal na mesa da cozinha no café da manhã”, postula Eliane Brum. A verdade verdadeira não é que o ser que morreu trocaria sua imortalidade nas obras por mais um vinho, ou uma lida no jornal ou um café da manhã. O ser que morreu vive e vive uma vida mais verdadeira agora. E a imortalidade das obras não é nada comparado à imortalidade de suas boas ações. Ela busca uma frase de Woody Allen: “Como disse Woody Allen: ‘Não quero atingir a imortalidade através de minha obra. Quero atingi-la não morrendo’”. Se Woody Allen gostaria de ser imortal, deveria ele saber que é imortal, como espírito, o que de fato importa.

Diante disso, se Eliane diz que morreu um pouco com a morte desses vários (“Ao me deixarem, morro um pouco”), ela deveria virar o disco, olhar sob outro (e verdadeiro) foco: quando pessoas que deixaram bons exemplos – intelectuais e/ou morais – morrem, devemos absorver seus exemplos e viver ainda mais, e não achar que uma parte nossa morreu também.

Infelizmente, ela se confunde ainda mais ao se sentir “aliviada” por Robin Williams ter se suicidado, pois pôde escolher sua morte: “De que morreu? Parece que foi suicídio. E me senti de imediato aliviada”. O lado negro da morte e da vida se transformou no lado errado e falso de sua análise.

Por fim, ela conclui retomando seu início, falando do acaso da vida (e da morte). “O acaso, a vida que muda num instante, me assusta tanto quanto esse meu mundo que morre devagar”. Se ela soubesse que não existe acaso, mas sim uma grande harmonia que tudo rege, ilumina e vivifica, ela não teria essa visão sem regência, escura e mortificadora.

Com relação ao vídeo, Mujica começa: “a forma e os valores vividos pelo ser humano é a expressão da sociedade em que se vive”. “Ou você é feliz com pouco, (…) porque a felicidade está dentro de você, ou não consegue nada”. Bem observado, o homem está enclausurado em um mundo muito materialista, que valoriza questões materiais, quais sejam, status, fama, dinheiro, conquistas terrena. Entretanto, isso traz a felicidade?

Veja bem que não há aqui defesa da pobreza, convite à todos viverem como Francisco de Assis. O próprio Mujica diz que não é uma apologia à pobreza, mas sim “uma apologia da sobriedade”. Aquele que não está ébrio não se apega nas questões materiais para a felicidade, pois sabe (como dito supra) que a felicidade é interna.

“Mas inventamos uma sociedade de consumo. (…) Vive-se comprando e tirando”. Entretanto, o lado carnal e passional, muitas vezes, afasta-se do que realmente importa, a visão verdadeira, dentro de sua consciência, seu cristo interior, e busca respostas fora. “Queres conquistar o mundo? Comece pintando sua própria aldeia”. Assim, o homem, de dentro para fora, pode adquirir, aos poucos, sua felicidade. Constrói uma vida plena, sem gastar o tempo de vida, nos dizeres do uruguaio. Ora, se “a vida se gasta”, como Mujica diz no fim do vídeo, que ela seja bem gasta, bem aproveitada, em prol da absorção de mais verdades no caminhar evolutivo espiritual.

Em suma, diante do texto e do vídeo, podemos apreender e compreender o que realmente importa: (i) viver com serenidade, não com pessimismo; (ii) preocupar-se com a vida, não com os mistérios da morte; (iii) aproveitar as oportunidades de progresso, tanto sem reclamar do acaso e das tristezas, quanto sem cair nas tentações da matéria. Dessa forma, nem “o mundo da gente morre antes da gente”, nem “a vida é gasta”.

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O eu dos tempos pós-modernos: Je suis Charlie (Chaplin)

O Brasil do século XXI avança em mais um ano. Tempos pós-modernos: em tese, busca-se aumentar a liberdade, o conhecimento e a qualidade de vida, com tolerância; na realidade, busca-se viver o presente e tão somente o presente, com mais prazeres, e isso é o certo a se fazer! Valoriza-se mais a dose do que a garrafa. E não é qualquer dose de qualquer garrafa, mas aquela que todo mundo bebe.

Tempos corridos, efêmeros, momentâneos.

Santo Agostinho dizia que o tempo é um só, o presente, mas que é subdividido em três: presente do passado (memórias), presente do presente (instante) e presente do futuro (expectativas). Dessa maneira o instante do homem não é meramente um instante, por óbvio. Entretanto, não é o que se vê na atualidade. O instante é só o instante e satisfazê-lo basta. O mundo pós-moderno é dinâmico.

Nos tempos pós-modernos, tempo é dinheiro. E dinheiro traz prazer, traz boas doses, basta olhar ao seu redor. Assim, o indivíduo é moldado com metas padronizadas de beleza, de profissão, de gostos pelo lazer, de vida ideal, de bebidas e comidas. E aquele que não concorda com esse molde é, de alguma forma, rechaçado do meio. Nessa seara, interessante é observar que, nos tempos pós-modernos, o padrão-molde não costuma ser muito exemplar. O padrão do aluno famosinho não é o do bom aluno; muito pelo contrato, este costuma sofrer bullying. O padrão do jovem-adulto bacana é aquele que curte a vida material com muito dinheiro e com muito prazer; quem não curte esse tipo de vida é o chato do politicamente correto.

George Orwell tratou muito bem disso em sua obra “1984” (bem como Aldous Huxley em “Admirável mundo novo”). Aquela pessoa que se distingue do padrão é perseguida, de uma forma ou de outra, e não costuma se dar bem. É o que acontece com o protagonista de Orwell, Winston, que talvez faça parte da minoria de uma pessoa só. Mas quem disse que a voz do povo é a voz de Deus? Outro exemplo pode ser observado em Liev Nikoláievitch, protagonista de “O Idiota”, de Dostoievski: um rapaz extremamente correto, intelectualizado, de bom coração, que confia na bondade das pessoas – características de um “bobo” politicamente correto – que, por isso, é chamado de idiota por todos e não se dá bem por viver dessa forma.

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Santo Agostinho

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Dostoievski

Ora, se nas tragédias gregas Antígona tivera sua liberdade limitada pela lei da cidade e não pôde enterrar seu irmão de acordo com o que ela acreditava ser lei divina, o molde do status quo padrão está sempre com os olhos (do Big Brother de Orwell) acusadores em cima daquele que – muitas vezes, com mais conhecimento – não participa dos momentos e nem toma as doses com os demais, também limitando sua liberdade na era contemporânea. Nos tempos pós-modernos vive-se a alienação opressora.

Francis Bacon dizia que “saber é poder”. Mas, nos tempos pós-modernos, a sabedoria é aquilo que se pensa solidificado na sociedade, o mero senso comum. Aquelas profissões tradicionais, aquela cervejinha no fim de semana, aquilo que todo mundo fala sobre a crise política (e que sempre muda de conceito). O saber-poder dos tempos pós-modernos é falar com erudição diante de uma sociedade líquida – nos dizeres de Zygmunt Bauman – que não pensa a longo prazo, onde praticamente não há tempo, pois tudo é perene, vazio e se esvai.

Todos devem andar na mesma direção. Com o mesmo uniforme. Fazendo as mesmas coisas. O molde é o mesmo. Mais uma rodada, mais uma dose. Nos tempos pós-modernos, todos somos Charlie Chaplin. O eu raso, ralo e sem consistência, sem personalidade. Bate aqui. Assevera ali. Tic tac. Oxalá o passar do tempo seja o melhor remédio, mas não aquele tempo entre uma ressaca e outra dose; não um tempo líquido, mas sólido. Enfim, que de fato surjam tanto o tempo quanto o eu pós-moderno.

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Bauman

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Chaplin

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Todos estão condenados à morte

Michel Foucault (1926-1984) é um dos maiores filósofos não só do século XX, mas de todo o Ocidente. Estudado nos cursos de Filosofia, Sociologia, Comunicação Social, Psicologia e Direito, geralmente seus comentadores identificam três fases em seu pensamento: arqueologia, genealogia e ética. A primeira diz respeito ao “ser-saber” e consiste na análise de discursos ao longo do tempo sobre um saber não sistematizado; a segunda é o “ser-poder” e diz respeito à investigação do que permite a emergência de um discurso, tornando-se legítimo; e a terceira se trata do “ser-consigo”, no qual emerge a subjetividade e a ética.

Por meio de um exemplo prático – a violência – pode-se perceber as três fases. No período mitológico, a violência podia ser algo digno e virtuoso, por meio da vingança, como se percebe na Ilíada, onde Aquiles vinga seu primo Pátroclo matando Heitor. Sócrates e Jesus Cristo trouxeram um novo conceito, colocando-a sempre como nociva à humanidade. Entretanto, foi-se consolidando, ao longo dos tempos, uma violência legítima, com condenações por meio da Inquisição, por exemplo. Mas foi só no ápice do Iluminismo, pós-Revolução Francesa, que a legitimação da violência se deu, com instituições e constituições nas sociedades. No século XIX, vários réus condenados juridicamente eram executados no meio das ruas, sejam arrastados por carroças, guilhotinados, tendo membros de seus corpos mutilados, etc.

Assim, nas suas obras Vigiar e Punir e Microfísica do poder, Foucault demonstra como as instituições da pós-modernidade levaram o ser humano a uma passividade. As instituições de sequestro (escola, prisão e hospital) docilizaram o corpo, o que resultou em um “ser-consigo” alienado, pois inserido numa ética vinculada a práticas onde os homens são disciplinados e dominados.

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Dessa maneira, a ética vigente acerca da violência é aquela que legitima o ato violento e cruel para aquele que merece, descartando e desdenhando questões como direitos humanos e afins. Ora, ainda que a Fenomenologia do século XX de Husserl assevera a importância da liberdade de cada sujeito criar seu mundo, sua representação, Foucault consegue perceber que o homem não possui uma ética autônoma e é dominado por aqueles que legitimaram um discurso. Não por acaso uma pesquisa realizada em outubro, encomendada pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que metade do cidadãos brasileiros acredita que “bandido bom é bandido morto”.

A superficialidade de pensamento de 50% dos brasileiros acima de 16 anos de idade tão somente revela o quanto o País carece de uma verdadeira ética, ou um verdadeiro saber. Primeiro porque bandido é aquele que pratica atividades criminosas, ou que não cumpre a lei, sendo que, certamente, quase a totalidade desses 50% já cometeu alguma atividade criminosa, de maior ou menor teor. Segundo porque quase a totalidade desses 50% são seguidores de Jair Bolsonaro – “Bolsomito” – um cidadão que desfavorece o progresso do Brasil. E terceiro porque eles pensam que pensam por si mesmos, cometendo um grande crime: o pseudosaber.

Em suma, do jeito que a coisa anda, todos estamos condenados. A razão e o bom senso já morreram.

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Mais um partido – Novo?

Em 15 de setembro, o TSE aprovou a concessão de registro para o 33º partido no Brasil: o Partido Novo. Idealizado por empresários e profissionais liberais, carrega a bandeira de um Estado mais enxuto, propondo um governo mais liberal. Não obstante, é importante entender o real conceito de “liberalismo” que tal legenda adotou, já que houve uma gama de transformações de seu sentido ao longo da história.

O pai do liberalismo político é John Locke, defensor do jusnaturalismo, tese que garantia aos homens direitos de natureza – à vida, à liberdade e à propriedade. Na mesma seara, o economista Adam Smith, considerado o mais importante teórico do liberalismo econômico, dizia ser fundamental a não interferência estatal (ou interferência mínima) na economia para a promoção do bem-estar dos cidadãos.

No período pós-Revolução Francesa, com a Revolução Industrial, houve maior preocupação com a igualdade, fortalecendo ideais socialistas (mais à esquerda). Em contrapartida, surgiu o “liberal-conservadorismo” (mais à direita), que, por um lado, defendia a liberdade na economia e, por outro, buscava manter os valores tradicionais da sociedade.

O século XX acirrou as diferenças mesmo dentro do liberalismo. Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe são considerados liberais radicais, anarcocapitalistas ou libertarianos; já Edmund Burke e Thomas Sowell são da linha liberal-conservadora, mantenedores da ordem tradicional. Mais tarde, com as ditaduras militares ocorridas na América Latina, os países dessa região adotaram uma política ligada à direita ultraconservadora – de repressão e censura, além de expandirem relações econômicas (e majorando sobremaneira as taxas de inflação) com outros países, notadamente os EUA. Diante desse cenário, o liberalismo virou, na América do Sul, sinônimo de conservadorismo.

Hans Hermann Hoppe

Hans-Herman Hoppe

Assim, hoje, aqui no Brasil, é difícil encontrar alguém que esteja na linha Rothbard-Hoppe; já os que coadunam com o viés de Burke-Sowell são a grande maioria dos que se nomeiam liberais. Tanto que, Alexandre Borges e Rodrigo Constantino – diretor e presidente do Instituto Liberal, respectivamente, são dois dos principais nomes que articulam o Partido Novo. Ora, não é segredo para ninguém que ambos possuem ideais tradicionais com relação às questões sobre drogas, aborto, homossexualidade e afins (ou seja, a vertente liberal limita-se tão somente ao aspecto econômico).

Enfim, será que o que defendem foge tanto dos programas dos partidos antigos mais vinculados à direita, como DEM, PP ou o próprio PSDB (que inclusive propôs medidas mais liberais na economia durante a campanha presidencial de 2014)? A pergunta não é descabida, pois já há simpatizantes do Partido Novo indicando Jair Bolsonaro (totalmente conservador) como candidato à presidência em 2018! Para manter a tradição; conservar… parece, então, que o Partido Novo pouco tem a trazer de novo.

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Partido Novo

Partido Novo

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