A luz da Metafísica

“Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”. Essa frase é de Ludwig Wittgenstein, figura fundamental da filosofia da linguagem. Wittgenstein, nessa citação, faz uma crítica à teologia e ao místico, afinal, para ele, a função da filosofia é de apenas elucidar os pensamentos, de modo lógico, por meio das proposições. Diante disso, não há proposições sobre Deus e suas adjacências (nem sobre ética).

Wittgenstein tem Kant como influência, uma vez que este afirmou que o conhecimento humano é incapaz de compreender assuntos sobre Deus, imortalidade da alma e liberdade, pois tais conhecimentos estão no mundo numenal e os indivíduos só conhecem o mundo fenomênico.

De modo sucinto, entende-se o porquê de, nos últimos dois séculos e meio, a Metafísica ter perdido seu espaço na filosofia e, consequentemente, na humanidade.

Além disso, a marginalização da Metafísica também é a causa do “desencantamento do mundo”, nos dizeres de Max Weber, no sentido de que o Ocidente perdeu, a partir do século XVI, a concepção de um mundo místico e mágico, devido às Revoluções Científica e Industrial, notadamente.

Hoje, tem-se um mundo tecnológico, científico, ultraconectado. Contudo, com pessoas depressivas e vazias. Ora, mas a Era das Luzes teve seu ápice há mais de dois séculos(!!!), onde está o planeta iluminado por pessoas iluminadas?

Está correta a Escola de Frankfurt de Adorno e Horkheimer, que criticou Kant e afirmou que o Esclarecimento não foi atingido pelos homens. Entretanto, a concordância não condiz com os frankfurtianos ipsis litteris, pois enquanto estes culpam o sistema capitalista pelo não alcance da luz, aqui se culpa a ausência da Metafísica como geradora da escuridão contemporânea.

Fato é que as pessoas buscam a luz apenas na matéria. Assim, Platão e sua famosa Alegoria da Caverna estão em descrédito. Todos sabem que o Mundo Inteligível é o mundo da verdade, onde existe a verdadeira luz. Ainda que Arístocles (Platão, para os mais íntimos) não tenha vinculado a luz a Deus (como Agostinho efetivamente fez), todos sabem que o Mundo Inteligível é o mundo pós-vida na Terra, a Metafísica. Logo, apenas no “para além da física” é possível atingir conhecimento da coisa-em-si, também denominado noesis (conhecimento pleno). Interessante que o ilustre filósofo Henrique Lima Vaz faz um vínculo entre noesis e intuição. Palavra muito pouco bem quista nos últimos séculos dentro da filosofia, já que de cunho muito abstrato (e… metafísico). Contudo, Sócrates – mestre de Platão – creditou boa parte de suas falas à intuição: quando perguntado de onde surgiam as ideias que faziam com que ele dissesse tão belamente, sua reposta ia na direção de que era intuitivo, como se um bom espírito soprasse tais ideias em seus ouvidos. O mesmo Sócrates, dessa forma, também defendia uma visão da Metafísica no centro de importância: “Ele que viveu como um verdadeiro filósofo tem razão de ter bom ânimo mesmo se está prestes a morrer, e que após a morte, ele pode esperar por receber o maior bem no outro mundo”, diz ele no livro platônico Fédon (ou da Alma).

O Iluminismo focou demais (talvez exclusivamente?) no que se tornou um intelectualismo tóxico. Bem que Rousseau já dizia que essa idolatria à cultura e ao conhecimento não necessariamente emanciparia os indivíduos. Até pensadores materialistas, como Nietzsche e Freud, chamaram a atenção para o falso domínio que o ser humano detém, mesmo sendo dotado de razão. Ambos admitem que o mundo é/está/estará sempre além do controle humano, mas de formas diferentes, claro. O primeiro por meio do niilismo (a vida não tem sentido) e do “amor-fati” (deve-se amar a vida com todos os seus imprevistos). O segundo ao demonstrar que a pessoa não tem sua essência no “ego”, mas sim no “id” (pulsão). Por isso, o “ego” é uma espécie de máscara que a pessoa veste durante quase toda a vida, pois seu verdadeiro eu (id) é censurado pelo “superego” (controle da cultura); ou seja, para Freud, o indivíduo não controla nem a si mesmo.

Ora, Hegel já dizia que, para haver uma evolução do espírito (consciência), é preciso ocorrer uma dialética baseada na suprassunção, isto é, a antítese não pode negar totalmente o momento anterior (tese). Nessa seara, quando – a partir do método científico de Francis Bacon – a humanidade caminha para a total negação da Metafísica, o resultado que se vê hoje é a escuridão na vida dos indivíduos. Valem muitos exemplos: a liquidez de Bauman, a exposição de Debord, a ação instrumental de Habermas; enfim, o pessimismo de Schopenhauer. Com isso, a evolução hegeliana está estagnada!

O século XX, com “a existência precede a essência” – da Fenomenologia de Husserl e do Existencialismo sartreano – literalmente jogou, lançou o homem ao mundo, sem quê nem porquê, fortalecendo o niilismo nietzscheano e a falta de um télos efetivo e sólido. Logicamente, num mundo sem Deus, como muito bem colocado por Dostoiévski, tudo é permitido; e quando há permissão para tudo, nada se obtém. É a regra dos extremos, não funciona.

O resultado é um mundo não de crise de âmbito financeiro, nem famélico, nem de violência; mas sim um mundo de crise moral, de crise do ser humano, que não possui nem mesmo autoconhecimento (neste ponto, o Oriente parece estar mais orientado, com o perdão do trocadilho).

Afinal, como entender o conceito de eudaimonia (felicidade,realização), quando se coloca o ter acima do ser? Ou, ainda mais importante, quando não se sabe o que significa o próprio ser? Sócrates colocava essa como a principal questão a ser respondida pelo homem e, pasmem, a resposta era: “sua alma”. Alguns séculos depois, Jesus Cristo consolidou vários conceitos dos filósofos clássicos, ao asseverar: “todos vós sois deuses”. Com isso, começa-se a entender o real conceito de finalidade aristotélica/tomasiana, de conseguir passar da potência para o ato, da noesis (intuição) para o eidos (Ideia). O objetivo não é meramente humano, demasiado humano. Vai além.

Enfim, é somente com a retomada da Metafísica como centro da vida do ser humano que este conseguirá se iluminar. O livre-arbítrio o levou para o cerne da Cidade dos Homens, amando a Mamom e todos os seus discípulos (fama, riqueza e poder), numa completa cegueira e escuridão. Mas é possível virar o jogo. Agindo cada vez mais com a verdadeira liberdade – “que se faça a Vossa vontade” – e, consequentemente, sendo Esclarecido pela luz da Metafísica.

Esse é o único caminho. A verdade. E a vida.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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2 respostas para A luz da Metafísica

  1. “…quando há permissão para tudo, nada se obtém.” Verdadeiro isso, e complemento com: e, se isso acontece, vendemos a alma e ficamos no vazio, na completa escuridão.
    Excelente texto!
    Parabéns, meu filho!

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