Sobre piadas, digital influencers e o embate entre conservar ou progredir

Um grupo de brasileiros fez um vídeo, na Rússia, em que entoava palavras de mau gosto (para dizer o mínimo) para uma russa que, não sabendo a língua portuguesa, fez coro ao grupo. A justificativa foi de que se tratava de uma brincadeira e que eles tinham bebido um pouco além da conta. Poucos dias depois, um rapaz, que também está na Rússia, e que é bem conhecido no YouTube, fez uma piada de mau gosto (também para dizer o mínimo) com um jogador francês. O cântico do grupo tinha cunho sexual e caracterizava uma ofensa ou mesmo uma espécie de invasão à mulher que estava com os brasileiros. Já a piada de mau gosto do “youtuber”, na verdade, trata-se de racismo.

As duas situações foram fortemente rechaçadas pela opinião pública, sob os argumentos de desrespeito com as mulheres e com os negros. Por outro lado, a minoria que defendeu as duas atitudes alegou que a tropa do “politicamente correto” quer destruir a diversão e a piada.

Diante desse cenário, tem-se atores novos, mas um tema que já se arrasta durante bons anos, que diz sobre o conflito entre uma suposta liberdade de expressão ilimitada (com fortes bases na tradição) versus limites de tolerância com relação ao que é dito (principalmente quando se tem como alvo o que é visto como “minoria”).

O argumento dos que defendem esses tipos de situações salienta que o mundo está chato com todo esse policiamento, e que hoje não haveria lugar para os comediantes do fim do século XX, como Ari Toledo ou mesmo programas como “Sai de baixo”. Que piada foi feita para rir e que faz parte. Que a geração passada sofreu esse tipo de piada e nem por isso ficou com “mimimi” e vitimização.

piada

Entretanto, parece que esses defensores ainda não perceberam a mudança pela qual o mundo (ou pelo menos o Ocidente) passa. Numa perspectiva progressista (hegeliana e não marxista e nem positivista), o mundo está em evolução e, com isso, não é porque algo era bem aceito pela população na década de 1990 que significa que deve ser bem aceito em 2018. Ora, nas décadas de 1960 e 1970, o ato de fumar era considerado charmoso, recomendado, intelectual e bonito; já hoje é considerado um ato nocivo à saúde e não recomendado.

“Ah, então as piadas serão extintas? Não se pode mais fazer piada?” Se o conceito de piada se refere unicamente em, para fazer uma pessoa rir, ofender alguém (ou um grupo), então, sim, esse tipo de piada precisa ser extinta. É só com esse tipo de pensamento mais radical que, aos poucos, as gerações anteriores irão entender que uma piada que ofende uma mulher ou um negro ou um homossexual não é um motivo para rir e debochar dessa pessoa.

O mundo se move e muita coisa nova parece ser superior à velha.

Contudo, para que esse progresso possa efetivamente ocorrer, é necessário que haja mais racionalidade na vida das pessoas, isto é, mais conhecimento, mais virtude e mais empatia. E isso, geralmente, é obtido por meio da busca por leituras edificantes e instrutivas (muitas delas até tradicionais, como Sêneca e Agostinho). Não obstante, o que se vê por aí não é bem isso, mas sim busca por referências e até mesmo exemplos a serem seguidos em pessoas conhecidas como “digital influencers”. São os famosos youtubers. Neste caso, certamente essa inovação não parece ser benéfica à população.

youtubers

Cocielo, youtuber

Em suma, é preciso saber lidar com a linha tênue entre o que conservar e o que inovar. O problema é que a humanidade parece ainda se agarrar em muita inovação inócua, ao mesmo tempo em que abre mão de algumas tradições profícuas; e vice-versa. Talvez o caminho seja virar essa chave.

progres x conserva

 

 

 

 

 

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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2 respostas para Sobre piadas, digital influencers e o embate entre conservar ou progredir

  1. Muito bom!
    É necessário. É indispensável.

  2. Elaine disse:

    Teceu muito bem o raciocínio! Sinto.e.vivencio pessoalmentenesse.conflito diversas vezes mas nunca pensei amplamente ou teci uma teia de raciocínio como esta! E eu concordo, sim, com essa questao de abraçar o novo e nao abamdonar o velho,porém, após análise e escolhas corretas. Hoje em dia poucos se referem aos negros como macaco ou negrinho… preto.. e isso no passado era normal. A humanidade evolui. .. nao adianta justificar o novo com o velho!!
    Finalmente, gostei demais do parágrafo que fala que a sociedade evolui com leituras edificantes e instrutivas. Resume mto do que penso. Parabéns!

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