Contemporaneidade intranquila

A Grécia Antiga sempre buscou um modo de vida que visava felicidade, tranqüilidade, realização, desde a época dos mitos, com Homero e Hesíodo, passando pelos filósofos clássicos (Sócrates, Platão e Aristóteles), além dos sofistas. Por volta do século II a.C. – devido à invasão do Império Romano – surgiram as Escolas Helenistas, com o intuito de os gregos não perderem ainda mais sua identidade cultural. Cinismo, Estoicismo, Epicurismo e Ceticismo foram os quatro modos de vida que levariam à ataraxia (tranqüilidade da alma) tanto do indivíduo quanto da sociedade.

Mais de vinte séculos depois, contudo, o que se nota são indivíduos, comunidades e países perturbados. Mesmo com milhares de religiões, palestras motivacionais e livros de auto-ajuda, o ser humano vive ansioso, raivoso, temeroso e, consequentemente, desequilibrado. Será que não vale a pena buscar – novamente – um renascimento de alguns valores Antigos, notadamente os das Escolas Helenistas?

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Primeiramente, é patente que o mundo atual se apega de maneira hiperbólica ao dinheiro e aos bens materiais. Diógenes, protagonista do Cinismo, dizia que a tranqüilidade só era passível de ser atingida se o individuo abrisse mão de toda a vida em sociedade, com suas regras, seus bens, seus prazeres, e vivesse de acordo com a natureza. Todavia, isso está muito distante do dia-a-dia urbano e tecnológico de muitos; não obstante, a filosofia cínica pode servir para contrabalançar o afã desmesurado pela matéria. Além disso, a humanidade parece ainda não saber lidar com as tragédias. Que infelizmente a vida possui mais dificuldades do que alegrias parece algo sólido. Entretanto, não se lida de forma adequada com essas vicissitudes (alternâncias). O homem busca controlar cada vez mais o mundo e suas ações, a fim de evitar os reveses, como se isso fosse possível. Mas o Estoicismo diz que o homem é um microcosmo diante do mundo (macrocosmo), e isso leva a fatalidades (ocorrências que fogem ao controle humano). Assim, deve-se buscar uma maior indiferença com relação aos prazeres e à dor. Nesse sentido, “aceita que doi menos” é um bom jargão estoico nos dias atuais, uma vez que isso pode levar a menos expectativas e mais tranqüilidade. Também há o Epicurismo, que diz que não se deve temer os deuses (pois eles estão em outras esferas), a dor (pois ou ela é passageira ou suportável) e nem a morte (pois quando o homem é, ela não é; e quando ela é, o homem não é). Isso certamente pode auxiliar os homens contemporâneos, que gostam muito de culpar essas três esferas por seus fracassos. Por fim, há o Ceticismo, que prega a tranqüilidade por meio da suspensão do juízo. Isso pode ser bem útil para aqueles que entram em brigas e ofensas para defender sua verdade absoluta na política, na religião, no futebol.

Tudo isso posto, não é muito complicado pensar como as Escolas Helenistas podem servir de remédio e até profilaxia para a doença do ser humano, que é, sobretudo, moral. O desequilíbrio da alma leva ao estresse no trânsito, no trabalho, no descanso, ou seja, nas relações humanas. Certamente, com mais equilíbrio no que diz respeito aos bens materiais (cinismo), às dificuldades e aos infortúnios (estoicisimo e epicurismo) e à vaidade e à arrogância (ceticismo), o homem contemporâneo será mais tranqüilo e feliz.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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Uma resposta para Contemporaneidade intranquila

  1. Elaine disse:

    Muito melhor que qualquer auto ajuda!!!
    Muito feliz e em.paz após ler seu texto 🤗😀

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