“Pós-verdade”

Todo ano, a universidade de Oxford, por meio da Oxford Dictionaries, elege uma palavra para a língua inglesa. Em 2016, a palavra escolhida foi “pós-verdade” (“post-truth”). O significado desse termo está relacionado a circunstâncias em que a opinião pública é mais facilmente moldada mediante apelos à emoção ou a crenças pessoais do que aos fatos objetivos.  Isso mostra que o debate político vivencia um período no qual a verdade tem cada vez menos importância.

Apesar do aumento da inserção da pauta política na agenda de cada vez mais e mais cidadãos devido ao avanço da informação – principalmente por meio da internet e suas redes sociais –, esta nem sempre chega ao destinatário de forma verídica. Hoje não se tem apenas grandes veículos de informações, como canais de televisão, jornais e revistas de circulação regional ou nacional; imprensas alternativas e opiniões as mais diversas sobre vários assuntos pululam no feed dos usuários de redes sociais. E, apesar de neófitos no “ramo jornalístico” (leia-se produtores/difusores de notícias e/ou opiniões) – sejam eles mais ou menos profissionais –, o sensacionalismo continua (infelizmente) como arma forte para a divulgação dos trabalhos. Some-se a isso o fanatismo religioso que tem se tornado as disputas políticas/ideológicas e pronto: aí está a “pós-verdade”.

Nesse sentido, a probabilidade em se alcançar um consenso – baseado no agir comunicativo de Habermas, em prol de um maior bem-estar da população, por meio da Razão Comunicativa – se torna pequeno, uma vez que o número de compartilhamentos sobre mentiras é tão grande (ou talvez até maior) do que o número de compartilhamentos de verdades. Nas últimas eleições norte-americanas, por exemplo, entre Trump e Hillary, as redes sociais foram chafurdadas com notícias sobre o apoio do Papa Francismo ao Trump, ao mesmo tempo em que se afirmava que Obama foi o criador do Estado Islâmico. No caso do Brasil, muito já foi dito sobre o Sérgio Moro ser filiado ao PSDB, ter parceria com os Estados Unidos, bem como já afirmaram com certeza absoluta de que o PT buscava transformar o Brasil numa Venezuela com o petismo-lulismo.

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Dessa maneira, alimentados pelo que Habermas chama de ação estratégica (ou instrumental), os indivíduos pensam apenas na sua individualidade, todavia travestida de coletivismo, influenciando os outros por meio de bens, seduções ou até ameaças. O resultado disso tudo são falsos moralistas e falsos cidadãos, que se dizem preocupados com o bem-estar e com o consenso (ação comunicativa), mas fazem de tudo para convencer o outro de sua verdade (ação estratégica).

E qual o resultado disso? Simples. Quando os fatos são substituídos pelo sensacionalismo e pelo fanatismo, o irreal vence e vira realidade. Demagogos como Trump, Bolsonaro e Crivella já foram eleitos. E para 2018, além de Jair Bolsonaro como candidato, Roberto Justus confirma também pode disputar a Presidência. O fenômeno “pós-verdade” vem dando vida à mentiras tenebrosas.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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