Karl Marx – o deus da América Latina

O ser humano sempre buscou a verdade. Tida como absoluta desde os mitos, depois com o surgimento da filosofia, passando pelo Cristianismo, até chegar no método científico de Galileu: metafísica na Antiguidade e Idade Média e empirista na Modernidade.

A partir do Renascimento, a ciência se desenvolveu com Newton e logo explodiu o Iluminismo, com Montaigne e Voltaire, que advogaram à favor do multiculturalismo. O conservadorismo da Igreja e do Antigo Regime perderam força e ganhou poder o relativismo. Diante disso, abriu-se espaço aos ideais revolucionários de igualdade e liberdade às minorias – mulheres, negros, índios, pobres, ateus, homossexuais – na sociedade, contra um único modus operandi social.

No encalço das ideologias relativistas das Revoluções Francesa e Americana, no século XIX surgem Marx e Nietzsche, dois críticos ferrenhos à moral e à cultura ocidental tradicional. Era o início de um retorno ao absoluto, não obstante diferente de Deus.

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Destarte, o Imperialismo europeu dos séculos XIX e XX, somado a Duas Guerras Mundiais, resultou no existencialismo anticapitalista (de Sartre, Foucault e outros), reforçando ainda mais o marxismo cultural (com uma grande ajuda da Escola de Frankfurt) – que já era forte. No cenário da América Latina, adicione-se ainda Ditaduras Militares na segunda metade do século XX e a estrutura social é totalmente contra o conservadorismo (que critica a religião, a tradição familiar e o capitalismo). Isso tudo implicou em Chávez, Fidel, Lula, Kirchner, Morales.

Assim, o início do século XXI na América Latina é dominado por uma ideologia certa do que é o certo: os burgueses, os religiosos, as leis, enfim, toda a tradição está errada. Com isso, o relativismo não tem seu lugar, a não ser demagogicamente, em prol de uma falsa democracia. As bandeiras dos governos de esquerda são as verdades absolutas, ao mesmo tempo que os valores tradicionais são inaceitáveis e intoleráveis.

Nesse sentido, a superestrutura (questões jurídico-políticas e ideológicas) deve ser extirpada da sociedade, mas desde que seja contra o marxismo cultural: ou seja, o impeachment é legal contra o Collor, mas é golpe contra a Dilma; o Coronel Ustra é torturador, mas o Che Guevara é ídolo; o socialismo (que já matou milhões na História) é o modelo político ideal a ser ensinado nas disciplinas filosofia, sociologia e história, enquanto o liberalismo é atrelado à globalização e ao capitalismo malvadão comedor de criancinhas; a mulher bela, recatada e do lar deve ser criticada a todo custo, pois faz parte dos valores tradicionais de família.

No fundo, o fato social de Durkheim – que coage a forma de cada indivíduo pensar e agir na sociedade – ainda predomina: não mais dos conservadores, mas dos chamados “progressistas”. Afinal, os scholars dos DAs e DCEs universidades e antros de “episteme” supostamente aceitam a “doxa” contrária, mas tão somente sob a alcunha de fascitas, opressores, machistas e coxinhas. Coisa linda de se ver. Parafraseando o título de um (fraco) filme que parafraseia Nietzsche: “Deus não está morto”: Karl Marx é o deus da intelligentsia contemporânea, com seu marxismo cultural, aquele que pode justificar o relativismo se tornar absoluto.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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Uma resposta para Karl Marx – o deus da América Latina

  1. Elaine Soares disse:

    Provocador esse texto!! Começa tão teórico e se desenrola com brilhantes conclusões!
    Sabe que serviu para eu refletir sobre algo que acho que intimamente já sabia: a verdade continua absoluta e única, mas agora ela não é aquela tradicional. Quem se desviar dela, ou seja, quem continuar “tradicional”, deve ser execrado da sociedade. Que coisa, não?
    Uma maneira original de debater o contexto atual.. beijos!

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