Diálogos platônicos no Brasil

Em 2016, no Brasil, dois cidadãos conversam sobre política.

JOSÉ SÓCRATES – Ó, meu caro e bom Inácio, eu vejo tua indignação com o cenário político atual. Instrua-me com tua sabedoria e me diga como melhorar o País.

INÁCIO – Por Deus, Sócrates! É um absurdo o golpe que está sendo tramado, um atentado contra a democracia!

J.S. – Golpe? O que diz?

I. – Ora, não vês às claras?

S. – Creio estar com a visão turva. Esclareça-me.

I. – Não é só você, pelo visto. O conceito de justiça está deturpado em nossa República, como Platão já nos disse séculos atrás.

J.S. – Não acompanho teu raciocínio. Ainda bem que temos Vossa Excelência para nos instruir. Justiça e golpe: desconheço tais significados.

I. – São antagônicos. Na justiça não há golpe.

J.S. – Sem conhecer não posso confirmar isso.

I. –As leis são importantes para a justiça?

J.S. – Sem dúvida.

I. – Então, cumpri-las é algo justo.

J.S. – Dessa forma, a justiça consiste em cumprir as leis?

I. – Exatamente.

J.S. – Concluo, assim, Inácio, que descumprir a lei seja injusto. E também é um golpe?

I. – Como não?

J.S. – O governo tem descumprido a lei?

I. – O que dizes? Pelo contrário, a oposição que assim age.

J.S. – Descumpriu uma lei?

I. – Nitidamente.

J.S. – Como?

I – Inventou um crime.

J.S. – Não entendo.

I. – Crime de responsabilidade. Passível de impeachment. A oposição inventou que a Presidente incorreu em crime de responsabilidade.

J.S. – Aquele previsto no art. 85 da Constituição Federal?

I. – Esse mesmo.

J.S. – O ex-presidente Collor perdeu o cargo por impeachment, certo?

I. – Foi.

J.S. – Foi justo?

I. – Com certeza.

J.S. – Foi crime de responsabilidade?

I. – Sim.

J.S. – Baseado em quê?

I. – A revista Veja publicou uma reportagem bombástica do irmão dele, o que configurou crime de responsabilidade.

J.S. – Uma reportagem de uma revista?

I. – Começou aí.

J.S. – A Isto É publicou uma reportagem com uma delação de um político na operação “lava-jato”. Depois de alguns dias vazou um áudio do aliado Mercadante; depois outro áudio com o ex-presidente Lula. Tudo isso, de alguma forma, vinculou a Presidente Dilma. Não configura crime de responsabilidade?

I. – Não.

J.S. – Não pode “começar aí”?

I. – De modo algum.

J.S. – Mas o parágrafo único do art. 85 da CF diz que “os crimes de responsabilidade serão definidos em lei especial”. Mas essa lei especial não existe até hoje. Como saber que o Collor foi acusado justamente e Dilma injustamente?

I. – Você lê Veja? Não tem credibilidade.

J.S. – Mas…

I. – Além disso, sobre esses áudios que vazaram, trata-se de outra injustiça.

J.S. – Por quê?

I. – É ilegal vazar documentos e escutas pessoais.

J.S. – É justo os cidadãos terem conhecimento de tramas secretas que os prejudicam?

I. – É.

J.S. – Ainda que essas tramas estejam em caráter de documento sigiloso?

I. – Como assim?

J.S. – É difícil explicar tão bem como tu. Vou exemplifica. Foi justa a ação de Edward Snowden, ao revelar documentos secretos, para alertar à população sobre a espionagem?

I. – Claro, por Deus!

J.S. – Seria justo alguém revelar dados secretos que mostram falta de probidade na administração pública?

I. – Sim.

J.S. – Esse não parece ser o caso de Dilma?

I. – O quê? Você acha justo o apoio que Aécio tem? É justo o povo pensar que ele é a solução?

J.S. – Aécio foi vaiado na Avenida Paulista numa manifestação. Ele também foi delatado na operação “lava-jato”.

I. – Essa operação aí é injusta e golpista. Lula sofreu um mandado de condução coercitiva. Ação autoritária e ilegal.

J.S. – Em 2 anos dessa operação, já houve mais de 100 mandados de condução coercitiva. Por que levantaram a bandeira da injustiça só contra o Lula?

I. – O juiz Sérgio Moro só investiga o PT.

J.S. – O PP é o partido campeão entre os investigados na “lava-jato”; além desse partido, há o PMDB (Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Romero Jucá investigados) e o PTB (Collor investigado).

I. – É justo que o Aécio seja investigado.

J.S. – Todo mundo sabe que ele foi delatado pelo Delcídio. Parece que ele recebia propina num “projeto” da Belo Monte.

I. – Pois é. Ele tem de ser justamente condenado.

J.S. – E o Lula, deve ser condenado pelo Mensalão e/ou Petrolão?

I. – Não, isso é golpe.

J.S. – A justiça não deve ser para todos?

  1. É isso que estou dizendo.

J.S. – É justo alguém que rouba ser preso?

I. – Óbvio.

J.S. – Pobre ou rico?

I. – Qualquer um.

J.S. – E se alguém se valer de artifícios para protelar a justiça?

I. – É injusto.

J.S. – O Lula disse, em 1988, que “pobre, quando rouba, vai preso; e rico, quando rouba, vira ministro”.

I. – Ele sempre fala verdades, preza pela justiça.

J.S. – O Ministério Público requereu sua prisão e ele virou ministro.

I. – O MP foi comprado pela mídia golpista.

J.S. – Então, o MP cometeu uma injustiça?

I. – Sim.

J.S. – Assim como o Moro, a Veja, a Globo?

I. – Exato. Mídia comprada. Só a Carta Capital diz a verdade e é justa.

J.S. – Um dos áudios vazados mostra o Lula falando com o Jacques Wagner que vai pedir ao editor da Carta Capital, Mino Carta, para escrever um artigo criticando as manifestações contra o governo.

I. – Áudio injusto e golpista. Está claro como a luz do sol.

J.S. – Tu separastes o joio do trigo.

I. – Não é tarefa fácil.

J.S. – Como posso me manter no rumo do justo?

I. – Nada de Globonews; somente Tico Santa Cruz e Gregorio Duvivier. Nada de seguir o liberal Rodrigo da Silva, do Spotniks; siga a Jandira Feghali. Nós somos o bem, eles são o mal; nós somos o justo, eles são o injusto.

I. – Obrigado, Inácio. Vamos defender o “País de todos”, a “Pátria educadora”.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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2 respostas para Diálogos platônicos no Brasil

  1. Fátima disse:

    Ironia machadiana. Muito bem escrito! Parabéns!

  2. Elaine Soares disse:

    Excelente artifício! Diálogo atual e claro, coisa difícil ao ter que se valer da linguagem jurídica…
    Como disse mamae, uma ironia desalentadora, mas elucidadora também! beijos

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