Bombardeio sofístico

O Brasil vive um momento de grande crise política, causada por recessão econômica somada à investigações de corrupção, com consequentes prisões de empresários (Marcelo Odebrecht) e políticos (José Dirceu). Com isso, boa parte da população, desde 2015, manifesta-se de forma cada vez mais efetiva nas ruas do Brasil. A última foi dia 13 de março de 2016, com participação de 3 a 4 milhões de pessoas, segundo a Polícia Militar, os manifestantes e o DataFolha.

Diante desse cenário, dentro de uma sociedade democrática, por óbvio, há aqueles que são à favor e outros que são contra as manifestações. Também por óbvio, os contrários são aqueles que defendem ferrenhamente o governo, enquanto os favoráveis pedem a saída de Dilma da Presidência. Ainda no que diz respeito à essa polaridade, uns acusam a outra parte de serem adeptos da ofensiva comunista na América Latina, enquanto a outra parte acusa uns de condenarem apenas um partido como corruptos, com muita parcialidade.

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Até aí, tudo bem; se fosse “somente” isso – apesar do baixo nível dos debates –, não seria surpresa dentro da história política e democrática. Ambos os lados defendendo sua verdade. O problema é que, na política, a verdade é um pouco (muito) mais complexa. Pode ser facilmente manipulada, e Sócrates percebeu esse perigo nos sofistas. Estes reduziam o conhecimento à retórica (arte da persuasão) e, assim, moldavam a verdade de acordo com suas conveniências.

Ora, por mais que a “arte do bem falar” permeie toda a história da política ocidental, vale a pena observar com cautela a presença dos sofistas eleitores nos últimos tempos. Principalmente nas redes sociais; estão cheio deles nos últimos meses, no Brasil. E isso vale para ambos os lados da discussão, i. e., tanto aqueles à favor quanto os que são contra as manifestações, que tentam convencer os outros de sua “verdade’, por meio de pseudoconceitos.

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Do lado daqueles que menosprezam as manifestações, primeiro começou uma massa (de manobra (sic)) de compartilhamentos com um documento público que mostrava Sérgio Moro ser filiado ao PSDB. Milhares de compartilhamentos. Problema: o Sérgio Moro do documento é Sérgio Roberto Moro, não Sérgio Fernando Moro, juiz federal responsável pela “lava-jato”. Depois, veio o “argumento” de que os manifestantes do dia 13 não representam o Brasil, pois somaram cerca de 4 milhões de pessoas, dentro de 210 milhões de habitantes. Isso significou 1,9%. Problema: em 1992, 1 milhão de pessoas foram às ruas pedir o impeachment de Collor, quando havia cerca de 154 milhões de habitantes. Isso significou 1,56% e representou o País. Terceiro, viralizaram uma foto de um casal na manifestação que tinha uma babá cuidando de seus filhos. A ideia foi vincular a desigualdade social “naturalizada” presente no Brasil, não percebida pela “elite” que foi às ruas. Problema: a manifestação é contra a corrupção acintosa que salta aos olhos de todos, e que, certamente, se não ocorresse (ou fosse menor), já teria resultado para o País menos desigualdade, menos racismo, etc. Inclusive, a babá fotografada estava empregada, algo muito caro para as campanhas governistas, que melhoraram o estado das “domésticas” com relação às leis trabalhistas Ou seja, falácia pura. E muitos, mas muitos mesmo, compraram todos esses falsos argumentos como sendo de formação, epistêmicos.

Já do lado da oposição, primeiramente, muitos se valeram do manifesto para criticar tão somente o PT e apoiar Aécio e/ou Alckmin, como salvadores da Pátria. Problema: os dois políticos estão cheios de investigações nas costas (Aécio inclusive citado na “lava-jato”). Em segundo lugar, tantos outros apoiaram a volta da Ditadura Militar. Problema: este nem vale a pena perder tempo com explicações. Terceiro, muitos apoiaram Jair Bolsonaro como próximo Presidente. Problema: político conservador, com opiniões machistas e homofóbicas. E muitos, mas muitos mesmo, compraram todos esses falsos argumentos como sendo de formação, epistêmicos.

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Nesse sentido, a sofística domina a arte da política e tira o foco do que, verdadeiramente, o povo requer com as manifestações: fim da corrupção, seja ela cometida por político do partido A, B, C ou Z. Entretanto, por causa dos “fanáticos-partidários-extremistas-cegos”, os políticos nem precisam mais ser altamente competentes na arte da oratória. Mesmo com dados evidentes do sítio em Atibaia, dos “presentes” do Palácio do Planalto, do Mensalão e do Petrolão, Lula é considerado um Deus inocente, e tem forte apoio de ótimos sofistas espalhados nas redes sociais e nos quatro cantos do Brasil. Aécio Neves, investigado por fraudes no Governo de Minas e delatado na operação “lava-jato”, também é defendido com unhas e dentes, como probo e bom. Bolsonaro, idem. Bem que Clarice Lispector já dizia: “Abutres espertos se multiplicam ao se alimentarem dos incautos”. Mentira. Inventei agora. Mas você já estava compartilhando.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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2 respostas para Bombardeio sofístico

  1. Fátima disse:

    Pelo sim, pelo não, a arte imita a vida. Ou a vida imita a arte, afinal, a ordem da semântica não altera a frustração.
    E viva a poesia, hoje, que se comemora o seu dia!

  2. Elaine Soares disse:

    clap clap clap!!! dos melhores. .. 😊😊
    Todos têm que ler isso, gente!!
    Claro, imparcial e verdadeiro… Parabéns! beijos

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