Verdadeiros mitos! (ou mitos verdadeiros?)

Curioso o momento da humanidade. Com sociedades altamente avançadas em termos científicos e tecnológicos e com a informação facilmente acessível, o questionamento, a crítica, a insatisfação com várias questões tradicionais é cada vez maior, em busca de pressionar e realizar melhorias, não somente com relação a questões do ser humano em si (inclusão, tolerância, etc), mas também dentro do aspecto ambiental – o cuidado com a Terra-Mãe.

Nesse sentido, sob a ótica científica, os argumentos para que se diminua a poluição da atmosfera mostram gráficos com o aumento da temperatura no globo terrestre nas últimas décadas. Dentro da temática da pobreza, dados estatísticos mostram que, quanto menos desigualdade social existe numa sociedade, menor é a violência; da mesma forma que o pequeno índice de analfabetismo leva a um pequeno índice de desemprego. Logo, a verdade científica cada vez mais é reforçada como a epistemologia (teoria do conhecimento) do mundo atual. Em contrapartida, os mitos – que tiveram seu momento de epistemologia durante longa época da humanidade, até o surgimento da filosofia ocidental, entre os séculos VII e VI a. C. – perdem cada vez mais credibilidade… Será, mesmo?

Do grego mythos, significa “narrativa, palavra, o que se diz”. E sobre o que se diz? Sobre a representação da realidade. Portanto, o que ocorre na atualidade é que, no geral, a representação da realidade obtida pela ciência, muitas vezes, traz respostas mais plausíveis que a representação da realidade mítica. Assim, ao mito resta uma conotação pejorativa, associada à mentira. Esta pode se ligar a dois aspectos: à história da carochinha (inexistente) ou ao indivíduo destaque, muito bom, gênio (quase inexistente). Consequentemente, dentro de acaloradas discussões cotidianas, sobre variados temas – política, economia, conhecimento, aborto, pena de morte, Deus –, o indivíduo que constrói argumentos mais racionais, críticos, dotados de lógos, que fogem do lugar comum, do senso comum, do dito raso, é mais bem assimilado pelos que buscam o eruditismo, o academicismo, a episteme. Já aquele cidadão que está na outra extremidade é o que carece de estudos, está mais próximo do pseudoconhecimento dos mitos, pois enxerga uma falsa representação da realidade.

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Dentro de todo esse contexto, a celebração do Oscar se tornou um grande local para se aprofundar em algumas questões. Nada melhor do que aproveitar a enorme audiência de uma festa de premiação de filmes de Hollywood para se criticar questões sobre racismo e ambientalismo. Chris Rock, no início da festa, chamou atenção para os “progressistas brancos”, roteiristas e produtores de Hollywood, que “não contratam negros”, mas que são boas pessoas. Como Rodrigo da Silva – editor da Spotniks – muito bem salientou aqui, em centenas de séries e filmes analisados, “somente 28,3% de todos os personagens com falas nas obras não são brancos, cerca de 9,6% abaixo da composição populacional dos Estados Unidos. Nas 414 obras analisadas, lançadas desde 2014, apenas 1/3 dos personagens com falas eram mulheres, e pífios 2% eram gays, lésbicas, bissexuais ou transgêneros”. Isto é, ainda nos dizeres de Rodrigo, “a mesma indústria que discursa contra a desigualdade de renda e financia políticos de esquerda enquanto mantém seus membros no topo da pirâmide da economia americana, é a que pauta um debate fantasiado de mea culpa enquanto ignora solenemente os negros em suas obras e transforma a discussão étnica numa mera peça vote democrat de propaganda em ano de eleição”. Conclusão: falsa representação da realidade, mas engolida por muitos como verdadeira (quando Leonardo DiCaprio usa sua suada conquista para versar sobre a questão ambiental, então… que lindo! Que audácia! Que exemplo!). Ponto para o mito, mas o ar é de academicismo, engajamento, intelligentsia.

A (falsa) representação da realidade não se difere aqui no Brasil. Lula diz que o sítio em Atibaia não é seu. Entretanto, nos últimos poucos anos, visitou o local nada menos que 111 vezes. E agora há notícia de que os pedalinhos presentes no pequeno lago do sítio possuem os nomes de seus netos. Mas, ora! Certamente é intriga da oposição, é lógico, claro e científico! Assim como a crise é verdadeiramente representada nos dizeres de Dilma: “basta ter otimismo!” A representação da realidade mostrada por Lula, Dilma e – principalmente – por seu marqueteiro João Santana é a verdade mais absoluta que se pode ter sobre o Brasil, assim como os filmes de Hollywood retratam a humanidade!

Lula é um verdadeiro mito! Hollywood também! Leonardo DiCaprio idem.

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Pedalinhos-close-mega

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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5 respostas para Verdadeiros mitos! (ou mitos verdadeiros?)

  1. Fátima disse:

    Então eu pergunto: qual o limite da ficção?

  2. wellington disse:

    Como diz meu amigo Pondé o Brasil sempre foi um circo. Agora, com uma nova dramaturgia cômica: inauguramos o circo com pautas sociais.

  3. Elaine Soares disse:

    Não vi o Oscar…
    Gostei muito da pergunta “qual o limite da ficção”? Parece que temos aqui um problema de metalinguística, pois a premiação imita o filme e ela própria não é mais realidade…??
    Será que essa fuga da realidade é proposital (sim, acho que esse é o caso do Lula e outros políticos), ou se é ingenuamente desproposital (como no caso dos atores), para defender suas causas e posar de bons mocinhos.
    Talvez como contar a história do papai noel e coelhinho da páscoa para uma criança e manter o mito por uma boa causa!
    Ótimo texto! beijos

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