“Diké” rompida, república morta

Desde sempre, a justiça é um valor caro à humanidade. Mesmo em tempos muito remotos – como pode ser estudado nas religiões antigas e na mitologia – há uma necessidade em se buscar harmonia em meio ao caos da natureza e das intempéries, a partir de explicações aceitas como justas (mesmo que não tão lógicas). O sacrifício a vidas humanas ou animais faz justiça às benesses divinas doadas às suas criaturas; a traição da Parsifae a Minos é justa na medida em que este não sacrificou um touro à Poseidon; a criatura que teve uma vida viciosa vai, ao morrer, ao reino de Hades, enquanto a outra que teve uma vida virtuosa se deleita nos Campos Elísios.

Nesse sentido, dentro de suas funções sociológicas, mitos e religiões fundamentaram os pilares da moralidade humana, bem como a convivência social e a criação de suas leis. Como ressalta Werner Jaeger em sua monumental obra Paideia, a justiça, ou diké, já é preocupação desde Homero (ou até mesmo antes), representando a medida justa para a atribuição do direito, medida esta encontrada na exigência da igualdade. Diante desse contexto, a estrutura social cria a pólis na região da Grécia Antiga, o que dá origem à filosofia, à democracia, à cidadania.

Homer_British_Museum

Homero

A estrutura política germinada por volta do século VI a. C. na região de Atenas e seu derredor foi o berço do Ocidente no qual vivemos atualmente, rodeados pelas sociais democracias. Obviamente, muito foi modificado e inovado desde sua origem, com grandes contribuições sobre a res pública (coisa pública), não somente pelos filósofos clássicos, mas também por Maquiavel e uma gama de pensadores políticos modernos e contemporâneos. Todos com a diké embaixo do braço, em busca do bem comum de todos, da paz e da harmonia.

Entretanto, em pleno século XXI, no Brasil, sociedade bem avançada em termos científicos e tecnológicos (apesar do relevante problema da desigualdade social e intelectual), a crise política salta aos olhos. Não obstante a corrupção seja – infelizmente – histórica no País, há uma década vem sendo ainda mais criticada e apurada, bem como condenada pelo Poder Judiciário. A imoralidade no âmbito político é epidêmica, no sentido de que todas as esferas – municipal, estadual e federal – estão infestadas de parasitas que prestam um desserviço ao Estado Nação.

Diante disso, a diké saiu de cena, e a coisa pública não é mais, há tempos, preocupação dos representantes do povo. Obviamente, assim, a política serve como espaço de interesses pessoais e corporativistas de uma pequena minoria dos brasileiros, que aos poucos matam toda uma construção milenar em busca de um bom funcionamento da pólis, da política, da justiça.

Jaeger afirma que, na Antiguidade, o legislador era considerado educador do seu povo. Heráclito, filósofo do século V a. C., disse: “O povo deve lutar pelas suas leis como pelas suas muralhas”. Os políticos, que deveriam significar o povo representado, destruíram o conceito de república e de justiça, ou seja, quebraram a diké. O efeito disso é o mesmo mar de lama com a quebra do dique da Samarco. Talvez até pior.

índice

Lama

1373369614086-partidos

Mais lama

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
Esse post foi publicado em Filosofia e Cotidiano e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para “Diké” rompida, república morta

  1. Fátima disse:

    Texto atemporal. O conceito “puro” de justiça se perdeu em meio ao poder, a conchavos, enfim, a quem “paga mais”. A justiça é como a honestidade: no público ou no privado ela não se corrompe. Ruy Barbosa já dizia: “As leis são um freio para os crimes públicos; a religião, para os crimes secretos.”

  2. Elaine Soares disse:

    A justiça também está representada no seu signo astrológico, de Libra, com as balanças. No caso da política, porém, ela não está nem talvez nunca tenha sido equilibrada, no Brasil.

    Ótima e perspicaz analogia aos diques. É uma lama mesmo tudo isso que vivemos, sobretudo hoje, nas esferas de governo. Resta saber se haverá solução ou se a lama vai só continuar seu caminho, sem contenção.

    Como sempre, nós aprendemos um pouco de filosofia e história de forma fácil e contextualizada… 🙂 bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s