O que realmente importa? – com Eliane Brum e José Mujica

Há alguns dias, chegou às minhas mãos um texto – de Eliane Brum (leia aqui) – e um vídeo – de José Muijca (veja aqui). Penso que ambos podem ser relacionados, à luz do que tenho como verdade: a doutrina espírita.

Vamos, primeiramente, ao texto.

Trata-se de uma visão acerca da vida e da morte. A autora tem um olhar à lá “the dark side of the moon”, isto é, “o lado negro da lua”, no caso aqui, o lado negro da morte (ou melhor, da vida). Ela olha o lado pessimista, finito, finado, triste e pesaroso.

Não obstante, não é assim. Ela diz que “a verdade é que se morre aos poucos”. Isso não é verdade. Mais cedo ou mais tarde, viveremos aos poucos. A bem da verdade, a verdadeira vida é aquela na qual caminhamos para frente, progredimos e, assim, totalmente oposto ao que a autora diz, nós vivemos aos poucos; cada vez mais efetivamente, com mais luz, com mais vida!

Além disso, ela assina embaixo de uma citação de Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”. Não. Somos espíritos imortais, e vivemos para florescer, não para apodrecer.

Brum diz também: “A verdade (…) é que se morre aos poucos”. Discordo. O ser humano acorda aos poucos, passo a passo nasce para a vida verdadeira, cada vez mais próxima de Jesus e de Deus. Amanhã nunca é um dia a menos, mas sempre um dia a mais, de mais trabalho, de mais oportunidade, de mais caridade e amor que cada um pode dar para o outro e para o universo.

Ao associar a morte com um livro de outra autora – Joan Didion -, Brum aprofunda no “lado negro da vida”, com sua análise da experiência da perda do marido e da filha de Joan e de sua dor. Consequentemente, Joan envelhece triste, porque não sabe lidar com a morte, que não é o fim, mas meramente o retorno à verdadeira Pátria, a Espiritual. A não aceitação dos desígnios de Deus geralmente nos leva a dores, e nos leva também a sentir nossas provas e expiações mais pesadas do que são, porque não soubemos aproveitar a oportunidade da perda como aprendizado.

Eliane continua sua linha de raciocínio: “A surpresa final de que o melhor cenário, o de viver mais, era também o de perder mais”. Não, Eliane. Quando se vive mais, encarnado, não se perde mais. A intenção é justamente o contrário, é de se ganhar mais. A única perda interessante ao longo da vida é a perda de débitos que temos para nós mesmos e para a Justiça Divina.

Várias pessoas desencarnaram à época (e no ano) de Eduardo Campos. É verdade. Várias pessoas famosas, como Gabriel Garcia Marques, Plínio Arruda Sampaio, Rubem Alves e vários outros. Mas e os não famosos que também se foram? Mas… e os tantos que reencarnaram? Essa é a vida. Início e fim de uma de bilhões de passagens dos espíritos, ao redor do universo.

Talvez o imortal que morre trocasse toda a sua imortalidade por dividir uma última vez uma garrafa de vinho com o melhor amigo ou por mais uma noite de amor lambuzado com a mulher que ama ou apenas para ler o jornal na mesa da cozinha no café da manhã”, postula Eliane Brum. A verdade verdadeira não é que o ser que morreu trocaria sua imortalidade nas obras por mais um vinho, ou uma lida no jornal ou um café da manhã. O ser que morreu vive e vive uma vida mais verdadeira agora. E a imortalidade das obras não é nada comparado à imortalidade de suas boas ações. Ela busca uma frase de Woody Allen: “Como disse Woody Allen: ‘Não quero atingir a imortalidade através de minha obra. Quero atingi-la não morrendo’”. Se Woody Allen gostaria de ser imortal, deveria ele saber que é imortal, como espírito, o que de fato importa.

Diante disso, se Eliane diz que morreu um pouco com a morte desses vários (“Ao me deixarem, morro um pouco”), ela deveria virar o disco, olhar sob outro (e verdadeiro) foco: quando pessoas que deixaram bons exemplos – intelectuais e/ou morais – morrem, devemos absorver seus exemplos e viver ainda mais, e não achar que uma parte nossa morreu também.

Infelizmente, ela se confunde ainda mais ao se sentir “aliviada” por Robin Williams ter se suicidado, pois pôde escolher sua morte: “De que morreu? Parece que foi suicídio. E me senti de imediato aliviada”. O lado negro da morte e da vida se transformou no lado errado e falso de sua análise.

Por fim, ela conclui retomando seu início, falando do acaso da vida (e da morte). “O acaso, a vida que muda num instante, me assusta tanto quanto esse meu mundo que morre devagar”. Se ela soubesse que não existe acaso, mas sim uma grande harmonia que tudo rege, ilumina e vivifica, ela não teria essa visão sem regência, escura e mortificadora.

Com relação ao vídeo, Mujica começa: “a forma e os valores vividos pelo ser humano é a expressão da sociedade em que se vive”. “Ou você é feliz com pouco, (…) porque a felicidade está dentro de você, ou não consegue nada”. Bem observado, o homem está enclausurado em um mundo muito materialista, que valoriza questões materiais, quais sejam, status, fama, dinheiro, conquistas terrena. Entretanto, isso traz a felicidade?

Veja bem que não há aqui defesa da pobreza, convite à todos viverem como Francisco de Assis. O próprio Mujica diz que não é uma apologia à pobreza, mas sim “uma apologia da sobriedade”. Aquele que não está ébrio não se apega nas questões materiais para a felicidade, pois sabe (como dito supra) que a felicidade é interna.

“Mas inventamos uma sociedade de consumo. (…) Vive-se comprando e tirando”. Entretanto, o lado carnal e passional, muitas vezes, afasta-se do que realmente importa, a visão verdadeira, dentro de sua consciência, seu cristo interior, e busca respostas fora. “Queres conquistar o mundo? Comece pintando sua própria aldeia”. Assim, o homem, de dentro para fora, pode adquirir, aos poucos, sua felicidade. Constrói uma vida plena, sem gastar o tempo de vida, nos dizeres do uruguaio. Ora, se “a vida se gasta”, como Mujica diz no fim do vídeo, que ela seja bem gasta, bem aproveitada, em prol da absorção de mais verdades no caminhar evolutivo espiritual.

Em suma, diante do texto e do vídeo, podemos apreender e compreender o que realmente importa: (i) viver com serenidade, não com pessimismo; (ii) preocupar-se com a vida, não com os mistérios da morte; (iii) aproveitar as oportunidades de progresso, tanto sem reclamar do acaso e das tristezas, quanto sem cair nas tentações da matéria. Dessa forma, nem “o mundo da gente morre antes da gente”, nem “a vida é gasta”.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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Uma resposta para O que realmente importa? – com Eliane Brum e José Mujica

  1. Elaine Soares disse:

    Uma verdadeira pílula diária para se começar bem a “vida diária”!!
    Há tantos querendo reencarnar… há tantos querendo mais tempo para mostrar a que vieram! E outros querendo ir ou discutindo a morte terrena..

    Mantenhamos esse mantra para todo o dia, toda hora:
    “A bem da verdade, a verdadeira vida é aquela na qual caminhamos para frente, progredimos e, assim, totalmente oposto ao que a autora diz, nós vivemos aos poucos; cada vez mais efetivamente, com mais luz, com mais vida!”

    Obrigada, beijos!

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