O eu dos tempos pós-modernos: Je suis Charlie (Chaplin)

O Brasil do século XXI avança em mais um ano. Tempos pós-modernos: em tese, busca-se aumentar a liberdade, o conhecimento e a qualidade de vida, com tolerância; na realidade, busca-se viver o presente e tão somente o presente, com mais prazeres, e isso é o certo a se fazer! Valoriza-se mais a dose do que a garrafa. E não é qualquer dose de qualquer garrafa, mas aquela que todo mundo bebe.

Tempos corridos, efêmeros, momentâneos.

Santo Agostinho dizia que o tempo é um só, o presente, mas que é subdividido em três: presente do passado (memórias), presente do presente (instante) e presente do futuro (expectativas). Dessa maneira o instante do homem não é meramente um instante, por óbvio. Entretanto, não é o que se vê na atualidade. O instante é só o instante e satisfazê-lo basta. O mundo pós-moderno é dinâmico.

Nos tempos pós-modernos, tempo é dinheiro. E dinheiro traz prazer, traz boas doses, basta olhar ao seu redor. Assim, o indivíduo é moldado com metas padronizadas de beleza, de profissão, de gostos pelo lazer, de vida ideal, de bebidas e comidas. E aquele que não concorda com esse molde é, de alguma forma, rechaçado do meio. Nessa seara, interessante é observar que, nos tempos pós-modernos, o padrão-molde não costuma ser muito exemplar. O padrão do aluno famosinho não é o do bom aluno; muito pelo contrato, este costuma sofrer bullying. O padrão do jovem-adulto bacana é aquele que curte a vida material com muito dinheiro e com muito prazer; quem não curte esse tipo de vida é o chato do politicamente correto.

George Orwell tratou muito bem disso em sua obra “1984” (bem como Aldous Huxley em “Admirável mundo novo”). Aquela pessoa que se distingue do padrão é perseguida, de uma forma ou de outra, e não costuma se dar bem. É o que acontece com o protagonista de Orwell, Winston, que talvez faça parte da minoria de uma pessoa só. Mas quem disse que a voz do povo é a voz de Deus? Outro exemplo pode ser observado em Liev Nikoláievitch, protagonista de “O Idiota”, de Dostoievski: um rapaz extremamente correto, intelectualizado, de bom coração, que confia na bondade das pessoas – características de um “bobo” politicamente correto – que, por isso, é chamado de idiota por todos e não se dá bem por viver dessa forma.

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Santo Agostinho

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Dostoievski

Ora, se nas tragédias gregas Antígona tivera sua liberdade limitada pela lei da cidade e não pôde enterrar seu irmão de acordo com o que ela acreditava ser lei divina, o molde do status quo padrão está sempre com os olhos (do Big Brother de Orwell) acusadores em cima daquele que – muitas vezes, com mais conhecimento – não participa dos momentos e nem toma as doses com os demais, também limitando sua liberdade na era contemporânea. Nos tempos pós-modernos vive-se a alienação opressora.

Francis Bacon dizia que “saber é poder”. Mas, nos tempos pós-modernos, a sabedoria é aquilo que se pensa solidificado na sociedade, o mero senso comum. Aquelas profissões tradicionais, aquela cervejinha no fim de semana, aquilo que todo mundo fala sobre a crise política (e que sempre muda de conceito). O saber-poder dos tempos pós-modernos é falar com erudição diante de uma sociedade líquida – nos dizeres de Zygmunt Bauman – que não pensa a longo prazo, onde praticamente não há tempo, pois tudo é perene, vazio e se esvai.

Todos devem andar na mesma direção. Com o mesmo uniforme. Fazendo as mesmas coisas. O molde é o mesmo. Mais uma rodada, mais uma dose. Nos tempos pós-modernos, todos somos Charlie Chaplin. O eu raso, ralo e sem consistência, sem personalidade. Bate aqui. Assevera ali. Tic tac. Oxalá o passar do tempo seja o melhor remédio, mas não aquele tempo entre uma ressaca e outra dose; não um tempo líquido, mas sólido. Enfim, que de fato surjam tanto o tempo quanto o eu pós-moderno.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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6 respostas para O eu dos tempos pós-modernos: Je suis Charlie (Chaplin)

  1. Elaine Soares disse:

    É realmente interessante observar como o termo “inovação” permeia tudo hoje em dia, da economia às empresas e aos produtos e ainda assim as personalidades não podem ser inovadas… pelo contrário, parecem automaticamente perseguir o padrão da sociedade. Você falou também da alienação opressora, da falta de tempo e do significado deturpado do saber. Quem sabe não são as três principais causas dessa massificação…. prato cheio para boas reflexões este ótimo texto! beijos

  2. Bruna Andrade disse:

    Muito interessante, e ótimas referências.

  3. Carlos disse:

    Sempre surpreendendo!!
    Boa Maria!!!! Curti mto !!

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