Todos estão condenados à morte

Michel Foucault (1926-1984) é um dos maiores filósofos não só do século XX, mas de todo o Ocidente. Estudado nos cursos de Filosofia, Sociologia, Comunicação Social, Psicologia e Direito, geralmente seus comentadores identificam três fases em seu pensamento: arqueologia, genealogia e ética. A primeira diz respeito ao “ser-saber” e consiste na análise de discursos ao longo do tempo sobre um saber não sistematizado; a segunda é o “ser-poder” e diz respeito à investigação do que permite a emergência de um discurso, tornando-se legítimo; e a terceira se trata do “ser-consigo”, no qual emerge a subjetividade e a ética.

Por meio de um exemplo prático – a violência – pode-se perceber as três fases. No período mitológico, a violência podia ser algo digno e virtuoso, por meio da vingança, como se percebe na Ilíada, onde Aquiles vinga seu primo Pátroclo matando Heitor. Sócrates e Jesus Cristo trouxeram um novo conceito, colocando-a sempre como nociva à humanidade. Entretanto, foi-se consolidando, ao longo dos tempos, uma violência legítima, com condenações por meio da Inquisição, por exemplo. Mas foi só no ápice do Iluminismo, pós-Revolução Francesa, que a legitimação da violência se deu, com instituições e constituições nas sociedades. No século XIX, vários réus condenados juridicamente eram executados no meio das ruas, sejam arrastados por carroças, guilhotinados, tendo membros de seus corpos mutilados, etc.

Assim, nas suas obras Vigiar e Punir e Microfísica do poder, Foucault demonstra como as instituições da pós-modernidade levaram o ser humano a uma passividade. As instituições de sequestro (escola, prisão e hospital) docilizaram o corpo, o que resultou em um “ser-consigo” alienado, pois inserido numa ética vinculada a práticas onde os homens são disciplinados e dominados.

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Dessa maneira, a ética vigente acerca da violência é aquela que legitima o ato violento e cruel para aquele que merece, descartando e desdenhando questões como direitos humanos e afins. Ora, ainda que a Fenomenologia do século XX de Husserl assevera a importância da liberdade de cada sujeito criar seu mundo, sua representação, Foucault consegue perceber que o homem não possui uma ética autônoma e é dominado por aqueles que legitimaram um discurso. Não por acaso uma pesquisa realizada em outubro, encomendada pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que metade do cidadãos brasileiros acredita que “bandido bom é bandido morto”.

A superficialidade de pensamento de 50% dos brasileiros acima de 16 anos de idade tão somente revela o quanto o País carece de uma verdadeira ética, ou um verdadeiro saber. Primeiro porque bandido é aquele que pratica atividades criminosas, ou que não cumpre a lei, sendo que, certamente, quase a totalidade desses 50% já cometeu alguma atividade criminosa, de maior ou menor teor. Segundo porque quase a totalidade desses 50% são seguidores de Jair Bolsonaro – “Bolsomito” – um cidadão que desfavorece o progresso do Brasil. E terceiro porque eles pensam que pensam por si mesmos, cometendo um grande crime: o pseudosaber.

Em suma, do jeito que a coisa anda, todos estamos condenados. A razão e o bom senso já morreram.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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8 respostas para Todos estão condenados à morte

  1. Guedes disse:

    “… a ética vigente acerca da violência …”, digamos que já não é ética mais para alguns, é uma moral de “bom cidadão”, aquele que nunca erra.

  2. wellington disse:

    A moral é a ética era a que emmanuel kante pregava que a frente de sua época foi um divisor de águas com suas ideias iluministas trazendo luz a sombra da população da época e vindouras. ( vc tem algum artigo dele lucas? agraço cara )

  3. A palavra mais em voga e na moda ultimamente em todas as áreas: VIOLÊNCIA. Física e moral. Difícil saber qual a que mais mata o ser humano. Ótimo texto.

  4. Elaine disse:

    Sempre aprendendo com os seus textos… Realmente podemos encarar tudo como uma ética trocada e distorcida, na qual uma verdade vale pra uns e não valem pra outros (“ele é bandido e eu nunca cometi nenhum crime de nenhuma ordem”). Isso para não falar dos bandidos que roubam milhões da sociedade e estão muito, mas muito longe da pena de morte.
    Obs: Depois queria saber sua opinião sobre a redução da maioridade penal.

    beijos e Parabéns pelo ótimo e singular texto, mais uma vez!

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