Mais um partido – Novo?

Em 15 de setembro, o TSE aprovou a concessão de registro para o 33º partido no Brasil: o Partido Novo. Idealizado por empresários e profissionais liberais, carrega a bandeira de um Estado mais enxuto, propondo um governo mais liberal. Não obstante, é importante entender o real conceito de “liberalismo” que tal legenda adotou, já que houve uma gama de transformações de seu sentido ao longo da história.

O pai do liberalismo político é John Locke, defensor do jusnaturalismo, tese que garantia aos homens direitos de natureza – à vida, à liberdade e à propriedade. Na mesma seara, o economista Adam Smith, considerado o mais importante teórico do liberalismo econômico, dizia ser fundamental a não interferência estatal (ou interferência mínima) na economia para a promoção do bem-estar dos cidadãos.

No período pós-Revolução Francesa, com a Revolução Industrial, houve maior preocupação com a igualdade, fortalecendo ideais socialistas (mais à esquerda). Em contrapartida, surgiu o “liberal-conservadorismo” (mais à direita), que, por um lado, defendia a liberdade na economia e, por outro, buscava manter os valores tradicionais da sociedade.

O século XX acirrou as diferenças mesmo dentro do liberalismo. Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe são considerados liberais radicais, anarcocapitalistas ou libertarianos; já Edmund Burke e Thomas Sowell são da linha liberal-conservadora, mantenedores da ordem tradicional. Mais tarde, com as ditaduras militares ocorridas na América Latina, os países dessa região adotaram uma política ligada à direita ultraconservadora – de repressão e censura, além de expandirem relações econômicas (e majorando sobremaneira as taxas de inflação) com outros países, notadamente os EUA. Diante desse cenário, o liberalismo virou, na América do Sul, sinônimo de conservadorismo.

Hans Hermann Hoppe

Hans-Herman Hoppe

Assim, hoje, aqui no Brasil, é difícil encontrar alguém que esteja na linha Rothbard-Hoppe; já os que coadunam com o viés de Burke-Sowell são a grande maioria dos que se nomeiam liberais. Tanto que, Alexandre Borges e Rodrigo Constantino – diretor e presidente do Instituto Liberal, respectivamente, são dois dos principais nomes que articulam o Partido Novo. Ora, não é segredo para ninguém que ambos possuem ideais tradicionais com relação às questões sobre drogas, aborto, homossexualidade e afins (ou seja, a vertente liberal limita-se tão somente ao aspecto econômico).

Enfim, será que o que defendem foge tanto dos programas dos partidos antigos mais vinculados à direita, como DEM, PP ou o próprio PSDB (que inclusive propôs medidas mais liberais na economia durante a campanha presidencial de 2014)? A pergunta não é descabida, pois já há simpatizantes do Partido Novo indicando Jair Bolsonaro (totalmente conservador) como candidato à presidência em 2018! Para manter a tradição; conservar… parece, então, que o Partido Novo pouco tem a trazer de novo.

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino

Partido Novo

Partido Novo

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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4 respostas para Mais um partido – Novo?

  1. Eduardo Miranda disse:

    A verdade é que ninguém quer “largar o osso”, e quem está roendo o Estribo, tem como objetivo roer o Fêmur!

  2. Elaine disse:

    Ótimo texto! Reflexões mais do que completas sobre as diferentes correntes filosóficas e econômicas, que se sobrepõe.. eu aprendi muita coisa!

    Acho que no Brasil, devido à cultura, religiosidade e a sua história, é difícil termos defensores do “liberalismo puro”, pelo menos por enquanto. Mas, na minha opinião, se de fato esse partido novo conseguir por em prática suas ideias no campo econômico, já estaria muito bom!

    Só fico me perguntando, como você bem pontuou, se o PSDB ou DEM não conseguiriam fazer o mesmo. E aí parecemos burros em criar um partido só para “partir” ainda mais os votos nas eleições..

    beijos!

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