Espírito de corpo

A estética sempre foi objeto de preocupação e contemplação do ser humano. Desde as pirâmides antigas, pode-se notar a importância de algo suntuoso que represente o poder de uma cidade ou de uma pessoa, demonstrada por meios artísticos. Também a própria estética do indivíduo sempre foi valorizada, ainda que analisando o corpo humano de diferentes formas, de acordo com a época vivenciada.

Platão, filósofo da Antiguidade, não valorizava a arte, com o argumento de que o ser humano vive no Mundo Sensível – um mundo baseado em ilusões, pseudoconhecimento, no qual a sombra é sempre vista como realidade. Diante disso, a arte é mera cópia do real ou, em outras palavras, cópia do Belo (este só existe no Mundo Inteligível). É fato, não obstante a isso, que Platão nunca menosprezou um corpo gracioso, inclusive tendo colocado como uma das funções da educação os exercícios físicos que torneassem os músculos do homem. Entretanto, cuidar do corpo servia tão somente para o enobrecimento da alma, que era indiscutivelmente mais importante. Já Aristóteles, discípulo de Platão, elevou o status do corpo (sem desdenhar a alma) e disse que a prática da ginástica tinha sua importância para alcançar o equilíbrio, propiciando boa saúde e bom cumprimento dos afazeres habituais.

Em tempos de “desencantamento do mundo”, nos dizeres de Adorno e Hokheimer, onde há muita cultura de massa e pouco real esclarecimento (no sentido de teoria crítica), a disputa milenar entre corpo e alma sofreu uma virada nas últimas décadas. Hoje, o virtuoso não é aquela pessoa com alma burilada e ações dignas e éticas, mas sim aquele que tem um corpo sarado. A ética platônica ou kantiana são inúteis para a vida, ao passo que pessoas fitness – que mostram sua vida na academia, sua alimentação e seu corpo todo “trincado” – são mestres invejados e ovacionados. Estão em voga programas sobre alimentação saudável, dietas disso e daquilo, mulheres clicadas com o “corpo perfeito”, mães sem barriga três meses após a gestação.

Destarte, o padrão estabelecido domina o Ocidente. Como bem observou David Hume em sua obra O padrão do gosto, mesmo que o gosto (e também vale para o belo, para a arte) seja experimental e, assim, tenda ao relativo, há uma padronização do sentimento que se liga ao entendimento e, assim, a um julgamento geral, consolidado pela linguagem à cultura. E, dentro de uma cultura de massa, não pertencer ao padrão é sempre algo, no mínimo, incômodo. Vide diversos exemplos de pessoas acima do “tipo padrão” que tomam remédios fortes para emagrecer ou que sofrem de bulimia. O trágico (e não cômico) são as tentativas de contrabalançar ou minimizar o “mandamento cultural”, por meio de novas nomenclaturas, como “plus size” (sinceramente, a emenda fica pior que o soneto).

David Hume e Platão

Platão

David Hume

David Hume

Definitivamente, não há aqui uma ode ao sedentarismo. A ciência já é capaz de demonstrar a relevância dos exercícios físicos e o perigo do excesso (ou da falta) de peso. O que é passível de reflexão é a espiritualização do corpo, o endeusamento e a busca implacável de um belo criado e absolutizado nos últimos tempos, muitas vezes levando à inversão de valores, onde a casca vale mais que o interior, a concha mais que a pérola.

Por fim, tão ou mais importante que conseguir levantar mais de vinte quilos ou fazer mais de vinte abdominais é conseguir ler mais de vinte livros por ano. Lotar de fotos o instagram pode fazer bem à autoestima, assim como lotar a alma de ensinamentos. É sempre bom ficar atento à proliferação do espírito de corpo, que geralmente possui espírito de porco (e de burro).

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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4 respostas para Espírito de corpo

  1. Perfeito, lúcido, esclarecedor e, sobretudo, indispensável em tempos de culto ao corpo e esvaziamento da mente. O trocadilho espírito de corpo com espírito de porco caiu como uma luva. Parabéns, meu filho!

  2. Elaine disse:

    Cada vez melhor..! O que eu acho legal é a Filosofia poder nos ensinar sobre questões tão atuais. E corroborar, neste caso específico, por meio da sua opinião, claro, que o corpo físico está longe de ser o que há de mais importante no ser humano, apesar de ser seu invólucro e de dever ser bem cuidado. A conclusão também foi estupenda: por que não cultuar também aqueles que lêem muitos livros ou são exemplos de alma caridosa? Deve ser porque, nesses casos, não tem como tirar foto e colocar no facebook, 🙂

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