O Brasil não é uma pátria educadora

Educação é o ato de educar, instruir. Num amplo sentido, relaciona-se com culturas, hábitos e, pelo menos desde a Antiguidade, também se vincula a valores morais. Aristóteles dizia que a educação prepara o homem para ser virtuoso e, consequentemente, viver em sociedade. Ainda de acordo com o filósofo e pedagogo contemporâneo René Hubert, “a educação é um conjunto de ações e influências exercidas voluntariamente por um ser humano em outro. Essas ações pretendem alcançar um determinado propósito no indivíduo para que ele possa desempenhar alguma função nos contextos sociais, econômicos, culturais e políticos de uma sociedade”.

Entretanto, cada vez mais a palavra educação possui um sentido meramente técnico-institucional. E é nesse sentido que o âmbito político se preocupa, quando o assunto vem à tona. Educação se atrelou totalmente à instituição escolar e seu significado mais importante ultimamente é: “formado, diplomado”.

Isso, claramente, é um problema, que possui duas vertentes.

Primeiro: em que pese o fato de o Brasil ter aumentado tanto o número de indivíduos formados na escola básica – i. e., que concluíram o ensino médio – quanto o de inseridos no ensino superior, isso não significa que houve um aumento prático de conhecimento da população (predominantemente conhecimento crítico, apesar de não ser incomum ver pessoas com ensino médio completo não saberem diferenciar “mas” de “mais”, e, mesmo assim, passaram de ano e não tomaram bomba!). Nos dizeres de Paulo Freire, a educação é “bancária” (domesticadora), não “problematizadora” (libertadora). De modo que o processo de educação institucionalizada visa mais ao certificado que ao saber. E, como Ivan Illitch afirma em seu livro “Sociedade sem escolas”, os certificados tendem a abolir a liberdade da educação. Assim, o “canudo” oculta uma grande limitação do aprendizado do aluno, que não atinge uma autonomia de pensamento, uma visão crítica da sociedade.

Ivan Illich

Ivan Illich

Paulo Freire

Paulo Freire

Isso nos leva ao segundo ponto: o momento crítico que vive o Brasil. Mais do que crise econômica, política e social, o problema é completamente moral. Nunca antes na história deste país pulularam tantas notícias sobre suspeitas de corrupção perpetradas por representantes (?) políticos, empresários e instituições. Seja no âmbito federal (deputados federais associados à operação “lava-jato”, esquema entre a Petrobras e políticos), seja no âmbito estadual (diversos governadores estaduais eleitos sendo investigados pela operação “acrônimo” por suspeita de desvios de recursos para campanhas do Partido dos Trabalhadores). Além disso, existem diversas questões não necessariamente ilegais, mas certamente imorais, tais como (i) a aprovação dos deputados estaduais de MG de aumento de 53% do auxílio moradia em fevereiro, ou (ii) o rodízio de magistrados no RJ e no ES para terem direito a um bônus no vencimento mensal por acúmulo de função.

Não obstante, o dia a dia do cidadão brasileiro segue normal, com a convivência tranquila lado a lado desse tsunami de falta de educação, de falta de moralidade, de falta de vergonha que assola o País. Cada um buscando sua sobrevivência, pois, como Nietzsche asseverou no século XIX, a vulgarização do ensino busca formar homens úteis e rentáveis, desprezando uma formação humanista. Se o Brasil é um mar de lama, o imoral foi banalizado, o erro comum também virou normal, e, por outro lado, o bem virou exceção, digno de aplausos. Assim, nota-se que existe muita coisa errada no País quando o fato de um faxineiro de aeroporto ter achado uma carteira com dinheiro e ter devolvido ao dono se torna uma notícia comovente e o faxineiro se transforma em heroi nacional!

Ora, não basta difundir um bordão Brasil afora para que isso se torne uma verdade. Se “a palavra convence, o exemplo arrasta”. O governo federal pode até promover o “Pátria educadora” e tentar convencer o povo com sua sofística. No entanto, exemplos não faltam do desgoverno da Nação. O segundo mandato de Dilma Rousseff está com menos de 10% de aprovação popular e corre o risco de sofrer impeachment devido à corrupção na Petrobras – analisada pela PF, às pedaladas fiscais – que serão analisada pelo TCU, e às contas de campanha na reeleição da presidente – que serão analisada pelo TSE (ainda assim, dificilmente ela vai tomar bomba, ninguém é reprovado mais…).

Em suma, o Brasil não é uma pátria educadora, pois quem educa dá bons exemplos e demonstra caráter, moral, virtudes. Não é o que se tem visto dos detentores dos poderes deste País. E olha que a maioria deles tem diploma.

Pátria MUITO educadora

Pátria MUITO educadora

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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6 respostas para O Brasil não é uma pátria educadora

  1. Elaine disse:

    Isso, isso, isso… Estamos cansados de tanta fala e pouca atitude. Aliás, muita fala mentirosa e muita atitude vergonhosa.
    Muito interessante a analogia com a educação da escola, com os diplomas recebidos, com a reprovação…
    Acho que nem se ficarmos de recuperação a economia salva esse ano. Quiçá a política, cuja reforma não é aprovada nem que a vaca tussa!
    Vou repassar, está ótimo o texto, beijos!

  2. Gostei muito de seu texto! os políticos não querem povo pensante, não querem pessoas que não votem ou continuem votando neles e em suas mentiras.
    Concordo que o número de formados aumentou, mas isso não aumenta as pessoas capazes de pensar, ou mesmo capazes de ler e entender o que lê. Brasil, uma pátria educadora, ou deseducadora, uma pátria de pessoas ‘formadas’ para a ignorância…
    Triste ver para onde o Brasil está caminhando, para lugar nenhum 😦
    Como fazer algo por este país?

    • Pois é. Enquanto a cultura do Brasil continuar na linha de que vários pais desvalorizam os professores para seus filhos e só se preocupam com o canudo, muito longe ainda estaremos de mudar.

      Temos de pensar a educação para além do conteúdo… do diploma.

      Muito obrigado pelo comentário.

  3. Lucas Silva disse:

    Sensacional!

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