Pensar: de Pascal a Paspalho

O Homem é um ser racional e isso faz com que ele seja o ser vivo mais poderoso do planeta. “Saber é poder”, já dizia Francis Bacon. O conhecimento leva a evolução da humanidade. Segundo Sócrates, o homem é sua alma, e esta é razão; logo, ter conhecimento é ter virtude. Essas e outras inúmeras frases exortam o conhecimento como o télos salvador da humanidade. Será?

A Idade Média é, por muitos, considerada a Era das Trevas. Tal alcunha se deu por julgar que – neste período – houve muito pouca evolução do conhecimento, pelo fato de o mundo ocidental ser dominado por uma instituição fortemente dogmática. Com a queda do Feudalismo, surgiram duas correntes filosóficas: racionalismo e empirismo, importantíssimas para o nascimento da ciência moderna de Galileu, Bacon e Newton. Por fim, veio o Iluminismo (Era das Luzes) para consolidar o momento do auge do conhecimento intelectual e científico da humanidade até então. A Ciência resolveria todos os problemas do mundo; atingir-se-ia a paz, a saúde plena, enfim, a ciência virou o deus dos homens.

Entretanto (contradizendo Hegel e o Positivismo, com suas teorias de progresso?), o século XIX trouxe uma nova fase da Revolução Industrial com grandes conseqüências sociais, políticas e econômicas (sob o pano de fundo filosófico do pessimismo existencialista), bem como as unificações da Itália e da Alemanha, o que ocasionou a Primeira Guerra Mundial, no início do século XX. Com isso, Max Weber lança o termo “desencantamento do mundo”, que expressa o fim do caráter místico e salvador tanto da religião quanto da ciência. Antes mesmo do fim da Segunda Grande Guerra, Adorno e Horkheimer reforçam o desencantamento do mundo científico, ou simplesmente “cientificismo”.

Deus Ciência

Deus Ciência

Max Weber

Max Weber

É óbvio que a ciência trouxe grandes benefícios à humanidade. Mas também trouxe armas poderosas; máquinas que podem substituir trabalhadores humanos; aumento de competitividade. O conhecimento é cada vez mais necessário. Até poucos anos atrás, quem tinha nível superior completo garantia um ótimo emprego; hoje, mesmo com pós-graduação a oferta está escassa. Cada vez existem mais instituições de curso superior, o que não garante nem sua qualidade e nem a profissão ulterior do estudante.

Destarte, Pascal, um filósofo racionalista do século XVII, já afirmava que a razão não é suficiente para conhecer tudo, como, por exemplo, sobre várias mazelas do mundo. Dessa forma, muitos passam a viver sem pensar, isto é, fogem da verdadeira vida, abandonando a razão e cedendo ao divertimento. Ora, quantos estudantes atuais não maldizem as escolas e os estudos, em vistas do ócio inútil? Para quê estudar, se há oportunidade de ficar rico sendo jogador de futebol, modelo, ou mesmo ganhando na mega sena ou no BBB? Isso significa que o conhecimento perdeu seu status? Ignorância é felicidade?

A verdadeira vida foi substituída pelo puro divertimento, sem pensar? Quando se nota que os tais “livros para colorir” são os livros (?) mais vendidos no Brasil no último mês (e que muitos de seus consumidores são adultos), fica difícil responder que não.

“Livros para colorir”

Blaise Pascal

Blaise Pascal

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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4 respostas para Pensar: de Pascal a Paspalho

  1. Vivian disse:

    Excelente reflexão! Mais um indício da crise de valores. Onde o saber é inferior ao ter. Não estaremos retrocedendo frente a um novo Deus?!

  2. Chimicatti disse:

    A questão, nobre Lucas, é o estado latente de insaciedade a que o ser humano se vê imbricado! A completude inatingível é, sobretudo, um dos endêmicos problemas existenciais, enquanto o saber do saber (epistemológico) tem sido, em massificada proporção, amainado pela extraordinária experiência do ter o ter (mercadológico). E a ética situacional? Precisamos (de)mais Deus?
    Excelente reflexão, a sua!

    • Verdade, Chimicatti.
      O desejo nunca será saciado, mediante o escopo da espécie humana de “felicidade”. Penso que o maior problema é essa cortina de fumaça, que embaça a real questão. É como eu digo: pelo menos o Cypher, de Matrix, sabia que era ignorante…
      Um abraço e obrigado.

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