Estado (2): inseguro e mal educado

O dia 29 de abril de 2015 ficou marcado pelo confronto entre professores da rede estadual e policiais militares em Curitiba. O fato ocorreu quando os professores tentaram entrar na Assembleia Legislativa, para pressionarem contra a aprovação de um projeto que alteraria (prejudicaria) a questão previdenciária dos servidores estaduais.

Os professores já tinham conseguido evitar a aprovação em fevereiro e, por isso, os políticos reforçaram a segurança em torno do prédio do Legislativo. Resultado: os professores forçaram a entrada e os policiais impediram-na, por meio da força (excessiva).

Não resta dúvida quanto ao lamentável fato. Não obstante, tão lamentável quanto é verificar que a maioria dos julgamentos se limitou a culpar os professores ou os policiais, isentando totalmente os políticos (representantes maiores do Estado). Ora, são os políticos os responsáveis por impedir a entrada dos professores, por meio da segurança estatal; os mesmos políticos que não se preocupam em aumentar os vencimentos e dar um bom preparo a policiais e professores.

Assim, em vez de criticar a raiz do triste episódio, pululam discussões ideológicas entre os pró-policiais (direita) e os pró-professores (esquerda). Mais do mesmo de uma discussão inútil, sendo que ambos os lados incham o Estado e favorecem a corrupção e os poderosos. Ou seja, enquanto essa polarização não perceber que está dando murro em ponta de faca, as mazelas da pólis continuarão as mesmas, com roupagens diferentes (basta vez que o problema educacional ocorre em todos os Estados brasileiros, independentemente do partido que governa).

Direita-Esquerda

Como André Singer bem salienta: “(…) o que divide direita e esquerda no Brasil não é exatamente mudar ou conservar, mas sim como mudar. A divisão, na realidade, se dá em torno da mudança dentro da ordem ou contra a ordem, resultando em instabilidade. O público de direita pretende uma mudança por intermédio da autoridade do Estado, e por isso quer reforçá-lo, ao passo que o público que se coloca à esquerda está ligado à ideia de uma mudança a partir da mobilização social, e por isso contesta a autoridade repressiva do Estado sobre os movimentos sociais” (SINGER, André. Esquerda e direita no eleitorado brasileiro. São Paulo: Edusp, 2000. Páginas 149-150).

Destarte, o que se evidencia é que a direita quer a garantia do Estado ao direito à propriedade, não a liberdade econômica; ao passo que a esquerda quer um aval do Estado para caminhar rumo à justiça social, não o direito à moralidade. Ambas às custas do Estado, o câncer do progresso, da valorização, enfim, da liberdade.

Logo, é por isso que uma das únicas saídas que o Brasil possui é o liberalismo, que defende o indivíduo em primeiro lugar, como plano central e não dentro de algum plano central. Complicado é ver taxações de liberalismo ligado ao conservadorismo ou ao neoliberalismo (que na verdade se trata de neointervencionismo). Mas ainda pior é ver muitos desses que se dizem liberais apoiando Jair Bolsonaro e sua corja (bem como o uso da força policial e a intervenção militar).

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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Uma resposta para Estado (2): inseguro e mal educado

  1. Elaine Soares disse:

    Engraçado que a gente toma conhecimento de um fato como o dos professores e já quer tomar partido né. InInteressante essa análise, cujo apoio é a nenhum dos lados. No fundo é a crise política. Sempre ela.
    Gostei muito. Tenho me atualizado muito com os seus posts. Beijos.

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