Liberdade!!! (Mas só para mim)

Liberdade significa agir de modo livre, isto é, de modo não coagido ou sem impedimento. Conceito abstrato, tratado desde tempos remotos. Entretanto, em termos históricos, faz pouquíssimo tempo que foi conquistado pelo povo.

Foi?

Na Grécia Antiga, praticamente só 1% da população ateniense podia exercer sua cidadania, que é uma forma de liberdade política; durante séculos a maioria dos indivíduos das sociedades não tinha acesso à educação (nem a vários outros “serviços públicos ou estatais”); na Idade Média, grande parte da população europeia foi obrigada a ter uma determinada crença religiosa.

Na Modernidade, a Reforma Protestante foi um marco para o liberalismo. Em que pese Lutero e Calvino serem tão intolerantes com relação a quem não os seguisse quanto o Santo Ofício, o questionamento da Igreja dominante foi fundamental para os capítulos seguintes na história mundial. Pouco tempo depois vieram as Revoluções Burguesas e, consequentemente, o Estado Democrático de Direito. Aqui, as teorias liberais de Locke, Hume e Mill começaram a ser praticadas, ainda que de maneira tímida, contemplando mais indivíduos da sociedade.

A soma das duas Guerras Mundiais e da Guerra Fria no século XX arrefeceu a escalada liberal, com Nazismo, Fascismo, Stalinismo e as Ditaduras sul americanas. A década de 90 buscou a retomada, com o “neo-liberalismo” (que na verdade foi mais um “neo-intervencionismo”). Mas, no ínício do século XXI, com o atentado terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center nos EUA, (quase) toda a restrição da liberdade em nome da guerra contra o terror passou a ser justificada no mundo ocidental.

Interessante que a tragédia de 2001 foi pedra de toque para diminuir cada vez mais a liberdade do mundo islâmico. Invasão não justificada – e não autorizada pela ONU – do Iraque; maus tratos a presos políticos (muitos islâmicos) em Abu Ghraib; Guerra no Afeganistão; etc.

A França, sede do ápice do Iluminismo, foi na direção contrária à sua luta revolucionária. Apoiou os EUA em vários dos exemplos citados supra. O conservadorismo do Velho Mundo falou mais alto e a xenofobia já não é mais novidade nessa região, o que levou a polêmicas com relação ao pluralismo de costumes, como a questão do uso de burcas por muçulmanas, no governo Sarkosy. Por fim, no dia 7 de janeiro de 2015, a sede do jornal Charlie Hebdo, que tem o costume de publicar charges satíricas sobre o islamismo, foi alvo de um atentado, que deixou 12 mortos.

Uma das "piadas" do Jornal francês

Uma das “piadas” do Jornal francês

Diante disso, a exigência de liberdade (re)apareceu de forma ainda mais notável, nestes últimos dias. Mas fica a pergunta. Liberdade para quem? Até que ponto a ofensa do jornal não é uma intolerância ao credo islâmico? Quantos cristãos não justificariam (ou moderariam na crítica) se ocorresse uma vingança contra quem ofendeu seu credo? Inclusive, ontem, em Belo Horizonte, um casal de homossexuais foi retirado de uma praça, à luz do dia, por um policial, por estarem se beijando, sob o argumento de ter recebido reclamação de duas pessoas. Existiam outros casais no mesmo local, também se beijando, mas todos heterossexuais.

Não concordo em absoluto com o massacre ocorrido em Paris, não obstante assevero que, enquanto não houver correlação entre liberdade, igualdade e fraternidade (lema da Revolução Francesa, por ironia), o discurso em defesa de liberdade, com sentimento inflamado e vitimizado, não passa de hipocrisia do senso comum, daquela maioria da sociedade que gosta da “lei de Gérson”, i. e., de levar vantagem em tudo. Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

Lema da Revolução Francesa de 1789

Lema da Revolução Francesa de 1789

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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11 respostas para Liberdade!!! (Mas só para mim)

  1. Clarice Lispector, em “Perto do coração selvagem”, disse a respeito da liberdade: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” Não seria porque a liberdade ampla, geral e irrestrita ainda não existe?

  2. Clarice Lispector,em “Perto do Coração Selvagem”, disse: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.” Talvez porque a liberdade ampla, geral e irrestrita não existe! Parabéns pelo texto, meu filho!

  3. Felipe Torres disse:

    As pessoas possuem uma imensa dificuldade em assumirem simultaneamente, em uma dada situação, uma postura crítica acerca de dois lados distintos. Como a influencia de derivações das ideias de Mani em nosso mundo é forte, tende-se sempre a endeusar um lado, tomar alguém como o errado ‘per se’ e ponto.
    Condenar os bárbaros atos dos terroristas não me obriga, necessariamente, a estampar um ‘Je Suis Charlie’ no peito. Ao contrário, sinto me cada vez mais obrigado a dizer bem alto: JE NE SUIS PAS CHARLIE!!! Sou contra o terrorismo E a humilhação; numa guerra de um contra o outro, sou contra os dois!!!
    Por fim, penso que a construção da Liberdade demanda, acima de qualquer outra coisa, Dever; e Respeito é Dever!!!

    Hasta, amigo!!!!

  4. Elaine Soares Rodrigues disse:

    O que eu disse a todos do meu convívio com relação ao acontecimento?? Que não justificava, obviamente, matar uma ou doze pessoas, mas que, na minha opiniçao, o jornal abusou, sim,nas suas charges, e chegou ao desrespeito com suas piadas anti-muçulmanas. Se, na gravura que você colocou, fosse o desenho do Papa com a bíblia toda alvejada, tenho absoluta certeza de que muitos (inclusive eu) se sentiriam ofendidos.

    Você expôs um pouco do que muitos pensam, mas justificando com a história e a filosofia, o que acho que deixa o nosso argumento ainda mais forte:
    “Não concordo em absoluto com o massacre ocorrido em Paris, não obstante assevero que, enquanto não houver correlação entre liberdade, igualdade e fraternidade (lema da Revolução Francesa, por ironia), o discurso em defesa de liberdade, com sentimento inflamado e vitimizado, não passa de hipocrisia do senso comum,(…)”.

    Fica muito fácil nessa hora ser rebelde e ao mesmo tempo popular e entoar “Je suis Charlie”. Mas quem é muçulmano (não radical)? Quem é que defende os milhares de presos, torturados e civis mortos nessas guerras?

    Eu gostei muito. Vou compartilhar.

  5. O que me deixa indignada é que a grande maioria das pessoas que dizem “Je suis Charlie” não tinham antes o conhecimento das charges por eles publicadas – assim como eu – e não tomaram conhecimento depois, apenas acharam um absurdo o assassinato de “pessoas inocentes”, e eu te pergunto até que ponto eles são inocentes? Afinal de contas, essa tal liberdade que queremos e pedimos todos os dias para ter, quando fazemos publicações como as da Charlie Hebdu estamos sendo intolerantes – se essa palavra cabe – a uma crença e religião do outro, e vejo isso como uma tomada de liberdade, afinal, apenas o que acreditamos e julgamos correto é o que vale. Indignada.

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