Preconceito e reconhecimento

Axel Honneth é um filósofo alemão, ainda vivo, pertencente à famosa Escola de Frankfurt (que possui como membros Habermas, Marcuse, Horkheimer, Adorno, etc). Fortemente influenciado por Habermas e Hegel, é muito conhecido (e estudado) por sua teoria do reconhecimento, na qual defende que o ser humano concebe-se a si próprio por meio do reconhecimento, interagindo com os demais indivíduos.

Diante disso, a única experiência moral significativa do sujeito é aquilo que o domina, frente a uma negação do reconhecimento. O sujeito que não se vê reconhecido sofre, pois indeterminado moralmente. O reconhecimento, por isso, muito mais do que uma pretensão, tem a ver com o modo pelo qual o indivíduo se socializa. E os padrões de reconhecimento estão em instituições sociais.

Assim, o sujeito estabelece sua moralidade dentro de um contexto social, com a necessidade de haver reconhecimento de si mesmo e dos outros em três esferas: no amor, no direito e na estima social. A primeira gera autoconfiança. A noção de sujeito de direito completa a segunda parte do sujeito, onde ele se sente respeitado em suas pretensões. Essa esfera do direito aparece como igualdade na Modernidade e, por isso, precisa haver o terceiro momento, que é da estima social. A última esfera é tipicamente Moderna, porque quanto mais diferente as pessoas, mais elas podem contribuir para o bem comum.

Honneth acredita plenamente que, com o desenvolvimento social, pode-se falar em progresso moral, na qualidade de integração social. Contudo, tal progresso só ocorrerá quando os três princípios (amor, direito e estima social) forem padronizados pela ideia de justiça social.

Axel Honneth

Axel Honneth

Não é difícil pensar em exemplos cotidianos em que as pessoas não se sentem reconhecidas pela sociedade e, assim, desmoralizadas. Cito dois, simples. Primeiro, conheço uma pessoa que não foi admitida em um emprego tão somente por ser homossexual. Segundo, sou professor de filosofia e, certo dia, de manhã, numa consulta, o médico perguntou qual era minha profissão e, ao saber, disse que eu era “doidão” (por duas vezes, e se desculpou por duas vezes, rindo); depois, de noite, no shopping, numa loja de óculos discutia amigavelmente com o vendedor por querer um modelo redondo, enquanto ele tentava me convencer a levar um mais tradicional, até que ele descobriu (por minha esposa) minha profissão e disse, de imediato, para eu levar o redondo, porque agora tinha entendido minha preferência, por ser “doidão”.

Honneth, no artigo Recognition and justice: outline of a plural theory of justice, aduz: “(…) uma progressão moral na esfera do amor pode significar gradualmente eliminar aqueles papeis clichês, atribuições de estereótipos e culturais que estruturalmente ficam no caminho da possibilidade de adaptação mútua para as necessidades dos outros. De modo correspondente, para a esfera do reconhecimento de estima social, tal progresso significará radicalmente questionar aquelas construções culturais que, na indústria do capitalismo passado, têm servido para distinção de somente um pequeno alcance de atividades com o título ‘emprego remunerado’”.

É fato que, desde as Revoluções Burguesas, o mundo tem melhorado. No Ocidente, principalmente na esfera do Direito, que trouxe mais igualdade e dignidade aos homens, no intuito de elevar a estima social e a boa convivência entre todos. Mas ainda há muito tradicionalismo e conservadorismo cultural enraizado nas sociedades, estereotipando cada vez mais o já estereotipado. Honneth busca um ideal que acabe com esses clichês… e a resposta é simples, difícil e, mais importante de se entender, não clichê: o amor.

Mais amor, por favor

Mais amor, por favor

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
Esse post foi publicado em Filosofia e Cotidiano e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para Preconceito e reconhecimento

  1. Carol Pires disse:

    Falar de amor de uma forma ”não piegas”..bravo! =)

  2. Fiquei pensando no sentimento dos que se sentem discriminados. Há que ter muito amor a si próprio para que o indivíduo não se sinta “por baixo”.

  3. Engraçado, no final do texto tive uma sensação de que você escreveu uma bela defesa aos diferentes, inclusive homossexuais, mas outros também, talvez meio sem querer. E uma defesa original e sem clichés, como disse a Carol aí em cima. Falar do preconceito é sempre complicado. Mas foi tudo tão sutil e filosoficamente escrito e argumentado que ficou perfeito. 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s