Antes da eleição, o cidadão

Nos últimos meses, o Brasil praticamente só respira as eleições. E tem sido uma respiração muito complicada, não somente devido ao tempo seco e sem chuvas em grande parte do país, mas, principalmente, devido à poluição de suas discussões.

Muitas vezes ásperas, agressivas e com faltas de educação, tais discussões têm resultado em brigas reais, desfazimento de amizades e exclusões de “amigos” das redes sociais. O portal G1 da Globo reportou que, no Facebook, discussões políticas vem abalando amizades, não somente virtuais, mas também reais, incluindo aquelas de anos, desde a infância.

Fato é que a política está estritamente relacionada com o cidadão e a cidadania. Política deriva da palavra grega pólis, que diz respeito às Cidades-Estados representadas pelas comunidades organizadas na Grécia Antiga. E tais comunidades organizadas são formadas pelos cidadãos, politikoi em grego. Nessa seara, dois cidadãos-filósofos se destacaram na Antiguidade e trouxeram valiosas lições sobre ética e política, isto é, sobre cidadania:

Aristóteles afirmava que o homem é um animal político (zoon politikon), ou seja, é dotado de uma natureza política e é somente a comunidade que pode lhe oferecer as condições necessárias para que ele possa alcançar a felicidade (vale a lembrança do filme Na natureza selvagem – de 2007, dirigido por Sean Penn –, que retrata a vida de um rapaz que descobre que a “felicidade só é real quando compartilhada”). Dessa maneira, é essencial que os indivíduos vivam dentro da comunidade, da política, compartilhando suas vidas, sendo cidadãos.

gregos

Platão (mestre de Aristóteles), por sua vez, dizia que o bom cidadão é aquele que se obriga a cuidar do seu próprio aperfeiçoamento moral e dos outros. A busca incessante pela melhoria moral faz com que o cidadão tenha, cada vez mais, consciência crítica e, assim, preocupa-se com os princípios corretos que devem fundamentar a vida em comum. Isso, necessariamente, torna a sociedade mais pacífica e harmônica.

Ora, mediante essas duas análises, resta claro que a cidadania é o pilar do bem-estar de cada indivíduo e, obviamente, de toda a sociedade. Entretanto, para que esse bem-estar se realize na felicidade aristotélica, cada pessoa tem de saber como viver em comunhão com os outros. E esse “como” está inserido no conceito platônico de bom cidadão. Não obstante, o que se pode notar nos dias atuais é o contrário do exortamento aristotélico-platônico. Quase a totalidade das discussões entre os cidadãos sobre as eleições são recheadas por uma ausência de moralidade, que pulula a olhos vistos. Os debates entre os eleitores ocorrem por meio de xingamentos, com arrogância, ódio, preconceito, intemperança, desarmonia, etc.

Fonte: UOL

Fonte: UOL

Enfim, descobre-se de fato o porquê de o Brasil ser muito atrasado politicamente, com uma comunidade pouco ou má organizada: antes de carência de bons políticos, há carência de cidadania. Afinal, como pode um representado (cidadão) que não representa (imoral) defender este ou aquele representante (Aécio ou Dilma)? Isso fica patente quando, por meio de uma discussão sobre o tamanho do problema da falta de bons presidenciáveis brasileiros, surge outro problema, bem maior, que é a falta de bons cidadãos brasileiros. Lamentável.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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2 respostas para Antes da eleição, o cidadão

  1. Isso, Lucas. O desrespeito à opinião alheia, culminando na imposição da própria opinião tem sido uma constante. Por isso, fico com a velha e tão atual máxima: “Política, religião e futebol não se discute.” E ponto final.

  2. Guilherme disse:

    Concordo Lucas. Na verdade, como você disse, a discussão seria excelente tendo cidadãos conscientes, coisa que infelizmente não somos ainda. Trocar informações e apresentar pontos de vista são importantes para aumentar a convicção e melhorar o senso crítico. Porém, o problema maior deste momento político, não são os pontos de vista, mas a falta de maturidade política mesmo. Estamos habituados a viver a “política” somente nas eleições e pouco entendemos como funciona toda maquinário. Tem gente que nem sabe o papel de senador, deputado federal, estadual, mas enche a boca para falar do papel do presidente, tratando-o como um herói da nação, quase um poder absolutista! Enfim, temos ainda por evoluir. Parabéns pelo texto.

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