A moral, a felicidade e a depressão

Uma pesquisa feita pelo jornal O Estado de São Paulo, que se baseou nos dados do sistema de mortalidade do Datasus, mostrou que o índice de mortes relacionadas à depressão no Brasil aumentou 705% entre os anos 2000 e 2012. Certamente, a depressão também cresceu mundo afora.

De origem latina, depressão deriva de depressus, que significa abatido ou aterrado. Assim, um indivíduo depressivo possui carência de alegria, bom humor, paz, enfim, carência de felicidade. Mas, o que fazer para ser feliz?

Aristóteles, filósofo da Antiguidade, dizia que o homem possui uma finalidade, um objetivo, qual seja, uma palavra grega entitulada eudaimonia, que possui uma tradução geral: felicidade. No entanto, ao analisar a origem da palavra grega supra, ela significa literalmente bom espírito. Sócrates, outro filósofo também Antigo (até mais que Aristóteles), respondia que muito do que ele dizia e fazia em sua vida lhe ocorria por andar sempre com um eudaimon ao lado, isto é, com um bom espírito, nada mais que um mentor espiritual ou anjo da guarda. Dessa forma, se uma pessoa possui um bom estado de espírito, ela consegue viver mais inspirada, mais intuída, mais feliz simplesmente, o que a afasta da depressão e a aproxima do bom ânimo.

E quem tem bom ânimo possui uma alma saudável, uma vez que ânimo vem da palavra ânima que, em grego, significa alma. Assim, relacionando a eudaimonia com essas explicações, outra tradução, além de felicidade, é realização ou florescimento (também explanado por Aristóteles). E, obviamente, quanto mais animado, mais realizado.

Apresentação1

Entretanto, não é um caminho fácil atingir como finalidade a realização, o florescimento. Mesmo porque a felicidade é uma virtude que pode ser analisada com uma pluralidade de significados e, assim, relativizada. Mas, Aristóteles possui uma ética perfeccionista e, com isso, não é qualquer tipo de realização que resulta na felicidade, mas tem de estar dentro da ética. Novamente buscando Sócrates como auxílio, este dizia que a maior virtude (logo, que também traria felicidade) é o conhecimento. Diante disso, o mal só ocorre devido à ignorância. Ou seja, não é possível alguém deter o conhecimento e fazer o mal e – complementando – alguém deter o conhecimento e não ser feliz. Não é à toa que pode-se trazer o exemplo do fim da vida de Cristo, ao dizer: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Então, quanto mais animado, mais realizado; quanto mais realizado, mais conhecedor; e quanto mais conhecedor, mais virtuoso.

Não obstante, pode-se facilmente contestar essa afirmativa, ao pensar em algumas personalidades (famosas ou próximas, da família) que são bastante intelectualizadas e, ainda assim, fazem maldades. Sócrates responderia com o argumento de que, na verdade, tais pessoas não conhecem de fato, mas tão somente acham que conhecem. O saber desses se limita à ponta do iceberg, ocultando todo o verdadeiro saber sob as águas do mar, quando esses indivíduos pensam (iludidamente) que abarcam tudo. A questão é que, muitas vezes, o que resta escondido sob as águas é um conhecimento moral. Nessa perspectiva, não é muito difícil atingir o conhecimento intelectual e este não é suficiente para a eudaimonia. Contudo, o conhecimento moral sim, é fundamental. Tanto que é bem mais fácil encontrar pessoas analfabetas e pobres felizes do que pessoas muito instruídas e ricas felizes.

iceberg

Nota-se, por fim, que encontrar a eudaimonia e afastar a depressão não está apenas ligada a evolução intelectiva, restrito a uma concepção material-financeira, ao cuidado só do corpo, mas antes no saber lidar com o outro, na convivência, na cidadania, na ética, enfim, em também cuidar da alma. Por isso, fecha-se o ciclo: quanto mais animado, mais realizado; quanto mais realizado, mais conhecedor; quanto mais conhecedor, mais virtuoso; quanto mais virtuoso, mais moral; e quanto mais moral, mais feliz; Quanto mais feliz, mais animado…

Essa é a lei.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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8 respostas para A moral, a felicidade e a depressão

  1. Sem dúvida! Isso endossa a frase: “Dinheiro não traz felicidade”, pois, se assim o fosse, rico não se suicidava, não é?
    Parabéns pelo texto, pelo blog, pelas visitas, por um ano de escrita, etc. etc.

  2. Rigoliff Reis Ribeiro disse:

    Este texto foi de tamanha profundidade que enviei para vários amigos e compartilhei no meu facebook. Parabéns e continue com textes felizes como este!

  3. Lucas, eu peco que escreva um texto filosofico sobre pessoas estressadas e com algum desvio historico passado, como devem procurar se entederer e aos outros e ter uma vida melhor, sem se ater a nivel financeiro ou intelectual. Sou professor e vejo muitas pessoas stressadas, que precisam de ajuda. Voce tem capacidade de escrever este texto. Obrigado!

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