Educação no Brasil: nem prepara “Enem” ensina

Dados atuais do MEC (Ministério da Educação) informam que, pela primeira vez, desde 2002, a quantidade de estudantes que concluíram a graduação diminuiu. A queda foi de 5,65% entre 2012 e 2013. Os fatores que levaram a tal resultado são: condição financeira do aluno, mudança de curso após a entrada na faculdade e problemas na Educação Básica. Em reportagem do jornal Folha de São Paulo, Sólon Caldas – diretor-executivo da Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior – afirma: “A principal [causa] é a deficiência na formação básica do aluno, ele não consegue acompanhar o ritmo”. A pergunta é: por quê?

A Educação Básica do Brasil é pautada pela Escola Moderna, instituição europeia criada no século XVII, na qual buscou organizar, disciplinar e controlar a sociedade. E isso seria possível por meio da educação dentro das Escolas. No entanto, vivemos no século XXI, com notável avanço cultural, científico e tecnológico, no qual os limites do aprendizado já ultrapassaram há muito o âmbito escolar. Há muito mais acessibilidade à informação e, com isso, há um desinteresse dos estudantes nas salas de aula, onde ainda reside um modelo antiquado sobre divulgar e difundir o saber.

Diante desse cenário, é fundamental repensar o paradigma educacional. Em primeiro lugar, a instituição em voga estimula o falso significado da palavra “aluno”. Apesar de significar “lactante, menino”, proveniente da palavra alere, que denota “fazer crescer”, mais parece que o real sentido de aluno é “sem luz”, definição incorreta, porém mais real na atualidade. Isso porque o estudante possui um papel secundário, passivo no processo de aquisição de saber, pois tão somente espera a atividade dos representantes da Escola, não sendo partícipe direto de algo fundamental em sua vida. Dessa forma, interessa-se por outras questões, nas quais possui um papel mais relevante e ativo.

Ademais, vale lembrar que o aluno recebe uma gama de conteúdos durante os anos escolares, por meio de livros didáticos (meros manuais), produzindo pseudo-aprendizados, porque: (1) são baseados na “decoreba” de eficiência fugaz, nos quais o aluno apenas decora o que está escrito no manual – que expõe de maneira rasa e superficial uma teoria e que, assim, não ensina a mesma. O professor não trabalha com a teoria em si, mas tão somente com um comentário parco e pobre sobre a mesma. Nesse cenário, o aluno não tem como entender a exposição, pois o professor não teve nem tempo para explicar nem o material original, qual seja, o livro do autor (assim, o aluno aprende Platão num livro didático que explica sua Alegoria da Caverna em uma página, não tendo acesso ao livro que trata sobre isso, A República. Por outro lado, o problema é tão institucional que, se o professor, em vez de explicar a Alegoria da Caverna de Platão por meio de manuais, possibilitar e sugerir o entendimento da mesma pela leitura do próprio livro do filósofo grego, a maioria dos alunos, passivos e adeptos do modelo medíocre concretizado, discordariam e se oporiam a isso, inclusive sendo defendidos pela direção pedagógica das Escolas); e (2) O manual geralmente é parcial e doutrinador, isto é, além de não proporcionar o texto-base, possui um caráter totalmente enviesado. No Brasil, as ciências humanas (dominadas pelo espírito “paulofreireano” de pedagogia) exaltam o viés marxista-socialista. Assim, o capitalismo é o bandido e o socialismo é o mocinho para a humanidade. Ou seja, há uma preocupação excessiva com os teóricos que concordam com Marx (exaltando a Escola de Frankfurt) e quase nenhuma preocupação – só são citadas como objeto de crítica – com a História do outro lado do rio (escolas austríacas de economia liberal, Adam Smith, etc).

Tudo isso ocorre dentro de um cenário com os olhos postados no ENEM, avaliação do final da Escola Básica que cada vez mais possibilita o ingresso no Ensino Superior. Com conteudismo exacerbado e doutrinador. Dessa maneira, calcado nesse modelo de ensino da Educação Básica, há um choque brutal, devido a diferenças institucionais, quando o estudante entra no Ensino Superior.

Ora, a questão é que excesso de conteúdo não significa ensino, mesmo porque (novamente reforço) grande parte dos conteúdos é vista de forma ridiculamente oca. Não que seja fundamental – e nem é possível – aprofundar em todos os aspectos, mesmo porque não há tempo para isso e tampouco os alunos possuem capacidade (maioridade intelectual). Para tanto, é sempre melhor aprofundar mais em menos, de modo a possibilitar aos estudantes se interessarem pelo aprendizado, escolhendo eles mesmos quais conteúdos gostariam de aprofundar. Esse projeto não tem nada de utópico, tanto que, em Escolas que já não seguem rigidamente esse padrão, temos jovens como Angela Zhang, dos EUA que, em 2012, com 17 anos recebeu uma bolsa de estudos por ter criado um projeto que pode significar a cura do câncer; ou Jack Andraka, de 15 anos, que inventou um detector de câncer, no segundo semestre de 2013. Em ambos os casos, os estudantes se interessaram por uma área específica e mergulharam nela, de modo investigativo, pesquisador e totalmente ativo, ainda no Ensino Médio, totalmente contrário ao “tipo” dos alunos gerais brasileiros.

Em suma, não há dúvidas de que deve surgir um novo aparato de ensino na Educação Básica. Um bom caminho a ser pensado é o próprio modelo da Educação Superior: se, neste, o professor é um guia para estudantes interessados, que não são mais estudantes “sem luz”, mas sim pesquisadores, criadores, possibilitando-os – como dizia Sócrates – a darem luz ao conhecimento, a Educação Básica deve ser um passo imediatamente anterior, com os alunos já germinando seu papel de pesquisador ativo e interessado. Afinal, é exatamente esse ideal do ensino e de educação, em que a pessoa de fato transforma sua potência em ato, de maneira ativa. E isso, sem dúvida, resulta no crescimento científico e tecnológico e, consequentemente, é isso que faz crescer um país.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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4 respostas para Educação no Brasil: nem prepara “Enem” ensina

  1. Disse tudo! Nada como um professor para diagnosticar esse modelo ultrapassado de educação, principalmente do Ensino Fundamental/Médio. Coincidentemente, na última sexta-feira, presenciei o encontro de dois alunos no ônibus que eu peguei de volta do serviço. Pareciam recém-formados e, um deles, comentou com o outro: “Tá gostando da faculdade?” E o outro: “Tô curtindo muito, Estou fazendo administração e é muito apertado, mas muito bom”. E o primeiro: “Muito mais legal que colégio, né? Você vai ver, nunca mais vai precisar de muita coisa do que aprendeu. Tipo Biologia, saber o reino de num sei qual espécie…”.
    Eu sempre fui boa aluna, mas sempre decorei muita coisa, Hoje, mesmo coisas importantes de história ou geografia não me lembro mais. Acho que o modelo de educação há muito já está decadente. Será que tem alguém corajoso para mudá-lo?

  2. Fantástico, meu filho! Você conseguiu colocar em poucas linhas, diante da imensidão do tema, o cerne da questão. Trouxe-me à memória, a fala do saudoso escritor mineiro Bartô (Bartolomeu Campos de Queirós), que, certa vez, no Projeto Beagalê, no Museu Abílio Barreto, comentou para nós, ouvintes: “Pela manhã, da janela do meu apartamento, observo uma escola. Vejo os pequenos, alegres, e doidos para entrar na escola. No final da manhã, observo os maiores, com mochila pesada nas costas, correndo feito loucos, doidos para deixar a escola…, e me pergunto: o que aconteceu nesse espaço de tempo que, quando pequenos, entusiasmados e esfuziantes, os alunos amavam esse espaço. Depois, já no Ensino Fundamental II, a escola tornou-se um peso, desinteressante e uma difícil obrigação…”
    A difícil resposta foi encontrada por você. E, por isso, vale a pena destacá-la: Em suma, não há dúvidas de que deve surgir um novo aparato de ensino na Educação Básica. Um bom caminho a ser pensado é o próprio modelo da Educação Superior: se, neste, o professor é um guia para estudantes interessados, que não são mais estudantes “sem luz”, mas sim pesquisadores, criadores, possibilitando-os – como dizia Sócrates – a darem luz ao conhecimento, a Educação Básica deve ser um passo imediatamente anterior, com os alunos já germinando seu papel de pesquisador ativo e interessado. Afinal, é exatamente esse ideal do ensino e de educação, em que a pessoa de fato transforma sua potência em ato, de maneira ativa. E isso, sem dúvida, resulta no crescimento científico e tecnológico e, consequentemente, é isso que faz crescer um país.

    A isso, chamo de “luz no fim do túnel”.
    Parabéns!

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