O fracasso e a má fé

Ainda é bem recente a ferida, não cicatrizou. A seleção brasileira de futebol perdeu de 7 a 1 para a Alemanha, na Copa do Mundo no Brasil. Um fracasso em letras garrafais.

Problemas são inúmeros para se poder explicar a humilhação sofrida no último dia 08 de julho, em Belo Horizonte. A começar pelo próprio técnico. Em 2012, quando da demissão de Mano Menezes, Luiz Felipe Scolari dirigia a equipe do Palmeiras, que fazia uma péssima campanha e seria rebaixada do campeonato nacional no mesmo ano. Antes disso, foi demitido do Chelsea, time inglês, devido a um mau trabalho. Isto é, não havia credenciais para se contratar o gaúcho como técnico da seleção brasileira. Como se não bastasse, um dos melhores técnicos da atualidade, Pep Guardiola, em período de férias, foi perguntado se gostaria de trabalhar frente ao Brasil. Sua resposta foi de que não pensaria duas vezes e seria um imenso prazer. No entanto, a CBF, com a petulância de sempre, rejeitou a ideia, pois “o Brasil não precisa de estrangeiros para ser vencedor”.

Quem entende minimamente de futebol sabe que o Brasil não jogou mal apenas nos últimos 2 jogos da competição, mas sim desde o primeiro, contra a Croácia. Tirando Neymar, que é acima da média, o resto da equipe se mostrava mal treinada, sem aspecto tático e também despreparada emocionalmente (como pôde ser visto na disputa de pênaltis nas oitavas de final, quando o capitão da equipe não agüentou ver as cobranças).

Diziam que era importante resgatar o espírito de família na seleção, depois das passagens de Dunga e Mano como técnicos. Felipão já havia feito isso em 2002 e não teria dificuldade em formar outra família Scolari para a Copa no Brasil. Parece que de fato foi formada uma família, aquela família que nunca será esquecida de modo negativo. Por outro lado, nota-se claramente que não havia nenhuma “família” no time da Alemanha ou da Holanda, dois times bem superiores. Havia sim, profissionais bem mais preparados, o que é mais que suficiente.

Nessa “família Scolari”, David Luiz foi considerado por muitos o heroi brasileiro. Aquele que fez um belo gol contra a Colômbia, não obstante ter falhado em 3 gols contra a Alemanha, 1 contra a Holanda e ter cometido outras falhas cruciais ao longo da Copa. Aquele que postou mais de 50 fotos em redes sociais durante o torneio. Vejam bem: tudo indica que é um ótimo ser humano, boa gente, mas o fato inconteste é que não foi bem em sua função, como jogador de futebol. Aliás, como o zagueiro mais caro do mundo, vendido agora para o PSG da França. E é considerado heroi??? Não está certo.

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Por fim, quando muitos jogadores disseram ser “impossível explicar o inexplicável”, referindo-se aos 4 gols tomado em 6 minutos, houve até reportagem com entrevista a uma psicóloga que disse ser normal acontecer esse tipo de “apagão” com muitos, no cotidiano. Sem dúvidas, isso pode acontecer. Acontece com aqueles que estão despreparados, que estão com problemas pessoais, na família, no emprego, etc. Agora, com aqueles que estão focados e preparados, dificilmente acontece, como não aconteceu com Argentina ou com a própria campeã Alemanha. Esse tipo de discurso não cabe para um conjunto de homens que tinham a melhor estrutura para trabalhar, com todo o apoio do mundo. Isto é, não tem nada de inexplicável, uma vez que a explicação é patente: não estavam preparados, focados, disciplinados minimamente para enfrentarem um grande time. Assim, o “apagão” foi consequência de uma gigantesca discrepância entre dois times de futebol.

Jean-Paul Sartre, filósofo existencialista francês, defendia que todo ser humano é livre. Diante disso, todo resultado é fruto da escolha livre do homem e ele deve arcar com essas responsabilidades. Assim, se alguém não assume a responsabilidade sobre seus atos, cai no conceito de “má fé”, dissimulando suas ações, transferindo responsabilidade para questões inexistentes, como desculpas ou paixões. Para ele, isso é uma mentira de quem não assume o risco por tomar suas decisões, valendo-se de medo ou ignorância consciente. Não existe melhor carapuça para a má fé sartreana as explicações patéticas dos fracassados sobre o fracasso. Colhe-se o que se planta. Simples assim. E fica mais feio quando não se assume os erros. Mais feio e mais imoral.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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Uma resposta para O fracasso e a má fé

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Sem dúvida, Lucas. E vale ressaltar que, como sempre, e agora não seria diferente, já que o Brasil jogava em casa, o time sempre entra em campo de “salto alto”, como se os jogadores brasileiros fossem os melhores do futebol, devido à fama herdada de Pelé, Garrincha, Tostão e outros craques do passado. Com isso, treinamento que é bom, parece não ser necessário. Afinal, o descanso e o acesso às redes foram constantes, enquanto a Alemanha trabalhava nas duas pontas: aprimorando seu futebol e trazendo melhorias àos índios pataxós deste País tão carente…

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