Só o talento basta?

As sociedades capitalistas costumam ter como grande valor moral o mérito. Isto é, se um indivíduo possui e desenvolve um talento, ele possui grandes chances de ser recompensado socialmente.

Roger Federer no tênis, LeBron James no basquete, Tiger Woods no golfe, Woody Allen no cinema, Messi e Neymar no futebol. Todos esses, sem dúvida, são exemplos de seres que tiveram seus talentos reconhecidos e se deram bem financeiramente. Ou seja, a sociedade reconheceu seus méritos como um valor moral. No entanto, será que “somente” isso basta?

Depois de muitos anos apontado como o melhor de todos os tempos no golfe, Tiger Woods se viu num escândalo grave aos olhos da moral ocidental, uma vez que se tratava de várias relações extraconjugais. Perdeu dezenas de contratos milionários com patrocinadores, foi afastado de torneios importantes e perdeu seu prestígio mundial. Woody Allen vez ou outra surge na agenda da mídia em voltas de um suposto abuso sexual cometido contra sua filha, quando esta era criança. A opinião pública se divide e algumas pessoas que sempre foram fãs de seus filmes, depois de tomarem nota da polêmica, dizem que nunca mais o apoiarão devido a esse comportamento inaceitável. E, no futebol, nessa época de Copa do Mundo, dois dos maiores jogadores na atualidade já foram comparados com relação a suas atitudes morais. Há poucas semanas, num amistoso, um garotinho invadiu o campo durante o jogo da seleção brasileira. Neymar o acolheu e tirou fotos dentro do gramado, sendo elogiado por todos. Já Messi, dias atrás, na estreia de sua seleção na Copa, ignorou um outro garotinho que lhe estendeu a mão. Ainda que muitos tenham dito (inclusive o próprio jogador) que o craque não viu a criança – e assim não houve maldade ou arrogância, o julgamento estava consolidado: Messi é babaca e Neymar é humilde e acolhedor; e – por isso – Neymar passou a ser melhor jogador que Messi.

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Importante salientar que, se uma pessoa possui um cargo de chefia em sua profissão, não obstante não possua um caráter moral superior, a grande maioria da população considera isso uma afronta ao nosso senso de justiça. Ainda na seara do futebol, não são raras as vezes em que há uma grande revolta quando um jogo termina com um resultado injusto por meio de uma falha do árbitro. Muitos apontam a partida como “marmelada” e colocam o time derrotado como o “vencedor moral”. No próprio jogo de estreia do Brasil contra a Croácia, não foram poucos os brasileiros que ficaram indignados com o pênalti “arrumado” pelo jogador Fred. Ou seja, ainda que a seleção brasileira tenha um time mais talentoso que a Croácia, a vitória perdeu muito em credibilidade, por causa de um problema moral.

Em tempos cuja mídia sobrevive explorando os homens com suas patologias, seus assassinatos, sua corrupção, em suma, o que há de pior na espécie humana, parece que a sociedade clama por herois, pessoas moralmente corretas, mais humildes, mais carinhosas, mais sensíveis. Apesar de toda a evolução tecnológica mundial, o povo necessita de mais humanidades. Bill Gates, por exemplo, é muitas vezes mais exaltado pelas suas doações milionárias do que por sua importância no âmbito da informática.

Logo, nitidamente, um super homem significa muito mais que um super talento.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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2 respostas para Só o talento basta?

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    É, meu filho, não sei se o talento por si só basta. Tantos talentos na música, literatura, artes plásticas,que, infelizmente, morrem no anonimato. Alguns, depois que já “passaram para o outro lado” tornam-se reconhecidos, como Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos… Outros,, nem depois de mortos.
    Fato é que, neste mundo cheio de conchavos, “Q.Is”, quem não tiver um “olhômetro” e um pouco de sorte…

  2. Exactly! Por outro lado, talentos anônimos ou atitudes filantrópicas muitas vezes passam desapercebidas. Como “converter” as pessoas? Nesse sentido, as pessoas públicas -e talentosas- têm, sim, uma grande missão que é mostrar a generosidade e a boa “moral” em tudo ou quase tudo o que fazem.
    Ótimo!

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