A ideologia e a verdade sobre a Copa do Mundo

Entre os séculos XI e VII a.C., a verdade era representada pelos mitos. Com o nascimento da filosofia, a razão (logos) ganhou importância na busca pela verdade, sobrepondo à prioridade mitológica. Sócrates e principalmente Platão, com a Alegoria da Caverna, levaram a razão/conhecimento ao mais alto posto da teoria do conhecimento.

Entretanto, havia também os sofistas, outro grupo – contemporâneo dos dois filósofos acima mencionados – que detinha um enfoque diferente sobre a verdade. A ascensão sofística ocorreu devido à crise aristocrática na Grécia Antiga, iniciada por volta do século V a.C. Com a decadência da pólis, também declinou a antiga concepção de areté (virtude), baseada nos valores tradicionais. Diante disso, os sofistas afirmavam que a verdadeira virtude se fundava no saber. Assim, para esse grupo, o saber consistia, principalmente, em ter a habilidade de defender seu ponto de vista. Protágoras afirmava que “o homem é a medida de todas as coisas” e Górgias asseverava que a palavra pode ser portadora de persuasão, crença e sugestão.

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Com isso, os sofistas questionam a verdade absoluta, defendida por Sócrates/Platão (há alguns textos aporéticos de Platão, mas sua filosofia, em essência, não é relativista), na qual a palavra “verdade”, em grego, é alétheia. E, etimologicamente, a significa negação e lethe significa esquecimento. Na mitologia grega, existia o Rio Lethe, um dos rios de Hades, no qual aqueles que bebiam ou tocassem em suas águas, de tudo esqueceriam. Assim, se se nega o esquecimento, atinge-se a verdade (alétheia) e esta é universal, uma vez que todas as pessoas não esquecidas detém a capacidade de conhecer.

No mundo contemporâneo, as teorias universalistas socráticos/platônicas, hegeliana e kantiana, dentre outras, cada vez mais perdem terreno, mediante a pluralidade social, de pensamento, política, enfim, cultural. Isso resulta em várias ideologias (não no sentido de Karl Marx, mas sim de ideais) defendidas. Em época de Copa do Mundo no Brasil, pulula em redes sociais partidários de ideologias contra e à favor da realização do evento: #vaitercopa e #nãovaitercopa, em que os primeiros defendem e se empolgam com o fato de a Copa ser no Brasil e os últimos criticam, uma vez que o país necessita de cuidar de várias outras prioridades, além de ocultar as várias mazelas políticas e sociais do país, bem à moda dos filósofos da Escola de Frankfurt (aqui sim, no sentido de existir uma ideologia marxista, ou seja, uma dissimulação da realidade).

A ideologia dos últimos é caracterizada por membros mais ativos, isto é, nota-se claramente mais críticas destes do que apoio daqueles. Noves fora o fato inconteste de que o crítico é bem mais contumaz, além de a Copa no Brasil notadamente escancarar dezenas de problemas do Brasil para o mundo, é muito chato ver esses ideólogos com discursos inflamados, bem à moda sofística e, não obstante, agirem como se possuíssem a verdade absoluta por serem contra a questão, e (ainda por fim), como se não bastasse, colocarem-se como mais inteligentes do que aqueles que estão em êxtase com o evento. Muito chato, mesmo. Essa é a verdade.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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2 respostas para A ideologia e a verdade sobre a Copa do Mundo

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Lucas, muito bem colocado, e vale acrescentar que respeitar a opinião alheia tem sido uma raridade no meio social e cultural. Os que se acham donos da verdade costumam “arrotar” a sua opinião pelos quatro cantos do País, de forma grosseira e, porque não dizer, ditatorial, uma vez que não só menosprezam os que não pensam como eles, como, também, os ofendem, chamando-os de ignorantes. Fico com Sócrates: “o que sei é que nada sei”..

  2. Elaine Soares Rodrigues disse:

    Resumiu tudo! Ainda hoje, no ônibus, um passageiro comentava com o trocador que o “povo é burro mesmo, não sabe votar, não sabe reclamar, não sabe exigir, tem é que se ferrar”. Típico discurso “do contra”, sem fundamento mais aprofundado ou uma crítica mais bem embasada e melhor exposta, até com termos menos chulos, porque não dizer. Ou seja, discurso “bem chato”.

    Adorei!

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