#nãosomostodos

Fato (1): no dia 27 de abril de 2014, Daniel Alves – jogador do Barcelona – comeu uma banana jogada por um torcedor. Repercussão (principal): manifestações de repúdio ao ato do torcedor. A maior delas foi iniciada por Neymar, ao publicar uma foto em rede social segurando uma banana e com a hashtag #somostodosmacacos. Em questão de horas, diversas pessoas, muitas delas celebridades, também compartilharam fotos pessoais, com uma banana na mão e a mesma hashtag.

No entanto, um dia depois da atitude lamentável do torcedor espanhol, outro fato (2) – em decorrência da manifestação de repúdio de Neymar – tomou conta das redes sociais: o apresentador e empresário Luciano Huck (um dos que compartilharam suas fotos) lançou, por meio de sua grife, uma camisa com a hashtag #somostodosmacacos para venda, pelo valor de R$ 69,00. Imediatamente o foco mudou. A discussão sobre o racismo foi praticamente posta de lado e se iniciou uma discussão sobre se Huck foi ou não oportunista.

Interessante notar nesse contexto que as atitudes de Daniel Alves, Neymar e Luciano Huck foram diferentes, porém com um mesmo objetivo: o fim do racismo. De uma forma ou de outra, são atitudes aceitáveis, respeitáveis (obviamente, o que não é o caso do ato do torcedor). Assim, não seria melhor essa análise mais geral, em vez de criticar um deles?

Imagem

Entretanto, Huck foi massacrado por supostamente visar o lucro na luta contra o racismo. Inclusive o apresentador escreveu uma nota justificativa, assegurando que 100% da renda das vendas da camisa específica serão doados para o terceiro setor. E se não fosse? E se os 100% do lucro fossem para o seu bolso? Qual o problema? Algum crime? Então, por que sobrepor o caso Daniel Alves pelo caso Luciano Huck? Não obstante, poder-se-ia dizer, sua ação foi imoral, pois oportunista. Ainda que haja concordância quanto a isso, foi mais imoral do que o racismo? Afinal, este é condenável no mundo inteiro, há muito tempo. E sobre o oportunismo? O que dizer? Onde se encaixa? Não seria birra demais contra uma pessoa de maior poder aquisitivo? Provavelmente, se outra pessoa – com menos dinheiro e com menos fama – tivesse lançado uma camisa com os dizeres “100% macaco”, nos moldes da antiga “100% negro”, muitos dos que criticaram Huck permaneceriam calados (isso se não elogiassem a visão de tal pessoa).

Ora, historicamente, o mundo – e, principalmente o Ocidente – lutou e ainda luta pela liberdade. E uma sociedade liberal busca formas nas quais os indivíduos possam satisfazer suas aspirações. A condição necessária para tanto é que a sociedade não apresente um modelo de vida impositivo, único, devendo comportar e acolher (na medida do possível) as diferenças.

Infelizmente, o que ocorre é que vivemos numa época em que muitos não querem acolher as diferenças. Querem instituir um modelo social e, se não for do jeito deles, está errado, é nazista, é preconceituoso, é coxinha. Por fim, não respeitam o direito individual de cada um e querem enfiar goela abaixo sua teorias, sejam sociais, políticas, econômicas ou morais.

Enfim, o #somostodos é sempre do jeito deles. Quem defendeu o apresentador foi tachado dentro da hashtag #somostodosbabacas. Mas que #fiqueadica: dentro de certos limites – os quais não foram trespassados por Luciano Huck – os homens devem saber conviver uns com os outros cientes de que todos são diferentes (e algumas diferenças levam pessoas a serem bem sucedidas e outras não), e um pensamento universal soa um tanto quanto totalitário, uma vez que, dentro de nossas particularidades e personalidades únicas, definitivamente #nãosomostodos.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
Esse post foi publicado em Filosofia e Cotidiano e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para #nãosomostodos

  1. Elaine Soares Rodrigues disse:

    Na realidade, são dois problemas distintos. O Huck, justamente por deter maior poder aquisitivo, e não ser nenhum comerciante – e sim apresentador -, se decide comercializar uma blusa se aproveitando de uma oportunidade da mídia pode soar estranho, sim. Entretanto, parece-me que realmente o lucro não ficou com ele e isso já justifica e torna a situação aceita pelo “bom senso”. Ok, ele poderia sim vender para lucro pessoal, mas isso não combinaria com o que ele prega na televisão e pra todos, daí o estranhamento e a crítica.

    Mas concordo que todos exageram. Ultimamente é moda ser rebelde, mas ao mesmo tempo é comum tacharmos alguém pelo que ele faz ou deixa de fazer. Nesse ponto, concordo com você. Ele é pessoa pública, mas, como qualquer outro, pode fazer qualquer coisa que não seja imoral ou ilegal. Ainda que seja algo que não condiz com o que ele diz como apresentador, ou com o que demostra ser.

    No mais, ótimo texto. Ótima referência ao episódio com Daniel Alves. Ótima reflexão.

  2. Fátima Soares Rodrigues disse:

    E fico pensando até que ponto a opinião de uma pessoa pública influencia a sociedade. E não tenhamos dúvida: influencia, sim.Recentemente, a repórter do SBT, Rachel Sheherazade, de alguma forma, “apoiou” a “justiça popular”. Depois disso, coincidência ou não, linchamentos, espancamentos de culpados e inocentes pipocaram no País, resultando em morte.
    As redes sociais têm um papel importantíssimo nisso, por isso, cuidemos da palavra, porque ela tem poder: para o bem e para o mal.
    Acolher e respeitar as diferenças, como você pontua, é imprescindível para que a paz não seja apenas uma utopia..

  3. Guilherme disse:

    Seguindo até mesmo seu raciocínio, eu não vejo problema na atitude do Luciano Huck, até porque é direito dele, mas não gostei, e isso também é um direito, o não gostar! Acho que ele poderia ter tido um papel mais bacana SE A INTENÇÃO fosse fazer uma campanha contra o racismo, de repente, fazendo doação das camisas a todo elenco global em uma campanha. Porém, isso não deslegitima o direito dele de fazer o que quiser com o próprio dinheiro. Mas saindo um pouco do foco do Luciano Huck, o que mais me incomoda nisso tudo é o papel das pessoas do “contra”. Alguns dizem “eu não sou macaco, não”. Ok, mas a intenção do #somostodosmacacos é falar sobre o racismo e não “se somos macacos ou não”, aí querem desfocar uma campanha que é realmente válida, “a luta contra o racismo”. As palavras ficam mais fortes que a intenção e tudo isso por pura pirraça.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s