Lições de Ética com Djokovic, Klose, Lélio Gustavo e outros

Já me ocupei de um artigo aqui em que abordo ética (veja aqui). Não obstante, vejo-me forçado a tocar novamente no assunto. E, desta vez, não focarei em Aristóteles e Kant, mas sim em Confúcio, Jesus e Kant.

Porém, primeiramente, vamos aos fatos. No dia 26/03/2014, o tenista sérvio Novak Djokovic venceu o britânico Andy Murray pelas quartas de final do ATP de Miami. O problema foi que um dos pontos cruciais para a vitória de Djokovic ocorreu de forma ilegal. O tenista da sérvia invadiu o campo adversário e ganhou o ponto. Confiram o vídeo.

Vejam que, logo após o fim do ponto, Novak coça o nariz e se expressa de forma que demonstra saber que invadiu a quadra. No entanto, permanece calado. O replay roda no telão e o tenista adversário questiona o sérvio que, ainda assim, não assume a falha. Obviamente também falhou o juiz, mas, por questão de ética, Djokovic deveria dizer que cometeu uma irregularidade. Assim ele não o faz e acaba vencendo o primeiro set e, depois, o jogo.

Ainda no mesmo mês de março de 2014, no dia 8, Aaron Hunt, jogador do Werder Bremen da Alemanha, cai na área e o árbitro marca pênalti contra o Nuremberg, pelo campeonato nacional. O jogador se levanta e fala com o juiz que não foi pênalti. Este desmarca a falta e o jogo continua. Vejam.

Outro exemplo: no dia 21/03/2009, com o protagonista romeno Costin Lazar, na época jogador do Rapid Bucareste. O juiz marcou um pênalti que ele teria sofrido. Imediatamente, o jogador foi até o árbitro e disse que não houve nada. Assista aqui.

Ainda mais um, também no futebol: jogando pelo Napoli, o segundo maior artilheiro da História das Copas, Miroslav Klose, fez um gol de mão, mas disse ao juiz e este anulou. Aqui.

No campo teórico, Confúcio, filósofo oriental, por volta do século VIII a.C., criou a “regra de ouro”: Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem contigo. Algum tempo depois, Jesus Cristo trouxe o mesmo ensinamento ético, em sua “versão positiva”: Faça aos outros somente o que gostaria que fizessem contigo. Diante disso, certamente Djokovic não ficaria satisfeito se Murray quem tivesse feito o que ele fez no jogo. Então, por que agiu assim? Vale lembrar que, no caso do jogo alemão, o time do jogador que assumiu que não houve pênalti ganhava a partida por 2 a 0. Será que ele agiria dessa forma se estivesse 0 a 0? O time do jogador romeno vencia por 4 a 0!!! Será? Já no caso do Klose, a partida estava empatada em 0 a 0, mas dá para ver no vídeo que ele foi muito pressionado pelo outro time. Se não houvesse tanta pressão, será que ele assumiria?

São questões difíceis de responder. Entretanto, não é difícil saber como eles deveriam agir e nem que a atitude descrita do tenista foi antiética, bem como as outras foram éticas. Kant é claro, segundo seu Princípio do Imperativo Categórico: Devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal. Assim, não há exceção à regra. A ação moral é universal. E, se eu não gostaria que houvesse uma exceção numa “regra moral” para me prejudicar, também não posso abrir essa exceção para me beneficiar. Para o filósofo, então, uma ação deve ser executada por senso do dever, em obediência a lei que nos é dada pela razão prática, e não, segundo nossos desejos, ou em busca da felicidade ou de algum benefício para si ou para os outros. Agindo dessa maneira, ainda que não traga felicidade ao homem, trará o mais alto valor, a dignidade. Afinal, todo ser humano é um fim em si mesmo e não pode nunca ser tratado apenas como um meio para outros fins.

Aprofundando um pouquinho mais a teoria, analisemos um caso quando outrem comete um ato equivocado. Um caso concreto. Vejam aqui.

O jornalista Lélio Gustavo toma as dores de um outro jornalista, Bob Faria, que foi insultado por um jogador de futebol do Clube Atlético Mineiro. Mesmo assim, não há respaldo para agir na mesma moeda, isto é, pagar o mal com o mal. Voltando em Confúcio, Jesus e Kant, a regra de ouro e o imperativo categórico deixam claros que a universalidade da moral não comporta ações fora do dever. Neste sentido, é bom lembrar Sêneca, quando afirma que para desprezar as ofensas não é preciso sermos sábios, mas sim sermos tão sensatos que possamos dizer para nós mesmos: “Mereci ou não que estas coisas me acontecessem? Se mereci, não é ofensa, é julgamento; se não mereci, aquele que está a ser injusto comigo deveria envergonhar-se disso”.

No fim das contas, apesar de todo aparato teórico, a conclusão não é que estejam faltando para Novak Djokovic e para Lélio Gustavo um maior conhecimento confucionista, cristão ou kantiano. Falta mesmo é mais bom senso. Não só para eles, mas para boa parte dos seres humanos espalhados pelo mundo.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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4 respostas para Lições de Ética com Djokovic, Klose, Lélio Gustavo e outros

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Ótimo, Lucas. E endossado e enriquecido não só por filósofos como por uma realidade acachapante, infelizmente. Vivemos ainda centrados no nosso umbigo, no tirar vantagem sobre os outros, camuflando a verdade. Textos como esse nos faz refletir mais e assumir a carapuça no nosso dia a dia. Parabéns, meu filho”

  2. Pingback: Artigo – Jornal Estado de Minas – 16/04/2014 – “Esporte e suas lições de ética” | Um debate a qualquer hora

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