Penso, logo desisto?

O Homem é o único ser dotado de razão. E é devido a essa causa racional que surgiu a cultura, uma fabricação humana. Diante disso, há um tema da Antropologia Filosófica desde há muito estudado, Natureza e Cultura, com diversas vertentes.

Nessa seara, Platão (428/427a.C. – 348/347a.C.), na Antiguidade, afirmava que a cultura era um microcosmo dentro de um macrocosmo, sendo este uma ordenação inteligível no universo. Por outro lado, Montaigne (1533 – 1592), já na Modernidade, garantia que o ser humano seria um ser sem natureza, tão somente moldado pela cultura.

Esse embate filosófico permanece nos dias atuais. Certo que com tonalidades cada vez mais sutis e imperceptíveis no âmbito da natureza ligada à metafísica, e, por outro lado, com tonalidades mais fortes na cultura ligada ao materialismo.

No entanto, ao analisar um outro filósofo Moderno, ainda com uma teoria metafísica, percebe-se sua grande influência na realidade de muitas pessoas da atualidade (especialmente para as que acreditam num Ser Supremo). Trata-se de René Descartes (1596 – 1650), que defendia que a existência de determinados conhecimentos provém não dos sentidos, mas da razão. Segundo ele, o homem possui “ideias inatas”, isto é, o ser humano é dotado de algumas ideias desde o nascimento, antes mesmo da experiência. Tais ideias são tão claras ao homem que não é possível serem falsas e, com isso, a razão é o fundamento do conhecimento.

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Resumidamente, a partir dessa premissa, Descartes assevera seu famoso “Penso, logo existo”, que demonstra que o pensar garante a existência do ser. Dessa forma, o homem é uma coisa pensante, que o filósofo francês também chama de alma. O fato é que essa tal coisa pensante é o que move o ser humano, ou seja, o que faz o homem sonhar, planejar, ter metas. O pensar humano é o motor que busca a felicidade na vida.

Entretanto, o mundo contemporâneo está repleto de indivíduos depressivos e deprimidos, e a grande maioria destes afirma a causa ser uma não realização de sonhos, a não conquista de metas, o não alcançar uma vida melhor. Mas ora, em que pese as muitas dificuldades de todos, o que mais se vê por aí é acomodação, muito pouco esforço para adquirir os objetivos. Muitos são os que almejam um horizonte mais belo, contudo desistem antes mesmo de começar a remar rumo ao sol que avista. E o mais interessante é que o pensamento serve para justificar o fracasso, a desistência (o mar está muito brabo; o vento trouxe ondas maiores; o céu aparenta trazer chuva), e não para levar ânimo em prol do resultado.

Em suma, se o homem possui ou não uma alma, se a razão possui um caráter divino ou tão somente materialista, são questões menos importantes do que o fato de o século XXI estar afundado em uma cultura de mãos dadas com a mediocridade, na qual a sobrevivência sobrepõe à vivência. Desse jeito, o pensar somente é usado para os desistentes criarem espantalhos que servem como bodes expiatórios para levarem a culpa do fracasso não assumido por seu criador. Assim não vale.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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7 respostas para Penso, logo desisto?

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Sábio isto: o século XXI está afundado em uma cultura de mãos dadas com a mediocridade, na qual a sobrevivência sobrepõe à vivência. Desse jeito, o pensar somente é usado para os desistentes criarem espantalhos que servem como bodes expiatórios para levarem a culpa do fracasso não assumido por seu criador.”
    Realmente, assumir o fracasso tornando-se o responsável por ele é ainda um longo aprendizado. Escoramos nos outros, no azar ou no destino. Encará-lo já é o primeiro passo.

    • Thiago Bigao disse:

      Não seria isso o Orgulho na sua forma mais singela e sutil? Concordo com você Fatinha, a falta de coragem de assumirmos que nem sempre somos capazes e que também falhamos é o hoje a principal causa da queda dos homens.

  2. Thiago Bigao disse:

    Belo texto Lucas!

  3. muito bom, lucas. conseguiu descrever bem o que acontece um pouco na vida de todos nós. vez ou outra me encaixo nesse pensamento do século XXI e a luta é grande para se desvencilhar dele.

  4. Ricardo Vilaça disse:

    Muito bom o texto, professor!
    Contudo é bastante cruel imaginármos que com tanta informação e conhecimentos de todos os lados, nos vimos aprisionados, por situações que não demandam de nossas ações e atitudes, mas sim de aceites da imposição de atrativos e “QI’s”. Dai, Penso, penso, penso… talvez é melhor desistir… ou não.

    • Ainda que seja difícil (e é!) nadar contra a corrente, a desistência nunca pode imperar. Lembrando sempre que vida é esperança e esta que nos move.

      Muito obrigado pelo comentário e um abraço!
      Lucas.

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