O ser humano e a direção

O trânsito nas grandes cidades está cada vez mais caótico. Quase já não se pode falar em horário de pico ou do rush. A qualquer hora do dia, carros e motos abundam nas vias públicas, numa luta pelo domínio de um pequeno espaço, pelo sinal ainda verde, amarelo, quase vermelho, pela faixa que anda um pouco mais depressa que outra.

Uma multidão de motoristas a sós, desconhecidos rodeados, no silêncio do rádio ligado, no escuro do vidro fumê e fechado, no frio do ar condicionado, no calor da correria, no desânimo do cotidiano. Cada um por si. Pensando na hora da consulta médica. Nas contas a pagar. No trabalho que remunera mal. E o trânsito não flui. O motorista da frente comprou carteira. A cidade não foi bem projetada. Imagina na Copa. A culpa é do governo.

No rancor do problema pessoal, a impaciência. A tentativa de um mudar de faixa. Mas o esquecimento da seta. Vem o buzinaço. O xingamento sofrido. O rádio é desligado. Abre-se o vidro. Respira fundo, busca a calma, de forma asceta. Logo à frente, um outro motorista liga a seta, no intuito de entrar à frente. No entanto, o aumento da aceleração tenta impedir a manobra pretendida (e requerida). Acerta (o erro). Danos materiais. Ainda mais nervosismo.

A acusação ríspida. A defesa eufórica. O acordo enfim, forçado. O tempo ainda mais perdido. O sinal furado. A conversa ao celular enquanto se dirige, justificando o atraso. A propaganda jogada fora pela janela. Outra buzina. Mais um palavrão.

Não há vagas. Estaciona no local reservado para deficientes físicos. Chega ao local de trabalho. Reclama do serviço, dos colegas, dos chefes, dos clientes, do almoço, do calor, do frio, da chuva.

Um homem perdido, sem direção. Mas não pensa assim. Na certa.

Imagem

Alejandro Eder, colombiano, é neto de Harold Eder, ex-ministro que, em março de 1965, tornou-se a primeira vítima reconhecida da guerrilha conhecida como FARC, na Colômbia. Quando do episódio do World Trade Center, em 2001, trabalhava num prédio em frente às torres gêmeas, como analista do Deutsche Bank. Depois do atentado terrorista, resolveu voltar à sua terra natal, para “fazer algo mais significativo”.

Desde 2010, é o diretor da ACR (Agência de Reintegração Colombiana), responsável por reinserir na sociedade pessoas ligadas às Farc ou a alguns outros grupos paramilitares. Em parceria com o governo, estima-se que mais de 50 mil pessoas buscaram o programa de reintegração.

Um homem bem direcionado. Georges Gusdorf, filósofo francês contemporâneo, afirma que “o homem não é o que é, mas é o que não é”. Dessa forma, deve-se sempre buscar mais, sair da acomodação, dos reclames, afinal, o homem não é apenas o que as circunstâncias fizeram dele, mas sim um ser que constroi, tanto a si mesmo como o mundo.

Enquanto uns reforçam a fragilidade da história da humanidade, outros transformam essa fragilidade em força e escrevem novos capítulos, mais belos, com uma perspectiva de um futuro melhor.

Imagem Imagem

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
Esse post foi publicado em Filosofia e Cotidiano e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para O ser humano e a direção

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    É, meu filho, infelizmente, muita gente tem tem se tornado cada vez mais individualista e, assim, mais desumana. Concordo em gênero, grau e número com Schopenhauer e Nietzscher..

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s