A ignorância (des)mascarada

Artigo publicado no Jornal Estado de Minas, no dia 06/03/2014

Em 10 de fevereiro, o cinegrafista da Band Santiago Ilídio Andrade morreu em decorrência de um rojão jogado por membros do Black Bloc, organização de pessoas que agem em conjunto para manifestar contra a ordem, a sociedade, o Estado. Do muito que já foi dito sobre o caso, o que chama a atenção é a forma como algumas pessoas defendem uma posição cada vez mais dependente do partidarismo. Até não muito tempo atrás, as concepções do certo e do errado eram baseadas em uma ética (filosofia da moral), seja ela kantiana ou qualquer outra, ou mesmo baseadas na cultura e nos costumes em que os indivíduos sempre viveram, isto é, numa moral. No entanto, o que tem surgido de defesas muitas vezes contraditórias e até vergonhosas em nome de uma ideologia político-partidária é assustador.

No caso dessa lamentável morte, chegaram a afirmar que “grande parte da culpa da morte do cinegrafista foi do próprio indivíduo e da Band, uma vez que não houve preocupação em se vestir adequadamente para estar naquela situação”. Ou seja, Santiago, segundo essa afirmação, deveria estar equipado com colete e capacete. E, em decorrência de não estar “trajado adequadamente”, o cinegrafista praticamente pediu para ser morto. Ora, os que se valem dessa apologia aos  black blocs são os que dizem que uma mulher que esteja usando saia curta não pede para ser estuprada, ou que as pessoas que caminham no alto da noite não pedem para ser assaltadas. É interessante pensar que, enquanto os black blocs escondem seus rostos e tentam mascarar suas identidades e sua realidade, as ações desmascaram suas pechas de paladinos da Justiça, de pessoas que querem um mundo melhor. É o desmascaramento da hipocrisia sempre exposta. Na revolta dos black blocs contra a Copa do Mundo no Brasil, contra a corrupção, contra o Estado em geral, é provável que a maior parte das pessoas que apoiam a atitude de tal grupo ou são ativistas dele também são as que falsificam carteira de estudante, furam filas, dão propina para o policial na rua, fazem “gato” para não pagar TV por assinatura etc.

Ainda assim, enxergam-se como indivíduos em busca de melhoria, em busca de justiça. Um pouquinho só de Sócrates ajudaria cada um deles a perceber o quanto desconhecem sobre si próprios. Bastaria uma pequena reflexão para entenderem o quão ignorantes são, apesar de se passarem por conhecedores de causa.

Saberiam a diferença entre um rojão e um cabeção de nego; também saberiam que um Sininho não faz muito barulho. Por fim, saberiam que, eles mesmos, os mascarados, são os “mal encarados”, que não mascaram a própria hipocrisia nem a própria ignorância, mas mascaram as manifestações pacíficas que podem e tentam melhorar o país, desde o ano passado. Enfim, os black blocs bloqueiam não a ignorância, mas, sim, o progresso.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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