O Brasil do brasileiro: a ignorância e o ignorante

João tem ensino fundamental completo. Trabalha cerca de 50 horas semanais. Trabalho braçal. Agradece a Deus pelo trabalho que tem, afinal tantos familiares e amigos estão desempregados há anos. Na hora do almoço, assiste aos programas de esporte. Sempre acha uma brecha para fazer hora com a cara do colega que torce pelo rival e almoça com ele.

Vira e mexe, João elogia as mulheres que passam perto do local de seu batente. Um assovio, um elogio mais ousado. Mas ele não faz por maldade. Nunca encostou nem desrespeitou nenhuma mulher.

Chega em casa já noite adentro. Cansado, bate um mexido e às vezes toma uma cerveja, e assim sua barriga está cada vez maior. Liga a televisão e assiste à novela (inclusive ficou indignado com o beijo gay, porque o pastor falou que é errado. Porém, na pelada quinzenal, seus amigos o chamam de veado o tempo todo e ninguém liga para isso, todos dão risada). Quando tem futebol depois, tenta ficar acordado até o final, ainda que em muitas ocasiões acaba dormindo no sofá – com a televisão ligada ou com o radinho de pilha em cima da barriga.

Já presenciou um homem que deixou cair sua carteira na rua que, ao bater no chão, abriu-se e revelou um maço de notas altas. João correu, apanhou-a e devolveu para o dono, sem nem passar pela cabeça a possibilidade de se apropriar do que não era seu.

João gosta de se divertir. Gosta do parque municipal, do BBB e do Faustão.

Mauro se diz de classe média. Contudo, bem qualificado, com ensino superior e especialização, possui um cargo bacana há anos, com um bom ordenado, o que fez com que já pudesse investir sua renda em outras áreas, resultando num interessante acúmulo financeiro. Não trabalha aos sábados, mas reclama todos os dias de cansaço. Reclama também do chefe, das funções, dos clientes, dos parceiros comerciais. Na segunda já pensa na sexta. No ano novo pensa no carnaval. Depois do carnaval, na semana santa. E assim por diante.

Quer trabalhar cada vez menos e ganhar cada vez mais. Gostaria de passar num concurso, pois é um emprego público com estabilidade e onde não há muito trabalho. No entanto, critica os políticos públicos que trabalham pouco e ganham muito.

Apoia o feminismo, mas se morde de ciúmes quando a esposa ou a filha usam uma saia acima do joelho. É a favor da causa gay, mas direto e reto tem discussões infantis por causa de futebol e se vale de xingamentos homofóbicos contra os torcedores rivais. Apoia as manifestações contra a corrupção e tem TV à cabo devido a um “gato” que ele mesmo fez.

Outro dia, a moça do caixa do supermercado fez as contas erradas e devolveu o troco errado para Mauro, a mais. Ele fingiu que não viu, embolsou a grana e depois contou aos risos o que ocorreu.

Diz que gosta de teatro, de séries inteligentes e do Foucault.

Num dia de domingo, João foi almoçar no McDonalds do shopping. Ao se dirigir para a praça de alimentação, o celular em seu bolso toca (no último volume): “Vodca ou água de coco, pra mim tanto faaaz…”. João estala os dedos e faz uma dancinha durante dois segundos, curtindo a música que ecoa no corredor do shopping; depois, num átimo, mexe o braço para pegar o aparelho do bolso e acerta uma cotovelada (sem querer) na pessoa que o ultrapassava apressadamente. Era Mauro, que fica puto da vida, olha de lado com desdém e continua seu caminho, enquanto João grita “foi mal aí, irmão!” e, logo depois, fala “alô!” gritando ainda mais.

 A vida continua a mesma para João. Nem se lembra do homem no qual se esbarrou. Sai do shopping e visita a sogra. Está sempre de bom humor e faz as mesmas piadinhas infames. Sente-se feliz, no alto de sua simplicidade e de sua ignorância. Com honestidade e um sorriso cansado, que revela uma aparência bem mais velha do que seus quase 40 anos, não reclama da vida e luta pelo seu pão de cada dia. “Deus há de abençoar!”.

Mauro tira o dinheiro no Banco e volta para casa, resmungando sobre como o shopping está mal frequentado. Irrita-se ainda mais com a lembrança de que amanhã é segunda. Chega ao trabalho no dia seguinte e cumprimenta um ou outro, com a cara fechada. Num momento no café, conta a atitude vergonhosa do indivíduo no shopping e afirma que é por isso que o Brasil está cada vez pior. “Mundo idiota!”.

Talvez o Brasil até esteja cada vez pior. Talvez. Mas, certamente, não é por causa do João.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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5 respostas para O Brasil do brasileiro: a ignorância e o ignorante

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    “Existe, sim, uma forma de leveza e de graça no simples fato de existir, que vai além das ocupações profissionais, além dos sentimentos poderosos, além dos engajamentos políticos e de todos os gêneros, e foi unicamente sobre isso que eu quis falar. Sobre esse pequeno ‘plus’ que nos é dado a todos: O SAL DA VIDA” (“O SAL DA VIDA – Françoise Héritier)

  2. Elaine disse:

    Existem também muitos Mauros bons, que ajudam as pessoas e muito João ambicioso e egoísta. Sinceramente, não sei mais qual é a maioria ou o padrão. Uma coisa é certa e eu descobri recentemente na minha rotina: tem gente demais reclamando de boca cheia. Já tem mto mais do que a maioria da população brasileira, mas reclama diariamente e se compara com os dez porcento mais rico do país.
    Achei ótima reflexão!!

  3. 060908 disse:

    Sinceramente, ate hoje, a sua “prima donna”. Sensacional. Quem dera se tivéssemos mais “Mauros” com a essência dos “Joãos”.

  4. Thiago Bigao disse:

    Sinceramente, ate hoje, a sua “prima donna”. Sensacional. Quem dera se tivéssemos mais “Mauros” com a essência dos “Joãos”.

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