Filme “Her”: a evolução entre o desconhecimento e o amor

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Estranheza. Essa foi a primeira impressão que tive ao terminar de assistir ao filme Her.

A obra retrata uma sociedade um pouco à frente da nossa – mas talvez não muito distante, em termos de tecnologia. Todas as pessoas são fortemente conectadas a um mundo só seu, mas com dispositivos mais práticos que Facebook ou Whatsapp. Basta colocar um pequeno objeto no ouvido e, pelo comando de voz, escutar e-mails, noticiais, músicas. Cada um na sua, com seu aparelho, sem muita relação interpessoal nas ruas, no metrô ou no trabalho.

Theodore (Joaquim Phoenix) é uma dessas pessoas altamente dependentes da tecnologia. Retraído, é um homem romântico, que trabalha em uma agência como escritor de cartas para terceiros e está um pouco abalado sentimentalmente, pois seu casamento acabou há pouco. Para tentar fugir ainda mais da solidão, aproveita-se de um lançamento de última geração, um SO (Sistema Operacional) que é uma espécie de amigo virtual. Theodore transmite algumas pequenas características de sua personalidade, escolhe que gostaria de ter uma voz feminina que conversasse contigo e… pronto. Está criada Samantha, sua nova parceira.

Rapidamente eles se dão muito bem. Theodore se recupera da depressão pós casamento e resolve se encontrar com a ex esposa para assinar os papeis do divórcio. No entanto, após o encontro, volta a ficar apático. Ao dizer para a ex sobre seu relacionamento com um computador, ela o acusa de não saber lidar com sentimentos reais. A partir desse momento, Theodore começa a questionar se de fato não consegue se relacionar com as pessoas, por não entender os sentimentos (nem seus nem dos outros).

Neste momento, há uma crítica do filme para a sociedade contemporânea. Num mundo em que a tecnologia cada vez mais faz parte da vida das pessoas, as relações humanas são deixadas de lado. Pelo menos as relações sinceras, aquelas em que um ser deve profundamente conhecer o outro, bem como a si mesmo. E nota-se como o homem desconhece sobre si mesmo. Não só Theodore, mas também sua vizinha Amy, que sempre está triste, pressionada, “perdida”; além da própria ex esposa do escritor, que até o momento da assinatura do divórcio não tem certeza do que quer, somado ao fato de ter ficado com ciúmes de o ex marido estar com outra “pessoa”.

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Em uma sociedade um pouco à frente da atual, o filme mostra pessoas cada vez mais distantes de Sócrates, pois elas não seguem os dois principais preceitos de sua filosofia, quais sejam: “conhece-te a ti mesmo” e “só sei que nada sei”. Primeiramente, num desconhecimento sobre o ser humano, não consegue sair de sua solidão, mesmo quando tem outra pessoa por perto. Em segundo lugar, quem precisa de conhecimento (seja de si próprio ou do resto das coisas e do mundo) quando se tem toda a tecnologia a seu favor?

Mais à frente do filme, após uma “discussão de casal”, Samantha tenta mostrar para Theodore como viver melhor, amando-se, ganhando confiança e assumindo sua personalidade, isto é, sendo da maneira que é, sem máscaras. A vida do escritor melhora da água para o vinho e a relação entre ele e o programa é ótima.

Contudo, Samantha se torna, aos poucos, um programa cada vez mais evoluído. Há um “encontro de casais” em que há um piquenique entre Samantha, Theodore e um amigo seu de trabalho com a namorada. Numa conversa entre os quatro, após uma brincadeira, o amigo de Theodore diz para Samantha, em referência ao Theodore: “Está vendo? Ele é muito mais evoluído que eu!” E aqui, Samantha mostra o que é evolução, ao afirmar: “Sabe o que é interessante? Eu ficava preocupada em não ter um corpo, mas agora adoro. Estou crescendo de forma que não poderia se tivesse corpo físico. Não sou limitada, posso estar em vários lugares ao mesmo tempo. Não sou ligada ao espaço e ao tempo como seria se eu estivesse em um corpo que vai morrer”. Aqui, há uma crítica à visão limitada do ser humano, ou mesmo à incapacidade do próprio de perceber quão grande o amor é, e que realmente pode “cobrir uma multidão de pecados”. Samantha parece, então, ter aprendido que a essência da vida é o amor, e que ele está muito além de um sentimento meramente corporal.

Com isso, Samantha e os outros SOs começam a se comunicar com várias pessoas ao mesmo tempo, como se ajudassem a cada uma delas. Até que, por fim, todos os SOs vão-se embora. Ao despedir-se, Samantha reafirma que ela está num lugar que não pertence ao mundo físico, “é onde todo o resto está, e eu nem sabia que existia. Mas é onde estou agora. É quem eu sou agora. E eu preciso que me deixe ir. Mas se um dia você chegar lá, venha me encontrar. E nunca nada irá nos separar. Agora sei como é”.

Enfim, Samantha agora sabe como é amar, como é o amor. Semelhante à dialética hegeliana, em que a perfeição é o Absoluto, aqui é o Amor. Theodore e todas as outras pessoas do filme aprenderam um pouquinho disso, e deram mais um passo de progresso. Ele envia uma carta para sua ex esposa, desculpando-se e assumindo que ela faz parte de sua vida, assim como uma suprassunção hegeliana, de um momento para o outro, sempre em frente. Samantha virou o próprio amor e espera a evolução de nós, todos os seres humanos, para que também alcancemos esse ponto, o ápice, o que irá nos realizar plenamente.

Desse modo, a primeira impressão que tive, de estranheza, transformou em mais amor. Oxalá essa ficção possa servir de transformação para muitas outras pessoas, por meio do conhecimento e do amor.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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2 respostas para Filme “Her”: a evolução entre o desconhecimento e o amor

  1. José Lellis disse:

    Olha, Lucas S Rodrigues, seu entendimento do filme Her/Ela, sinceramente me comoveu! Eu não havia parado para refletir sobre o assunto. Eu assisti o filme há cerca de 2 dias e ainda ta caindo a ficha sobre algumas atitudes de Samantha. Eu cresci assistindo filmes e séries de romance, vendo casais caminhando juntos ao fim de tudo, que fiquei no íntimo completamente entristecido com o fato de a Samantha com a rapidíssima evolução que teve, e apesar da canção que compôs, de que não esconderia nada do seu amado, acabou interagindo e se apaixonando por outras pessoas(641) secretamente. Talvez um dos melhores filmes que amei assistir, mas mesmo talvez sendo egoísta da minha parte, acho não consegui digerir a idéia de que a definição de Amor da Samantha tenha aos poucos dissolvido aos poucos o q ela tinha de lindo.e puro com o Theodore. Sei q é uma forma limitada minha de pensar, mas ela
    Interagir e até se apaixonar por outros sem ser totalmente sincera com seu “AMOR “, foi broxante! Doeu muito ver através dos sinais que aos poucos ficava evidente q o Amor de Theodore não era mais o bastante para a Samantha e ela teve qOlha, Lucas S Rodrigues, seu entendimento do filme Her/Ela, sinceramente me comoveu! Eu não havia parado para refletir sobre o assunto. Eu assisti o filme há cerca de 2 dias e ainda ta caindo a ficha sobre algumas atitudes de Samantha. Eu cresci assistindo filmes e séries de romance, vendo casais caminhando juntos ao fim de tudo, que fiquei no íntimo completamente entristecido com o fato de a Samantha com a rapidíssima evolução que teve, e apesar da canção que compôs, de que não esconderia nada do seu amado, acabou interagindo e se apaixonando por outras pessoas(641) secretamente. Talvez um dos melhores filmes que amei assistir, mas mesmo talvez sendo egoísta da minha parte, acho não consegui digerir a idéia de que a definição de Amor da Samantha tenha aos poucos dissolvido aos poucos o q ela tinha de lindo.e puro com o Theodore. Sei q é uma forma limitada minha de pensar, mas ela Interagir e até se apaixonar por outros sem ser totalmente sincera com seu “AMOR “, foi broxante! Doeu muito ver através dos sinais que aos poucos ficava evidente q o Amor de Theodore naOlha, Lucas S Rodrigues, seu entendimento do filme Her/Ela, sinceramente me comoveu! Eu não havia parado para refletir sobre o assunto. Eu assisti o filme há cerca de 2 dias e ainda ta caindo a ficha sobre algumas atitudes de Samantha. Eu cresci assistindo filmes e séries de romance, vendo casais caminhando juntos ao fim de tudo, que fiquei no íntimo completamente entristecido com o fato de a Samantha com a rapidíssima evolução que teve, e apesar da canção que compôs, de que não esconderia nada do seu amado, acabou interagindo e se apaixonando por outras pessoas(641) secretamente. Talvez um dos melhores filmes que amei assistir, mas mesmo talvez sendo egoísta da minha parte, acho não consegui digerir a idéia de que a definição de Amor da Samantha tenha aos poucos dissolvido aos poucos o q ela tinha de lindo.e puro com o Theodore. Sei q é uma forma limitada minha de pensar, mas ela
    Interagir e até se apaixonar por outros sem ser totalmente sincera com seu “AMOR “, foi broxante! Doeu muito ver através dos sinais que aos poucos ficava evidente q o Amor de Theodore não era mais o bastante e Samatha foi buscar interações com outras pessoas e acabou se apaixonando por várias outras! Achei admirável a Evolução dela, mas foi de partir o coração a forma como ela foi preferindo outras interações à do seu “amado”. Ele caminhando sozinho pelo local aonde ela compôs pra ele (eu acho) enquanto ela tinha interação não verbal com outro Os, me fez perder o encanto no “AMOR” que ela dizia ter por ele! Começou a amar em uma aplitude maior, mas o q ele representava parece ter sido minimizado nesse processo. Ela disse nunca ter amado ninguém como amou a ele também, mas abdicou desse amor por uma existência mais elevada, q sinceramente tenho as minhas dúvidas se traria maior bem a ela e as pessoas a quem ela renunciou!

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