Manifestações: “black”out que “bloc”eia não a ignorância, mas sim o progresso

Infelizmente, no último dia 10 de fevereiro, o cinegrafista da Band Santiago Ilídio Andrade morreu, em decorrência de um rojão jogado por membro(s) do Black Bloc, organização (?) de pessoas que agem em conjunto para manifestar contra a ordem, a sociedade, o Estado.

Muito já foi dito sobre o ocorrido, então creio que (i) tanto analisar sob um viés mais esquerdista, trazendo à tona uma crítica às coberturas midiáticas enviesadas, dentro da famosa questão da Indústria Cultural (inclusive já escrita por mim AQUI); quanto (ii) sob uma ótica direitista em acusar a organização, também já ventilada por vários cantos, seria mais do mesmo.

Assim, o que me chama a atenção, em primeiro lugar, é a forma como as pessoas defendem uma posição cada vez mais dependente de um partidarismo! Até não muito tempo atrás, eu entendia pessoas com concepções do certo e do errado baseadas em uma ética (filosofia da moral), seja ela kantiana ou qualquer outra, ou mesmo baseadas na cultura e nos costumes em que sempre viveram (confesso que a primeira opção me soa mais plausível, pois com argumentos mais lógicos e rigorosos do que a segunda, mas esta é até compreensível pelas raízes da tradição).

No entanto, o que tem surgido de defesas muitas vezes contraditórias e até vergonhosas em nome de uma ideologia político-partidária é assustador. No caso dessa lamentável morte, cheguei a ler que “grande parte da culpa da morte do cinegrafista foi do próprio indivíduo e da Band, uma vez que não houve preocupação em se vestir adequadamente para estar naquela situação”. Isto é, Santiago, segundo essa afirmação, deveria estar equipado com colete e capacete!!!

O mais estúpido dessa sentença é que os mesmos que se valem dessa apologia aos black blocs são os que dizem que uma mulher que esteja usando saia curta não pede para ser estuprada, ou que as pessoas que caminham no alto da noite não pedem para ser assaltadas. Mas ora, Santiago praticamente pediu para ser morto, não? É inacreditável que haja “debates” com esse teor.

Imagem

(momento em que o rojão atinge o cinegrafista)

Em segundo lugar, é interessante pensar que, enquanto os black blocs escondem seus rostos e tentam mascarar suas identidades e sua realidades, as ações desmascaram suas pechas de paladinos da justiça, de pessoas que querem um mundo melhor, com menos corrupção. É o desmascaramento da hipocrisia sempre exposta.

É como um texto antigo de Contardo Calligaris, escrito na Folha em 2008. Neste, o autor relata sobre um grupo de pessoas que está indignado diante da morte de Isabella Nardoni – criança assassinada pelo pai Alexandre – e manifestam essa indignação diante da mídia. (Leia o texto completo AQUI). Parêntesis para Calligaris:

“(…) Gritam seu ódio na nossa frente para que, todos juntos, constituamos um grande sujeito coletivo que eles representariam: “nós”, que não matamos Isabella; “nós”, que amamos e respeitamos as crianças – em suma: “nós”, que somos diferentes dos assassinos; “nós”, que, portanto, vamos linchar os “culpados”.

(…)

Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. (…)

A turba do “pega e lincha” representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade.”

Se mudarmos o foco da revolta contra a morte de Isabella para a revolta dos black blocs contra a Copa, contra a corrupção, contra o Estado em geral, qual a diferença? Aposto que a maior parte das pessoas que apoia a atitude de tal grupo e/ou são ativistas do mesmo são os que falsificam carteira de estudante, furam filas, dão propina para o policial na rua, etc.

E se veem como indivíduos em busca de um mundo melhor, em busca de justiça. Um pouquinho só de Sócrates ajudaria a cada um deles perceber o quanto desconhecem sobre si próprios. Bastaria uma pequena reflexão para entenderem o quão ignorantes são, apesar de se passarem por conhecedores de causa. Saberiam assim, a diferença entre um rojão e um cabeção de nego; também saberiam que um Sininho não faz muito barulho. Por fim, saberiam que, eles mesmos, os mascarados, são os “más caras”, que não mascaram a própria hipocrisia nem a própria ignorância, mas mascaram as manifestações pacíficas que podem e tentam melhorar o país, desde o ano passado.

Imagem

(black block Sininho)

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
Esse post foi publicado em Filosofia e Cotidiano e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Manifestações: “black”out que “bloc”eia não a ignorância, mas sim o progresso

  1. fatimasrnove@gmail.com disse:

    Exatamente.O jovem responsável por soltar o rojão denunciou que partidos políticos aliciam jovens para fazerem baderna nas manifestações e, para tanto,pagam-lhes em torno de R$ 150,00. Assim, que se faça justiça: o jovem foi preso, mas, devem ser presos os responsáveis que o levaram a isso, valendo-se da pobreza do rapaz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s