O adolescente nu agredido: uma relação da sociedade com o Poder

“Se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”.

A frase citada é de Abraham Lincoln, ex presidente dos Estados Unidos, e é de uma sabedoria ímpar. A palavra poder vem do latim “podere”, que significa “ser capaz de”. Ou seja, é a capacidade de agir, de levar a cabo os efeitos que se deseja sobre uma ou mais pessoas.

O poder traz consigo um importante instrumento: a força, seja física, psíquica ou coisa que o valha. Assim, poder e força aliados são peças importantes para a vida, tanto do indivíduo quanto da sociedade, i. e., da relação entre os indivíduos.

A Filosofia Política investiga – principalmente – o poder do indivíduo sobre os outros indivíduos. E, dentro de uma sociedade com um Estado inchado, este detém alguns (muitos) poderes, como das leis, da segurança pública, da economia, etc. Isso é um problema, pois resulta em um excesso de poder e, ainda mais grave, como no caso do Brasil, muito mal controlado e utilizado.

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O Poder Judiciário detém poderes para julgar. E o faz lentamente, quase parando. Uma falha do sistema, das leis, dos funcionários públicos, de estrutura? Ou todos esses? O que importa é que não funciona do modo devido. E pode-se fazer a mesma analogia com os Poderes Executivo e Legislativo. Não funcionam.

Entretanto, não se deve olvidar do fato de que o poder, mesmo que estatal, possui sua ação efetiva por meio das ações dos Homens. E há casos em que os indivíduos dotados desse poder exageram em sua aplicação através de suas funções, uma vez que se sentem superiores aos outros “cidadãos comuns”. Neste caso, o poder (que já é em geral contestado pela sociedade) detém ainda menor credibilidade e cada vez mais revolta a população. É o caso com relação ao poder da segurança pública. Policiais mal preparados e mal remunerados, diversas vezes sem saber como agir na prática. Não é incomum serem acusados de usarem de modo excessivo a força que lhes é permitida de acordo com seus poderes de polícia e, assim, abusarem do poder.

Isso implica numa mudança de paradigma e de perspectiva social. Parece que estamos vivendo esse momento. Seja por meio sutis de críticas, como essa aqui da turma de humor “Porta dos Fundos”, seja por meio de ações de poder executadas por pessoas que não detém tal Direito, como o grupo que agrediu, tirou as roupas e amarrou um homem nu, em meio a praça pública, por cometer alguns delitos (confira aqui).

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O que se vê nestes últimos dias é decorrente de um já cotidiano de várias ações em que as pessoas tentam resolver seus problemas e/ou fazer justiça com as próprias mãos, de modo mais ou menos violento. Quantas discussões entre vizinhos? Quantas brigas por causa de política, futebol, religião? Quantas desavenças no trânsito?

Particularmente neste último exemplo, posso citar um caso no qual fui participante. Estava dirigindo meu carro e falava ao celular (sim, algo ilegal). De repente, olhei ao retrovisor e veio um carro muito rápido, piscando os farois, mas, antes que eu pudesse mudar de faixa e dar passagem ao senhor, ele – continuando com uma velocidade muito alta – passou para a faixa da direita e foi me ultrapassar. No entanto, logo à frente, o sinal estava fechado. Ele parou ao meu lado e me encarou, com raiva. Rapidamente, começou a encenar (mas é um péssimo ator, coitado). Fingiu estar com um papel e caneta ao colo – onde eu não conseguia ver – e, a todo momento, olhava para a placa do meu carro e fingia anotá-la. Como se estivesse me multando (detalhe que ele demorou mais de um minuto para “anotar”, acho que não enxerga muito bem!). O sinal abriu e o senhor voltou a dirigir em torno de 100km/h. Ou seja, dois indivíduos agindo de forma errada – um usando celular enquanto dirigia e outro além do limite de velocidade –, mas um pensou ser mais “poderoso” que o outro e quis resolver a situação por si mesmo.

Confesso que achei engraçado, mas, como diz o ditado, seria cômico se não fosse trágico. Afinal, boa parte das vezes em que uma pessoa se faz de mais “poderosa” que a outra, o resultado final não é feliz ou pacífico. Sempre tem alguém que lança um “você sabe com quem está falando?” (o senhor que “me multou” é advogado, como consta no vidro de seu carro. Infelizmente, uma profissão na qual há muito argumento de autoridade ao invés de autoridade de argumento).

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Em suma, enquanto o ser humano não aprender a lidar com o poder, não haverá paz nem liberdade para a humanidade. Isto quer dizer que Lincoln afirmava que a maioria dos homens é mau caráter. Ele estava certo. E está até hoje.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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4 respostas para O adolescente nu agredido: uma relação da sociedade com o Poder

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Perfeito! E é esse poder que faz com que muita gente puxe a “sardinha” para si. O fato ocorrido com você ilustra bem o caso. De um lado, os defensores do adolescente marginal, ou somente do adolescente (não considerando se é marginal ou não. É antes um ser humano). Do outro, os defensores da justiça, se não da Justiça, em cena, encenam, os justiceiros. E há os que se valendo do poder, ao menos da “palavra”, buscam o palanque, em busca da ovação.

  2. FTC disse:

    De “das wieße band” a vampyroteuthis infernalis, os nossos profundos recalques estão jogados por aí….

  3. 060908 disse:

    Esse assunto ai é complexo… Leva a gente longe. O que tornava Robin Hood famoso? Batman, o Justicerio, o Demolidor dentre outros. Na verdade, o ser humano sempre foi vidrado por esse sentimento de “Justiceiro” e “Vingador e defensor do indefesos”. Que atire a primeira pedra quem nunca falou a expressão: “Bandido bom é bandido morto”. No caso do menino, que com 15 anos ja tinha sido preso 3 vezes por furto, vemos um pouco desse sentimento. Certo ou errado, acredito que cada um na sua crença e no seu entendimento sabe diferir. Uma coisa que é fato, e que graças a deus (ou não) não é uma exclusividade somente do nosso país, é que leis “froxas” e a impunidade são os grandes fomentadores desses sentimentos. Sobre Lincoln, como descordar de um cara que além de ter sido um baita presidente pros EUA, ainda era caçador de Vampiros :p

  4. Elaine Soares Rodrigues disse:

    Será que os efeitos maléficos do poder ainda pioraram no atual capitalismo,no qual ele está diretamente associado ao dinheiro?
    No caso do adolescente acorrentado, somente o poder e a violência são válidos para combater a marginalidade? Ou somente a violência bastaria porque o poder da(de) polícia não funciona?

    Realmente, triste realidade!

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