Deixem o BBB em paz!

Todo início de ano é a mesma coisa: começa o Big Brother Brasil. Consequentemente, ressurgem as críticas e os críticos desvairados. Acusam o programa de estúpido, a globo de manipuladora, os espectadores de alienados, os participantes de fúteis. Aí temos briguinhas que não vão a lugar algum. Isso acontece há anos. Mas já cansou.

BBB é um entretenimento, assim como vários outros. Futebol, tênis, vôlei (esportes em geral); novela, série, filme; teatro; viagem; caminhada. Simples assim. A questão é que se estigmatizou que a pessoa inteligente, culta e antenada não pode assistir ao Big Brother. Eu gostaria de entender o porquê.

Acompanhei um ano, o de 2003 se não me engano, e penso que não é muito diferente de hoje. As pessoas estão em busca de dinheiro, e esse é o objetivo de todos ali. Obviamente, há uma regra para conquistar essa grana: relacionar-se com o outro. Dessa forma, as pessoas conversam, exercitam-se, fumam, bebem, há festas, há discussões, há namoricos, umas gincanas para ser líder ou ganhar mais comida; etc. E, no final das contas, o povo decide quem vence.

Claro, dificilmente você vê discussões aprofundadas, conversa sobre política, filosofia, religião. O nível é mais superficial. E, convenhamos, não há necessidade de um advogado dar “aulas” todos os dias sobre o Direito nem de um médico falar sobre a complexidade das doenças para levar o prêmio em dinheiro. Muito pelo contrário, ele pode ficar chato e voltar para casa mais cedo.

Então, sim, você pode dizer que o programa é raso, e, para piorar, mostra como o ser humano é mentiroso, calculista, etc etc. Mas… muitos de nós não somos assim também no dia a dia? Além disso, quantas novelas, quantos filmes, quantas séries também não são superficiais e também não mostram esse lado “ruim” do ser humano?

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Vamos então a outra crítica: o BBB é perda de tempo. Não se ganha nada com isso. Bom, mas o que ganhamos em assistir a partidas de futebol? Alegrias quando o time vence. Mas ele também perde. Assim como pode-se torcer para um membro do BBB e ele ganhar ou perder. No futebol, gasta-se dinheiro para ser sócio do time, para ir ao estádio, para ter a camisa oficial. E aí critica o que paga para ter um canal exclusivo do BBB. Incoerente, não? O que se ganha em ver uma partida de 4 horas de tênis? Eu, particularmente, curto demais, sou fã. E quantas vezes não vi um Federer x Nadal em que o primeiro perdeu, e eu saí de lá PUTO da vida por ter perdido quase meio dia e ainda ter visto meu jogador preferido perder? Uma partida de futebol americano tem mais de 3 horas de duração. O que agrega para a nossa vida, em termos intelectuais? Ou mesmo morais? Nada, ou muito pouco. Assim como Big Brother Brasil.

Enfim, nada desses exemplos citados são muito diferentes do BBB. Em suma, vejo que é mera tendência criticar os espectadores desse programa, para sair por cima, para pagar de mais inteligente. E isso não passa de uma grande bobagem, pois uma pessoa pode gostar desse referido programa, de novela e de futebol e ser muito mais interessante de uma que só assiste a filmes europeus e é um grande enxadrista, por exemplo.

O pano de fundo é, mais uma vez, a liberdade do indivíduo. Por que e de onde temos o direito de meter o nariz na vida do outro? De onde sabemos que assistir ou não assistir a algo é melhor ou pior para alguém? É a mesma coisa de querer impor sua base política, ou religiosa, ou seu time de futebol, ou sua opção sexual. Mesma coisa. São tradições perfeccionistas, como o marxismo ou a filosofia de Nietzsche, as quais dizem como o homem deveria agir para ser feliz, como se fosse uma receita de bolo.

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Por isso, como entendo que a liberdade é um de nossos principais pilares, não penso que deva haver uma determinação que venha de fora para dentro, mas sim de dentro para fora (i. e., uma autodeterminação). Se um dia alguém que assiste a BBB achar que não vale mais a pena, ok. Todavia, que não seja xingado nem coagido enquanto assiste. O livre arbítrio é individual e soberano. Isto é, somos seres que nos autodeterminamos. Como Will Kymlicka assevera em seu livro Filosofia Política Contemporânea:

“A ideia de que algumas coisas realmente valem a pena ser feitas e outras não, vai muito fundo em nossa autocompreensão. Consideramos seriamente a distinção entre atividades valiosas e triviais, mesmo que nem sempre tenhamos certeza de quais coisas são o quê. A autodeterminação, em grande parte, é a tarefa de fazer estes julgamentos difíceis e potencialmente falíveis”.

Por fim, não nego que creio que haja algumas questões mais valorosas que outras. Uns programas bons e outros ruins. Um modo de levar a vida melhor do que outro. Mas isso é dentro de meu autoconhecimento e, assim, de minha autodeterminação. Cada um tem o seu.

Sem dúvida, é muito válido haver debates sobre valores, e isso certamente é importante para o progresso da humanidade. Particularmente, não gosto de BBB. Acho inútil (da mesma maneira que vários indivíduos devem achar o tênis inútil). E não sou pior nem melhor que ninguém por pensar assim. Não entender isso é intolerância e falta de respeito. Além de, óbvio, arrogância. E uma pessoa intolerante, desrespeitosa e arrogante, a meu ver, é pior do que uma que vê BBB.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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10 respostas para Deixem o BBB em paz!

  1. Elaine Soares Rodrigues disse:

    É… mudou um pouco minha visão, mas você tem razão. Fiquei anos sem assistir Big Brother, agora voltei um pouco, porque enquanto amamento ou faço os meninos dormirem, geralmente assisto algo, e na Tv do meu quarto, que só tem canais abertos. Na realidade, voltei a assistir porque, no mesmo horário, tirando a Rede Minas, não há coisa tão melhor do que BB, culturalmente falando: Ratinho, Luciana Gimenez e por aí vai.

    Acho que os críticos pensam muito na perda de tempo, no que a outra pessoa poderia estar fazendo de mais útil, tal qual ler um bom livro, ajudar alguém, conversar com a família. Mas isso também pode ser ilusão, porque sem BBB a pessoa poderia estar no facebook, dormindo, ou fazendo algo não tão produtivo. Claro que, como você bem disse, apesar dos julgamentos é certo que enriquecedor é algo que BBB não é. Mas que jogue a primeira pedra quem só assiste programas cultos e que nunca viram futebol, novela ou polishop (como eu).

    Parabéns! Muito elucidativo e reflexivo!

  2. Fátima Soares Rodrigues disse:

    E creio que devemos estender a reflexão à música e à arte em geral. Críticas a quem gosta de funk, pagode e sertanejo não faltam. Críticas a quem lê autoajuda e best sellers também grassam na literatura, criando uma “elitização” do leitor. Enfim, deixemos cada um com seu cada um, afinal gosto não se discute e, como dizia a escritora Virgínia Woolf “”Na verdade, o único conselho que se pode dar a alguém com respeito à leitura é não aceitar conselho algum”. E acrescenta: “Temos dentro de nós um demônio que sussurra em nossos ouvidos – ‘detesto, gosto’ – e somos incapazes de silenciá-lo”
    Parabéns!

  3. FTC disse:

    Curioso, mas esta divisão entre o que é culturalmente aceito ou não está lá, presente em Pierre Bourdieu, na sua Teoria da Legitimidade Cultural, em que o mesmo afirma que tal segregação cultural parte dos estratos mais abastados da sociedade. Assim, segundo Bourdieu, ficou determinado o valor que teria, por exemplo, a música clássica em detrimento dos demais estilos musicais. Pela nossa incapacidade de sequer estabelecer um conceito que forneça o escopo ideal para uma definição adequada de música, Bourdieu diria que a definição entre o bom e o mal gosto musicais partiriam do topo da pirâmide. Discordam de Bourdieu em alguns aspectos os que defendem o processo de expropriação cultural, em que algo parte dos baixos extratos da sociedade e ascende socialmente, deixando de ser abominável e virando algo legítimo (como o Jazz, o Samba, a música de Beethoven e etc…). Discordam ainda mais os que dividem a sociedade em “unívoros” (os pobres que devoram apenas o que produzem) e “onivoros” (a elite dos que tudo consomem).

    Em termos extensivos (no sentido da cultura) podemos, assim, abordar os programas de tv ao invés dos demais tipos de cultura para afirmar que a determinação do que é bom ou não em termos de entretenimento parte, conforme diz a sociologia contemporânea, de uma segregação intelectual, derivada de uma segregação social, o que iria muito além de uma simples questão de gosto, de arrogância, ou de desrespeito à liberdade individual.

    Eu tendo a discordar da sociologia… e também de você… rs…

    • É porque sua visão mais próxima à Marx e à Escola de Frankfurt não permite que você tenha a mesma visão minha, qual seja, de que temos liberdade de escolha. Isto é, você pensa que não temos essa liberdade, mas sim que somos alienados e conduzidos pelo sistema. O que discordo absurdamente. Rs.

  4. FTC disse:

    Cuidado, cuidado… Eu só apresentei o viés sociológico do tema em voga que é, sim, inspirada em Marx e Adorno… O fato de eu não crer na quimera da liberdade não implica que eu seja marxista…. Está, antes, relacionado ao que dizem ciências cognitivas sobre “escolhas”. Rs

  5. FTC disse:

    InspiradO…. rs

  6. ídola do lucas disse:

    Ótimo texto, fã! Só tive tempo de lê-lo hoje hahahah acho que vou até compartilhar, muito bom. Não vou colocar meu nome mas tenho certeza que você sabe quem é. Há braços (;

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