Os rolezinhos e o mais do mesmo

Rolezinhos ficaram conhecidos por encontros de centenas ou milhares de pessoas (a maioria de comunidades/periferias), organizados por meio de rede sociais. Os participantes – segundo relatos deles próprios – querem ostentar, zuar, cantar funk e azarar. Até então, nada de mais. O que tem dado o que falar é o local desses encontros: os shopping centers.

Mesmo considerando que os rolezinhos sejam encontros pacíficos, a turma que é contra alega (1) que os shoppings são locais privados, além de que (2) a grande aglomeração de pessoas prejudique o comércio, pois dificulta a vida de clientes e lojistas no local. Não deixam de ser bons argumentos, afinal esses centros de compras são estabelecimentos que cobram desde caríssimos alugueis para os lojistas até o estacionamento para clientes. Logo, se há algo que atrapalhe a organização e o objetivo do local (que é vender e ter lucro), afastando os clientes, é no mínimo questionável a atitude dos rolezinhos. E, obviamente, se eu vir um grupo (qualquer “tipo” de grupo) de 20 ou mais pessoas correndo nos corredores de um shopping – ainda mais entoando “cânticos(?)” que versam sobre cheiro de maconha e afins – ficarei no mínimo assustado.

Outro fator que contribui para a queda da credibilidade desses encontros se trata dos infiltrados – que infelizmente sempre têm. Muitos já postaram fotos do que furtaram nesses rolezinhos (você pode conferir aqui).

Diante disso, fica difícil defender o caráter puro e ingênuo dos rolezinhos. E não se trata de ser preconceituoso, elitista, ou coisa que o valha, argumentos de muitos (da esquerda). Trata-se de bom senso. Primeiro porque fazer bagunça é no mínimo questionável em qualquer lugar, ainda mais num local mais privado do que público. Segundo que os próprios organizadores e participantes do rolezinho afirmam que seus encontros não possuem um caráter político (veja aqui). Na verdade, parece mais oportunismo para digladiar no âmbito teórico político.

Enfim, tal qual nas manifestações de junho, em que houve também as exceções (os delinqüentes), em que houve também a falta de organização (contra aumento de 20 centavos; contra corrupção; saúde padrão Fifa; educação padrão Fifa; fora copa do mundo; isto é, manifestaram por tudo e, assim, por nada), em que nada mudou e passaram, os rolezinhos também passarão. Os debates ainda vão continuar por mais alguns dias, semanas, talvez um mês. No máximo. E pronto.

Não é assim que a esquerda vai conseguir algo. Mesmo assim, aguardemos novos capítulos na época da Copa.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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4 respostas para Os rolezinhos e o mais do mesmo

  1. Elaine Soares Rodrigues disse:

    Ótima comparação com as manifestações do ano passado, em que muitos jovens, infelizmente, só quiseram badernar. Mais uma vez concordo com você. A liberdade e democracia tem que esbarrar no limite individual, no limite do outro. E realmente pagamos muito caro (estacionamento de shopping, então, tá um absurdo), para ainda termos que ter medo e sair correndo em shopping.

    Essa junventude (uma parte, é claro) está muito sem limites e querendo aparecer, sem limites. Menos um ponto pro liberalismo total.

  2. Pensando muito ultimamente sobre educação(comportamental), sabemos que ela é pautada também no exemplo. Porém, acredito que atualmente ela surte mais efeito por meio da INVERSÃO. A inversão é individual e atinge diretamente a pessoa. Explico: o sujeito (jovem) entra no ônibus e se acomoda no banco reservado aos idosos, portadores de deficiência, grávidas, mães com criança de colo. Finge que não vê um desses em pé. E quando é questionado, não arreda do lugar. Invertamos: a mãe ou a avó dele é quem está aguardando um lugar. Ele teria o mesmo comportamento e acharia justo que um indivíduo não cedesse o lugar? Outro exemplo: o sujeito fura tudo quanto é fila: nos bancos, no cinema, etc. Certo dia, ele é conduzido ao final da fila e, de repente, entra um sujeito (amigo do funcionário do banco) e papo vai, papo vem, efetua um pagamento. Tenho certeza de que ele botará a boca no trombone.
    Quanto ao rolezinho, um dos participantes descobre que o pai da sua namorada é o dono de uma das lojas do shopping e está tomando prejuízo com a bagunça. Duvido que ele vai querer fazer parte da turma e depois frequentar a casa da namorada.
    Reflitamos: se invertermos as situações colocando-nos como os prejudicados, a coisa muda! Se muda!

  3. Guilherme disse:

    Concordo plenamente. Volto no ponto que já discutimos várias vezes que a hipocrisia. As redes sociais vem promovendo uma espécie de “herói-urbano-hipster”. Falo isso, porque a articulação destes rolezinhos não vem da classe “prejudicada” e sim dos pseudos agentes políticos. É mais vaidade do que espírito de cidadania. Não sou contra nenhum tipo de movimentação que possa mudar algum parâmetro errado da sociedade, MUITO PELO CONTRÁRIO, mas ele precisa no mínimo de coerência. Quantos destes que apoiam os rolezinhos nunca “fugiram” para o outro lado da rua, quando viram pessoas na rua com vestimentas bem à periferia? Eu tenho um pensamento que para muitos é preconceituoso, mas acredito ter um tipo de coerência. Estes problemas no shoppings surgiram porque em determinado momento existiu problemas, seja eles de desordem ou criminal. Não vejo “preconceito” puro e genuíno. Claro que dentro deste contexto é a minoria que provoca algum tipo de problema. Mas usamos um exemplo. Você tem um caixa de bombom com único envenenado. Você arrisca comer um? Eu jogaria a caixa fora. Permitir o rolezinho para depois ter ficar caçando na multidão os culpados é inviável e muito prejudicial aos lojistas e a quem vai ao shopping de maneira sossegada. Além disso, o shopping é um local privado que tem determinações específicas. Dentro da sua casa, você coloca quem você quiser. Abraços.

  4. FTC disse:

    Amigo,
    não acredito que o exceto deva servir de parâmetro para se julgar a totalidade – nem acho que este foi o seu objetivo – e penso que devemos sempre ficar atentos às tentativas dos grandes meios de comunicação de fazê-lo (principalmente nós que somos partes constituintes de uma elite intelectual). Acho que a gênese tanto do tal “rolezinho” quanto das jornadas de junho é completamente distinta, por mais que tanto quem defende ambos como quem os ataca acabe por dar um tratamento quase idêntico aos dois: Grupo de pessoas, pacíficas em sua maioria, mas com uma parcela minúscula que quer vandalizar. Tais “fatos sociais” (entre aspas por não ter encontrado uma palavra adequada) estacionam no ping-pongue do juízo das esfaceladas e saudosistas esquerda e direita nacionais, caem no simplismo do à favor ou contra, e viram apenas mais um motivo para alimentar ainda mais a “guerra fria brasileira” – que tanto mal faz para a nossa autonomia intelectual e nos impede de pensar sobre o que realmente é relevante em cada fenômeno social.
    Abraços!!!

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