Liberdade, Big Brother e os drones

A busca pela liberdade sempre foi uma preocupação do ser humano. Na Antiguidade, a filosofia surge por uma explicação mais livre sobre a origem das coisas e do mundo, já que as explicações míticas pertenciam tão somente aos poetas rapsodos. Na Idade Média, a Igreja Católica restringiu a liberdade em vários âmbitos, como no do conhecimento, por exemplo. E, na Modernidade e na Contemporaneidade, cada vez mais atrelou-se o conceito de liberdade com responsabilidade, como pode ser visto em Kant e Sartre.

Ainda assim, é extremamente equivocado pensar que o Homem possui uma liberdade absoluta, uma vez que está sempre submetido a determinismos naturais, bem como a condicionamentos físicos e culturais. Mais do que isso, na Modernidade surgiram os contratualistas, que, com suas teorias políticas, procuraram limitar a liberdade dos indivíduos, para o bem deles próprios, saindo de um estado de natureza para um estado social. Não obstante, mesmo que a sociedade e a política demonstrem a necessidade de certa restrição, desde Maquiavel, passando por Hobbes, Locke e Rousseau, a contemporaneidade caminha numa direção que defende a máxima liberdade possível. A História mostra que a liberdade é um dos bens mais preciosos do ser humano. Nesse escopo, há vários momentos de lutas por tal bem (de forma mais ou menos direta): independências de colônias diante de metrópoles; movimentos contra ditaduras; movimentos em prol dos negros, das mulheres, dos homossexuais; etc.

No entanto, desde o início do ano de 2013, o mundo foi inserido em uma realidade até então desconhecida (ou pouco conhecida): Edward Snowden, ex-analista da inteligência americana, deu publicidade a uma série de programas confidenciais dos governos dos EUA e do Reino Unido. Milhares de empresas e pessoas tiveram seus dados pessoais analisados. Nas últimas semanas, descobriu-se que o governo americano espionou diversos chefes de Estado, como os do Brasil, México e Alemanha, dentre outros.

As “desculpas”, uma atrás da outra, são sempre em nome da segurança dos próprios cidadãos. Afinal, desde o triste episódio do World Trade Center, em 2001, o esforço – principalmente dos EUA – em se proteger do terrorismo justifica um sem número de atitudes no mínimo questionáveis. E isso resulta numa constante restrição da liberdade, em nome de maior segurança.

Bom, mas os fins justificam os meios? Creio que não. Há mais segurança? Meses atrás, tivemos um atentado numa maratona em Boston. E, ainda que haja uma estatística que mostre uma eventual “vitória” do Ocidente na luta contra o terrorismo (o que eu não acredito), justificam os atos revelados por Snowden?

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Nessa seara, há também uma corrida bélica. No intuito de melhorar o combate ao terrorismo, foi estimulado o desenvolvimento de pesquisas e fabricações dos Veículos Aéreos Não Tripulados, mais conhecidos como Drones. São cada vez mais usados, principalmente em áreas de risco, como no Oriente Médio.

Assim, em nome da segurança, juntando o serviço de inteligência (espionagem) com o serviço militar (drones), eis que, no dia 13/12/2013: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,drone-dos-eua-mata-13-convidados-de-casamento-no-iemen,1107772,0.htm. Isso mesmo.  Um drone matou dezenas de civis no Iemen, convidados de um casamento. (E quanto aos argumentos dizendo que poderia haver homens da Al-Qaeda infiltrados? Patéticos).

Vale lembrar que, em 1948, George Orwell escreveu o romance 1984, no qual retrata uma sociedade sob constante vigilância das autoridades (“Big Brother is watching you”). Em 2000, os EUA criaram um reality show de nome Big Brother, com pessoas morando numa casa constantemente vigiada, que resultou num grande sucesso. Inclusive o Brasil também entrou na onda, e esse programa já vai para a décima quarta edição (infelizmente).

A mídia transformou a ficção de Orwell em uma diversão, cativando a curiosidade (e a futilidade) do público. O reality show e a moda do Big Brother, em seus mais variados tipos, ainda fazem sucesso mundo afora. Então, fica difícil reclamar de espionagem, quando há um deleite com a superexposição da vida humana, por meio de paparazzis, redes sociais e afins. Contudo, David Brin, também autor de ficção científica, disse certa feita: “o grande mérito da ficção científica não é prever o futuro, mas pintar um futuro tão horrível que as pessoas vão lutar para que ele não aconteça”.

Logo, tenho a esperança de que, aos poucos, as pessoas vão perceber que o futuro do livro de Orwell é o agora; e, assim, que liberdade não é sinônimo de exposição nem de falta de privacidade. Consequentemente, que a liberdade é mais importante que o Big Brother (assim como as notícias sobre política e economia são mais importantes que o namoro do Neymar com a Bruna Marquezine).

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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3 respostas para Liberdade, Big Brother e os drones

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    “Logo, tenho a esperança de que, aos poucos, as pessoas vão perceber que o futuro do livro de Orwell é o agora; e, assim, que liberdade não é sinônimo de exposição nem de falta de privacidade.”
    Verdadeiro isso, Lucas. Quanto mais as pessoas se expõem (o Facebook é um desses “canais” utilizados por grande parte da população que, creio, deveria se restringir a utilizá-lo com prudência), não se preocupando com o “entorno”, mais tolhidas elas estão em sua liberdade. Na verdade, creio que liberdade total ninguém tem, pois ela sempre está atrelada à moral, aos bons costumes e à responsabilidade que temos para com o outro, sejam nossos parentes, amigos e até desconhecidos.
    A saudosa poeta Cecília Meireles tem uma frase de significado profundo sobre a liberdade: “Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
    E Clarice Lispector pontuava: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.”

  2. Ana Paula Araújo disse:

    pois e mais creio eu que isso vem já vem desde a época da idade media.. cristianismo, só cada época com sua forma de “privar as pessoas da liberdade “..

    eu diria a mesma coisa que vc disse nesse paragrafo se as pessoas nao fosse tao preguiçosas e usassem o celebro pra pensar:
    ” Logo, tenho a esperança de que, aos poucos, as pessoas vão perceber que o futuro do livro de Orwell é o agora; e, assim, que liberdade não é sinônimo de exposição nem de falta de privacidade. Consequentemente, que a liberdade é mais importante que o Big Brother (assim como as notícias sobre política e economia são mais importantes que o namoro do Neymar com a Bruna Marquezine).”

    as pessoas dao valor hj em dia a coisas fúteis de mais.. deveria parar um pouco e tentar mudar pois sao governadas por televisões, propagandas, novelas, revistas de fofocas e nao vivem direito sua vida, com uma rotina de trabalho, casa, novela….
    como diz minha avo : são governadas pelo próprio ego!!!!!

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