Ética e impunidade

Ética e moral são palavras com sentidos semelhantes. A primeira vem do grego ethos e a segunda, do latim morus. Ambas se referem aos costumes e a maneiras de viver.

O ser humano é um ser moral, ou seja, em qualquer sociedade em que viva, tem uma noção do certo e do errado, do permitido e do proibido, do mais e do menos valioso ou importante. Dentro desse contexto de moralidade, a ética é a reflexão filosófica da moral. Dessa forma, ética, de maneira geral, é uma palavra que remete ao modo de viver – porém não a qualquer modo – mas sim viver virtuosamente, ou corretamente, ou prudentemente (vai do gosto de cada filósofo).

Na seara da realidade cotidiana, uma pessoa é chamada de antiética quando descumpre questões morais e legais. Assim, de maneira geral (o texto aqui não permite uma longa e aprofundada discussão com vários pormenores), uma pessoa que não segue as leis não segue os costumes e, consequentemente, fere a ética. No entanto, nos dias de hoje, diante de uma crise de valores, de que vale a questão teórica/abstrata de bem ou mal em uma ação? O mais importante é a consequência da ação (não é a toa que o Utilitarismo está cada vez mais em voga). Dessa forma, ainda que haja uma ação que fira a ética, uma vez que é ilegal, se o autor da ação não é punido, ele pouco se importa se será taxado de antiético.

Isso mostra que, na atualidade, muitas pessoas não se importam em ser “um homem de bem”, mas sim em alcançar seus objetivos (quaisquer que sejam), independentemente do modo. E – no Brasil, especificamente – a impunidade  é gritante, o que ajuda a manter (e até aumentar) esse tipo de visão. Nesse tema, João Pereira Coutinho escreveu para a Folha, em 8/10/2013 (por favor, antes de continuar a leitura de meu texto, leia aqui).

Como se pode notar, não é um questionamento inútil nem sem sentido se devemos ser virtuosos/éticos. E mais: se também devemos educar nossos filhos dessa forma. Afinal, assistimos a uma gama de indivíduos que descumprem a lei e os costumes e não passam perto de uma punição exemplar, devido a falta de ética. Para piorar, muitas vezes esses mesmos indivíduos conseguem uma vida de maiores prazeres materiais, bem como parecem conquistar uma vida mais tranqüila e feliz.

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Entretanto, valendo-me apenas de Aristóteles e Kant, concordo com o posicionamento do colunista português da Folha, qual seja, de que sim, vale a pena agir de maneira correta.

Em primeiro lugar, o ateniense da Antiguidade afirmava que todas as ações humanas têm uma finalidade, que é o seu bem. O ponto final seria, segundo o filósofo, o “fim que desejamos por ele mesmo”, ou seja, o “sumo bem” ou aquilo em vista de que desejamos todas as outras coisas e para a realização do qual se dirigem todas as nossas ações. Mas o que seria esse fim último? Uma palavra: Eudaimonia. Infelizmente, a tradução abarcou a palavra “felicidade”, o que não significa uma tradução muito fiel, já que o significado da palavra grega tem a ver com “bom ânimo”, “bom gênio”, “bom estado de espírito”, que vincula à “realização” ou “florescimento”. A “felicidade”, então, não parece pertencer ao propósito aristotélico, ainda mais quando se vincula ao conceito contemporâneo de felicidade, ligado à satisfações materiais e supérfluas. E, tal como Coutinho assevera em seu artigo, o florescimento deriva do hábito de, aos poucos, adquirir a virtude. Ou seja, não se busca uma boa vida nem com atitudes imediatas nem visando a superficialidade, mas aos poucos e buscando um bem maior. E isso não se atinge prescindindo da ética.

Já Kant, muito mais radical, também é um total defensor da ética. Mais do que isso, ele infere que o homem deve buscar o bem por excelência, e este consiste na boa vontade, que é a capacidade de seguir o dever, isto é, de obedecer à lei moral. E é pela razão prática que as pessoas sabem o que devem fazer, ou seja, sabem qual é a ação realmente moral. Assim, o homem chegará ao Princípio do Imperativo Categórico: “devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal”. Para o filósofo, então, uma ação deve ser executada por senso do dever, em obediência a lei que nos é dada pela razão prática, e não, segundo nossos desejos, ou em busca da felicidade ou de algum benefício para si ou para os outros. Agindo dessa maneira, ainda que não traga felicidade ao homem, trará o mais alto valor, a dignidade. Afinal, todo ser humano é um fim em si mesmo e não pode nunca ser tratado apenas como um meio para outros fins.

Enfim, muitos dirão que é um discurso utópico, que o homem é mau por natureza, que é o lobo do próprio homem. Que o mundo é dos espertos e que a ética clássica já foi para o brejo. Mas, de fato, creio que “caráter é destino” (e penso que essa frase é de Heráclito, não de Aristóteles, como Coutinho afirmou) e no destino dos maus-caracteres não floresceu um bom estado de espírito, logo, nem consciência tranquila, muito menos dignidade. No fim das contas, a impunidade não sai totalmente incólume. Pior para quem se acha acima do bem e do mal.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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5 respostas para Ética e impunidade

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  2. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Isso, Lucas. E penso que ainda que a impunidade “civil” seja uma constante, a noção de ética vem da nossa consciência e, assim,mais dia, menos dia, ela aflora e isso, para nós, já é uma punição.

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  4. Antônia Lima disse:

    Acredito que, o indivíduo antiético e totalmente desprovido de consciência moral, ou seja, valores morais não significada nada. Penso também que essas criaturas não sofrem, são extremamente racionais, carentes de qualquer sentimento nobre. assim sendo, não tem limites em prejudicar quem quer que seja para conquistarem seus objetivos. A impunidade “civil” é constante, estamos cercados por monstros.

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