Pequeno ensaio sobre as relações (e simpatia, compaixão, piedade)

Todo dia é a mesma coisa. Acordar, respirar fundo, levantar, escovar os dentes, tomar um banho, e ir viver. Raras são as pessoas que, no trajeto para trabalhar/estudar/caminhar/etc, dão um bom dia a um desconhecido que cruza seu caminho. Ou que dão um sorriso. Isso não muda na hora do almoço, durante a tarde nem de noite na academia ou no teatro (raramente no prédio). Não há o boa tarde nem o boa noite.

Muitas vezes ocorre um encontro com uma pessoa, colega ou conhecida de sua(seu) namorada(o), em que os quatro indivíduos então se cumprimentam, ou com aperto de mão, ou com beijinhos no rosto. Os conhecidos entram num papo animado e os estranhos ficam deslocados. Até que chega um momento no qual um puxa um assunto. “Tá quente demais, não?” “Nossa! Muito calor” “Pior que ano passado!” “E aqui em BH ainda não tem praia…” “Quem não tem mar, vai pro bar, né?” E vem aquela risada forçada. Se estão duas mulheres, roupa bonita. Está noiva? Pronto, tem assunto para dias… Se estão dois homens, fatalmente o assunto será futebol. Cruzeirense? Atleticano? Pronto, dá para enrolar bastante (quem não gosta de futebol, está lascado)…

Depois de alguns minutos, você nota que seu maxilar está doendo, pois não parou de sorrir nem um segundo, desde o início do diálogo. Aquele esforço hercúleo para mostrar que é gente boa, carismático (porém, rezando para seu par terminar logo a conversa infindável).

Ufa. Acabou a conversa. Acabou o dia.

As relações são assim. Cada vez mais distantes. Cada vez menos há vontade de ser simpático. Palavra de origem grega, vem de pathos, ou seja, sentir, sentir com. Como André Comte-Sponville diz em seu belo Tratado sobre as virtudes, simpatia é a participação efetiva dos sentimentos do outro. Porém, está atrelada aos bons sentimentos. E ninguém faz muita questão de partilhar com o outro seu bom sentimento, seu bom humor, etc (na verdade, penso que muitos estão é com carência de bons sentimentos em si próprios). Assim, poucos são simpáticos.

Na mesma seara, temos a compaixão. Esta possui exatamente o mesmo significado de simpatia. A primeira vem do latim, a segunda, do grego. No entanto, a compaixão é vista no que tange aos sentimentos ruins, i. e., ao sofrimento. Dessa maneira, por um lado, pode-se escolher compartilhar ou não suas emoções (simpatias); por outro, não se pode recusar a considerar um sofrimento (compaixão).

Com isso, o que vemos são pessoas pouco disponíveis em serem simpáticas umas com as outras no dia a dia e, ao mesmo tempo, mostram-se bem mais disponíveis com aquelas que aparentam necessitar de maiores cuidados.

Bom, isso poderia resultar num pensamento: “Ok,ser compassivo é algo bacana, virtuoso”. Entretanto, não vejo sob essa ótica. No mundo em que vivemos, coroado de orgulho e egoísmo, analiso essa “disponibilidade” em ajudar os mais necessitados – muitas vezes, sem generalizar, apesar de ser difícil – mais como piedade, em vez de compaixão. E o problema é que piedade denota dó e desprezo. E o pior sentimento que alguém pode receber é ser digno de dó.

Enfim, nota-se que as relações estão bem tortuosas e cada vez mais difíceis e complexas. Isso porque nem mencionei as relações virtuais. Mas, no fim das contas, prefiro não receber um bom dia por falta de simpatia do que receber por piedade de sobra. E também prefiro ficar sem nenhuma “curtida” do que receber várias por dó ou por compaixão.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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7 respostas para Pequeno ensaio sobre as relações (e simpatia, compaixão, piedade)

  1. muito bacana o texto. me fez lembrar de um desentendimento recente que tive com uma colega de faculdade. ela ficou p da vida comigo porque disse que ela era sem educação porque chega na sala e não dá bom dia pra ninguém. nem pros próprios colegas de grupo. agora fiquei na dúvida se o antipático de fato era ela ou eu. rs

  2. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Realmente, Lucas, e me pergunto se a modernidade, que, hoje, está atrelada à velocidade, não está também nos trazendo a insensibilidade. Afinal, estamos nos tornando mecanizados não só porque a vida nos exige constantemente que “batamos metas” diariamente, o que nos abrevia o tempo que poderia ser disponibilizado às afeições, ao ouvir com atenção o outro, a brincar mais com as crianças…, enfim, a “gastá-lo” de forma menos descompromissada, mas também porque estamos nos tornando mais egoístas, centralizando o nosso “eu”, focando as “nossas” prioridades, tornando-nos, assim, “frios” para o resto.
    Seu textos nos faz refletir a importância do entorno. Daqueles que estão à nossa volta, sejam eles parentes, amigos, desconhecidos… E é fato que um sorriso, um bom-dia, um olhar alegre pode modificar consideravelmente o dia de alguém que já amanhece fechado para o mundo.
    Parabéns!

  3. Eu tenho uma pergunta para você, que sempre me intrigou: Não acha incoerente duas frases muito comuns, ouvidas por aí?: “Existem amigos falsos que só estão com você em festas, viagens… mas quando você está na pior, precisando de um ombro amigo, eles somem.” A outra: “Ultimamente tem muitos amigos que só se encontram em enterro, velório, hospital… do resto, somem”,
    Eu acho que essa última se aplica mais a família, parentes… mas realmente com alguns amigos antigos parece acontecer. Eu acho que é a correria do dia a dia mesmo, e considero menos grave do que a primeira situação, que parece caracterizar mais a amizade interesseira.

    Enfim, identifiquei-me muito com o texto (“maxilar doendo”.. rsrs).. ótimo! Parabéns!
    beijos

    • Na primeira frase, penso que são aqueles amigos que só gostam de dividir a simpatia, mas não têm compaixão…

      Já na segunda, penso que é o caso da simpatia forçada. Sabemos que existem, em todas as famílias, umas pessoas que lidam com outras muito pelo laço sanguíneo, tão somente…

      Valeu, beijos!!

  4. Aline disse:

    Sempre reflito sobre o “bom dia, tudo bem?” no meio do corredor. Será que a pessoa tá mesmo interessada em saber se vc está bem? A força do hábito é tão grande que muitos não sabem o que perguntam, como também não sabem o que rezam. Mas, pra não descrer da humanidade por completo, prefiro acreditar que alguns cumprimentam por simpatia, não por piedade. E ainda que falte assunto, é melhor cruzar com alguns sorrisos por aí do que suportar caras fechadas o tempo todo. Que as futilidades sirvam ao menos para promover o encontro de alguns, ainda que superficialmente falando.

  5. Gustavo disse:

    Interessante, seu texto me faz refletir sobre a proximidade da filosofia com a psicologia. Penso que ao refletir sobre as virtudes e as possibilidades do que elas podem significar, desembocamos numa análise do próprio sujeito e seus sentimentos. E como são confusos os sentimentos, pensamos ter compaixão quando é dó, pensamos ter tolerância quando é sentimento de superioridade e por ai vai.

    Parabéns pelo blog!

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