O helicóptero dos Perrelas e a Indústria Cultural

Em meados do século XX, o mundo vinha de duas Guerras Mundiais, muita violência e destruição. Isso trouxe pensamentos de desencantamento do mundo, mesmo apesar do avanço tecnológico. Um dos exemplos dessa forma de pensar situa-se na Escola de Frankfurt, especificamente com Adorno e Horkheimer.

Estes filósofos alemães afirmavam que, na sociedade contemporânea, a razão é vista como razão instrumental, isto é, um instrumento de dominação da realidade. Ou seja, a racionalidade não serve ao progresso humano, ao “esclarecimento”, mas sim a um jogo de interesses. Dessa forma, a razão instrumental é uma arma que a classe mais abastada possui e, com isso, domina as outras classes, através da Indústria Cultural. Esta consiste no fato de a classe mais alta utilizar os meios midiáticos para dominar. Isso aprisiona e serve como uma ideologia.

Diante disso, a mídia impõe modelos de comportamento, de consumo, de valores, de modos de ser e de viver, de acordo com seus interesses. O resultado é a difusão da irracionalidade no mundo, com uma alienação de muitas pessoas. Adorno denomina esse fator como cultura de massa, na qual a cultura e até o lazer é determinado pela própria sociedade. Os cidadãos não escolhem gostar de uma banda ou se divertirem em tal lugar num final de semana, mas são influenciados e levados a gostarem da banda que toca o dia inteiro nas rádios, bem como a aproveitarem um domingo de sol naquele local que o sistema determina. Assim, a cultura alternativa é totalmente abandonada e depreciada.

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Em suma, o que Adorno e Horkheimer pretendem dizer é que o homem não é livre, mas sim dominado por uma ideologia que mascara a realidade e o aprisiona em um sistema. Obviamente, aqui há toda uma gama de críticas ao “sistema-burguês-capitalista-liberal”, muito influenciado por Marx.

O interessante é conseguir colocar essa visão filosófica e sociológica dos dois alemães em algumas notícias dos últimos dias. Na verdade, um dos fatores ocorre há um bom tempo. É o caso dos indivíduos julgados pelo Mensalão. Mais especificamente, três: Delúbio Soares, José Dirceu e José Genoíno. Há anos a mídia brasileira se debruça sobre o julgamento. Neste ano de 2013, a cobertura aumentou, uma vez que se aproximou do resultado final; houve aceitação dos embargos infringentes e, depois, a prisão de alguns condenados – desses três, inclusive. No geral, a cobertura midiática no Brasil foi enorme. Desde o momento em que o STF determinou que os indivíduos fossem presos, até a ida deles para a prisão, seus primeiros dias, o momento do banho de sol, etc etc. Muitos aproveitaram para dizer que o Brasil não vai mais aceitar impunidade; que a justiça foi feita, mas que eles deveriam ficar presos para sempre; que isso ou que aquilo.

No entanto, e quanto ao julgamento do Mensalão mineiro, de 1998, quando Eduardo Azeredo era governador de MG? Até hoje o STF não chegou a uma sentença. Conseguiu julgar um outro caso, com muitos mais réus, muito mais complexo, em muito menos tempo. E a questão das fraudes nas licitações dos metrôs de SP, envolvendo décadas de governo do PSDB (além de alguns membros do Poder Judiciário), com as empresas Alstom e Siemens? O escândalo foi noticiado em julho, mas, em cerca de 4 meses, quase nada foi veiculado, em que pese o tamanho da corrupção.

Por fim, há poucos dias, quase meia tonelada (eu disse meia tonelada, não 10 ou 20 gramas) de cocaína foi encontrada num helicóptero pertencente à família Perrella, que possui um deputado estadual (MG) e um senador da República (apadrinhado de Aécio Neves). Inicialmente, os Perrellas culparam o piloto do helicóptero, que teria furtado a aeronave. Porém, o piloto negou, dizendo que entrou em contato com o deputado estadual duas vezes, pouco antes de ser pego – inclusive disponibilizou o celular para averiguação. Além disso, o piloto trabalha na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, supostamente indicado pelo deputado Perrella. Ou seja, apesar de toda a cautela necessária nesse caso – bem como em todos – há grandes indícios de que a família Perrella tem culpa no cartório.

Enfim, nesses cenários, salta aos olhos a cobertura (?) da mídia. Pouquíssimos divulgados e noticiados. Uma notícia pequena num jornal aqui, outra ali. E só. Não são questões que também devem ser investigadas, com grande cobertura jornalística, do mesmo modo que foi com os culpados do Mensalão petista?

O fato é que, desde que o PT assumiu o Poder, com Lula, em 2003, grande parte da imprensa vende a imagem de que esse partido é de bandidos e de vagabundos. Hoje, 10 anos depois e com essa gama de ocorrências – fora aqueles que sempre foram oposição -, vejo que muita gente comprou essa ideia. Não que o PT (e afins) seja o “mocinho” e o PSDB (e afins) o “bandido”. Mas que há uma nítida ideologia aí, com certeza. É a razão instrumental em prol da indústria cultural. Adorno e Horkheimer nunca estiveram tão atuais no Brasil.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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6 respostas para O helicóptero dos Perrelas e a Indústria Cultural

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Perfeito, Lucas! Informações valiosíssimas atreladas a concepções realistas. Embora, muitas vezes, centenárias, a verdade é que desde que o homem é homem e passou a andar na vertical, vem verticalizando suas ideias e as espalhando pelo mundo, por diversos meios, principalmente o cultural, influenciando cabeças pouco pensantes. Você endossa muito bem tudo isso, por meio de conhecimentos filosóficos; eu busco a literatura. Vou lá em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” de um dos maiores escritores que o Brasil já teve: Machado de Assis.
    Há vários trechos interessantíssimos. Ressalto alguns de relevância com o seu texto:
    Capítulo CXII – A opinião
    ,, Pareceu-me que ele tinha medo – não de mim, nem de si, nem do código, nem da consciência; tinha medo da opinião. Supus que esse tribunal anônimo e invisível, em que cada membro acusa e julga, era o limite posto à vontade do Lobo Neves… Cuido que ele estaria pronto a separar-se da mulher, como o leitor se terá separado de muitas relações pessoais; mas a opinião, essa opinião que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso inquérito acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunstâncias, antecedências, induções, provas, que as relataria na palestra das chácaras desocupadas, essa terrível opinião, tão curiosa das alcovas, obstou à dispersão da família. Ao mesmo tempo tornou impossível o desforço, que seria a divulgação… Mas o tempo caleja a sensibilidade, e oblitera a memória das cousas; era de supor que os anos lhe despontassem os espinhos, que a distância dos fatos apagasse os respectivos contornos, que um sombra de dúvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; enfim, que a opinião se ocupasse um pouco com outras aventuras.
    … De um ou de outro modo, é uma boa solda a opinião, e tanto na ordem doméstica, como na política. Alguns metafísicos biliosos têm chegado ao extremo de a darem como simples produto de gente chocha ou medíocre; mas é evidente que, ainda quando um conceito tão extremado não trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os efeitos salutares da opinião, para concluir que ela é obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior número.

  2. Sabe que eu sempre tive essa impressão de “caça” ao PT pela mídia, há muitos anos, mas não conhecia a Escola de Frankfurt. Eu me identifiquei muito com o texto, acho que é bem isso que acontece na mídia, que confirmem os jornalistas: Eles todos combinam de falar de assuntos específicos, aqueles que eles querem, e com o grau de sensacionalismo que querem.
    Assim fica fácil de “condicionar” as pessoas e até mesmo a sociedade, como bem descrevem Adorno e Horkheimer. No limite (do infinito), viraríamos robôs e nossas mentes seriam simples marionetes dos “senhores da informação”. Que bom que há textos como esse para nos esclarecer! Assim, quem sabe, possamos ficar mais atentos e mais críticos..

  3. O interessante é que os próprios seguidores de Marx, a partir de Antonio Gramsci, se valeram dessa percepção da Escola de Frankfurt para – intencionalmente – inculcar na mente das pessoas diversos conceitos que não teriam penetração na sociedade então fortemente judaico-cristã. Uma verdadeira engenharia social muito bem sucedida contribuiu para a transformação da sociedade ocidental, substituindo seus valores tradicionais por ideais revolucionários no espaço de algumas geraçõs. Que tal comentar um pouco sobre o Marxismo Cultural?

    • Bem notado, Marcelo. Hoje em dia, então? Quantos blogs, colunistas e afins de esquerda? Também há os de direita, sem dúvida, mas a força que os esquerdistas tentam impor é uma coisa absurda. Sem dúvida, vale inclusive um post sobre isso. Em breve.

  4. Pingback: Manifestações: “black”out que “bloc”eia não a ignorância, mas sim o progresso | Um debate a qualquer hora

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