O liberalismo e o rei do camarote

O Ocidente, em geral, é liberal (e, por mais que haja grande variedade de doutrinas pertencentes ao liberalismo, vou me apropriar muito particularmente de alguns aspectos da tradição liberal para atender aos meus propósitos aqui). Tal regime se formou desde a queda do Antigo Regime. Vieram então o Renascimento – com as revoluções científicas galilaica e baconiana; o racionalismo e o empirismo; o Iluminismo, até culminar nas Revoluções Burguesas. Influenciado por Montesquieu, Voltaire, Adam Smith, dente outros, hoje vivemos num mundo liberal capitalista.

O liberalismo tem como uma de suas características seu vínculo imediato à noção de “indivíduo”. Isso quer dizer que os liberais concedem primazia aos direitos individuais e à liberdade nas questões políticas e sociais. Dessa maneira, a sociedade é vista como um conjunto de procedimentos na qual os indivíduos possam satisfazer seus anseios. Ou seja, a sociedade não pode ser tomada como um fim em si mesma, nem deve impor um modelo de vida às pessoas, aceitando os diferentes modos de vida que cada pessoa escolhe para si. Obviamente, autores liberais não menosprezam a vida coletiva ou a necessidade de se viver com os semelhantes. No entanto, defendem a prioridade da satisfação dos interesses individuais.

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Não se deve olvidar, entretanto, que, depois da Grande Depressão, ocorrida em 1929, o mercado totalmente livre perdeu muita credibilidade. Consequentemente, houve um boom do “Estado de bem estar social”. Este consiste em dar mais espaço ao Estado, no intuito de haver maior promoção social e econômica, que – em tese – garante aos indivíduos um conjunto de bens e serviços. O Brasil é tachado como um Estado de bem estar social. Mas, como muito desse conjunto não é fornecido ao cidadão, aos poucos, o liberalismo voltou à tona (com o nome de neo-liberalismo).

O fato é que, hoje, muitos preferem pagar escolas particulares aos filhos; ter um plano de saúde privado; garantir uma previdência privada; ter seguro de vida; além de investir na Bolsa de Valores (ou em algum fundo de renda fixa privada); etc etc. O trabalhador brasileiro não confia no Estado. Não concorda com seus representantes políticos, não gosta de sua burocracia arcaica, não aprova os bens primários fornecidos. Assim, vive privadamente, no sentido de não se sentir valorizado pelo Estado e, com isso, não precisar abrir sua vida ou se justificar perante a sociedade.

Como assim? Desde que a pessoa não esteja transgredindo as leis (penais, civis, tributárias, etc), não importa à coletividade a forma como ela vive. Uma vez que o Estado não fornece o bem estar prometido, o individualismo é cada vez mais forte. Se uma pessoa intenta em gastar duzentos reais em um final de semana com cervejas, qual o problema? Ela trabalhou a semana toda para que pudesse ter um momento de descanso. Neste, resolveu gastar da forma que melhor lhe conveio. Quantas vezes cada um de nós resolveu “fazer uma graça” e esbanjar a gastança em algo supérfluo? Inclusive, entrando no cheque especial ou coisa do tipo?

Há algumas semanas, saiu uma reportagem sobre um cidadão paulista. Ultra rico, gasta absurdamente com roupas, carros, mulheres, bebidas. Em uma noite “pode ir de 5 mil, 50 mil, até o infinito”, segundo seus dizeres. Até então, um homem “comum”, com a diferença de ser muito rico. Num país onde a desigualdade de renda é gritante, o homem virou notícia. Brutalmente criticado por “jogar dinheiro fora”. A repercussão foi tanta que, dizem as más línguas, o homem comprou um (ou dois) carros blindados e parou de ir a várias “festinhas”.

A sociedade não aceitou o modo de vida do rapaz. Porém, quantos dos críticos não gastariam da mesma forma, se tivessem o mesmo poder aquisitivo? Engraçado que, após alguns dias, noticiaram que esse empresário tinha alguns problemas com o fisco. Isso talvez fosse um motivo mais plausível de criticá-lo. Mas quase passou batido. O que continuava a merecer censura era o fato de ele gastar (de modo, até então, lícito) da forma como gastava.

Vejamos: Quantas pessoas andam com carros de R$ 300 mil e não são criticadas dessa forma? Ora, com cerca de R$ 30 ou R$ 40 mil, pode-se comprar um carro razoavelmente confortável e completo, não? Ou um vestuário por R$ 100, R$ 200, também creio que é o suficiente para se “estar bem vestido”. Mas muitas pessoas gastam milhares com uma peça. Comida: um mexidão de R$ 10 mata a fome, não? Mas existem muitos “inconsequentes” que gostam de jantar fora… R$ 400 para comer uma minúscula entrada, um pratinho pequeno e uma microssobremesa. E uma viagem? Quanto se deve gastar? Não entendo o porquê do tal coxinha ter sido linchado em praça pública.

É comum ecoar pelo Brasil frases como “não me siga que não sou novela”, “quer cuidar da minha vida? pague minhas contas”, e coisas similares, que dá um simples recado: “a vida é minha eu dela cuido eu”. Mas, como sempre, pimenta nos olhos dos outros é refresco. Particularmente, também acho besteira a forma como Alexander de Almeida gasta seu dinheiro. Mas, o dinheiro é dele, não meu. E, no fundo, numa coisa acho que ele tem razão: muita gente tem inveja, mesmo.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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6 respostas para O liberalismo e o rei do camarote

  1. FTC disse:

    Excelente blog meu caro amigo. Só não sei se tal assunto – dada a superficialidade do mesmo – merecia, de vossa parte, a atenção dada.
    Abs!!!

  2. Guilherme disse:

    Fala, Lucas! Ótimo texto para reflexão. Vou expor minha opinião. A questão do direito do cara usar a grana da maneira que ele quiser é uma questão dele. Fato. O ser humano é hipócrita, é outro fato. Muitos se tivessem a grana dele esbanjariam, talvez, grande parte, não sei se maioria. De qualquer maneira, só não acho que o individualismo “Neoliberal” seja uma desculpa para uma sociedade individualista. O fato de termos o direito de não ajudar ou de não pensar de coletivamente pra mim pode ser um padrão predominante pq vivemos em sociedade. Claro que também, não concordo com a “justiça” socialista que obriga a dividir como se todo mundo fosse um átomo só. As pessoas tem seus mérito individuais e devem se valer deles, mas como disso, direito individual não pode significar individualismo, mesmo que as pessoas têm o direito de ser

  3. Fátima Soares Rodrigues disse:

    A frase sempre dita pela sábia mamãe:”Cada um cuida das suas obras” cabe aqui e em tudo que se refere à vida alheia. Porém, não nos podemos esquecer de que, queiramos ou não, vivemos numa sociedade, ainda que procuremos nos isolar. Posso não frequentar lugares em que exista “povo”, mas, mesmo que eu não vá às compras de supermercado, é impossível não receber em minha casa, o entregador das compras que efetuei “on-line”. E ainda tem o dentista, o médico.. enfim os contatos que não tenho como deixar de tê-los. Então,penso que o “do camarote” tem todo o direito de viver e gastar o que é seu, mas, já que ninguém tem nada com isso, de uma forma ou de outra, tem, uma vez que ele resolve tornar públicas as suas excentricidades. E, então, a reação da sociedade, queira ele ou não, aparece. Afinal, como você disse, Lucas, o sujeito agora só sai com seguranças e deixou de frequentar as baladas. Conclusão: se antes ele era livre para pensar e agir como queria, agora, temendo “os que discordam dele”, perdeu a liberdade. Assim, concluo que, se ninguém tem nada a ver com a nossa vida, que não caiamos no erro de querer divulgá-la para todo o mundo.

  4. Thiago Bigao disse:

    Mais um texto foda. Na minha opinião, se o cara quiser limpar a bunda com o dinheiro dele ou fuma-lo como charuto, ninguém tem nada a vê com isso. O grande lance é a necessidade que temos em julgar as pessoas, principalmente as que se encontram de alguma forma em uma posição mais privilegiada. O fato do cara agora ter que andar com segurança e carro blindado so nos mostra como ainda nos encontramos em um estado primata para algumas situações.

  5. Laura disse:

    Eu acho que cada um tem o direito de fazer o que quiser da vida, é claro. Como você disse, o dinheiro é dele e ele merece gastar como bem entender.

    Eu só acredito que, uma vez que ele decidiu expôr isso ao público, ele está sujeito a críticas sim. E cada cidadão, segundo sua forma de pensar e viver o mundo, também tem todo o direito de julga-lo como quiser. É claro que muitas pessoas têm inveja, e muitos dos que estão falando demais é porque gostariam de ter a vida do “rei”, mas particularmente, pelo menos no vídeo ele representa todas as coisas que mais abomino. Não falo pelo fato dele achar lindo e maravilhoso gastar tanto em uma noitada (dinheiro que, é claro, poderia ajudar muitas pessoas, mas prefiro não entrar nessa discussão); e sim pela sua visão de mundo. Ao que parece, os valores e princípios humanos para o “rei” não tem serventia, porque as pessoas são conquistadas pela quantidade de dinheiro que você demonstra ter, evidenciado pelos seus bens materiais – roupas e carros. E quando ele fala das mulheres então? Essas sim, ficam mais fáceis à medida que você lhes paga bebidas e mostra o que tem no bolso…

    Em resumo, do meu ponto de vista, o que está em debate não é se é certo ou errado o que ele faz com o dinheiro. Mas o que essa grana representa para ele.

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