Visões extremas entre moral/religião e o equilíbrio aristotélico

Karl Marx (1818-1883) faz parte do segundo momento da Escola de Frankfurt. Dentre várias características, destacam-se as críticas à ideologia e à religião.

A primeira possui um conceito diferente de seu sentido original, que é positivo – e baseia-se em um conjunto de ideias que pode unir pessoas em torno de um ideal, uma motivação. Marx a enxerga com um sentido negativo, que consiste em ocultar e modificar aos trabalhadores a realidade dos fatos, para que eles não possam ver sua miséria. Diante disso, nota-se que a segunda crítica está contida na primeira, uma vez que, para Marx, a religião é uma das formas de dominação, na qual o povo se acomoda com sua condição de vida miserável.

Portanto, de acordo com o filósofo, “a religião é o ópio do povo”. Uma das formas de o homem se libertar e buscar a verdade, a felicidade e a justiça está em desacreditar em Deus (pois este não existe), excluindo a religião de sua vida.

Junto com Friedrich Nietzsche (1844-1900) – que inclusive faz parte do terceiro momento da Escola de Frankfurt e também faz uma enorme crítica à moral cristã ocidental, com sua afirmação de que “Deus está morto” –, Marx influenciou e ainda influencia demasiadamente a sociedade contemporânea, que está cada vez mais distante das religiões e de Deus. Nas últimas décadas, as pessoas que têm algum vínculo religioso são cada vez mais taxadas de alienadas e ignorantes. A moda agora é ser antenado, entendido de política, apaixonado pela ciência, conhecedor de filmes, enfim, cult, e – para não generalizar – muitos consideram que, agindo assim, não há lugar para Deus em suas vidas, pois este já está ultrapassado, como um conto da carochinha.

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Desta feita, hoje há uma nova ordem de valores, como Nietzsche desejava no século XIX. Segundo ele, essa nova valoração libertaria o homem da vida indigna e mostraria a sua importância, baseada em valores naturais. Assim, o indivíduo deve aproveitar a vida da melhor forma possível, de acordo com seu espírito dionisíaco, e isso reflete atualmente nos prazeres mundanos de todas as ordens: bebida, cigarro, sexo, drogas ilícitas, festas, jogatinas, etc. Não há mais uma religião ou uma moral que condene sua atitude. Nada deve limitar, nada deve definir, nada deve orientar os desejos e os impulsos, mesmo porque são eles que trazem os poucos momentos de alegria e de felicidade do homem nessa vida difícil, cruel e injusta.

E esses valores são tão fortes que, se alguém diz não beber, não fumar, não usar drogas ilícitas, não apreciar o sexo sem compromisso, ser mais caseiro e não agradar de jogos, é careta, velho, conservador. Os valores tradicionais foram enterrados e não podem mais ser aceitos sem críticas e difamações. “Ir à festa e não beber? Qual é a graça?”.

O ponto aqui nem é tanto criticar esses novos valores – apesar de que, de fato, eu não concordo – mas tentar entender a substituição da moral tradicional pela contemporânea e, mais do que isso, tentar entender essa substituição como uma imposição, devido aos ataques àqueles que ainda têm uma visão tradicionalista, como se, agora, todos fossem obrigados a concordar com a moral marxiana/nietzscheana. Quer dizer que não há pluralismo? Antigamente, somente a tradição religiosa era a correta. Agora, somente a “tradição contemporânea” é a correta? Qual é a evolução aqui?

O fato é que, desde há muito, diz-se que não se deve mais perder tempo com religião, pois esta esconde a triste realidade humana. Porém, esses prazeres atuais também não fazem o mesmo papel? Não escondem os dias tediosos de trabalho? As relações falsas? Os sonhos não realizados? Não atuam como drogas que viciam e que servem como uma fuga para muitos e muitos?

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No final das contas, o que eu vejo é apenas uma mera troca, que vai de um extremo a outro. Antes, muito pudor; hoje, muito despudor. Antes, culto aos domingos de manhã em templos religiosos; hoje, culto às sextas e aos sábados de noite em clubes noturnos. Antes, a religião era o ópio do povo; hoje, as drogas são a religião do povo.

Por isso, ainda fico com Aristóteles, que sempre pregou a prudência, o meio termo, o equilíbrio, como um ótimo caminho para a virtude. Não precisa se apegar nem tanto à castidade, nem tanto à libertinagem. Posso tomar minha cervejinha de domingo e fazer minha oração diária, com a consciência tranquila.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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6 respostas para Visões extremas entre moral/religião e o equilíbrio aristotélico

  1. Fátima Soares Rodrigues disse:

    Isso, Lucas: o equilíbrio. Enquanto ainda somos seres imperfeitos e mais para imperfeitos que perfeitos, há que se vigiar, pois, fato é que se só os prazeres nos trouxessem felicidade, não haveria psicólogos, psiquiatras… O detalhe é que, dificilmente, uma pessoa que busca ter equilíbrio na vida, nas suas ações, ocupa divãs de psicanalistas. Já, os outros…

  2. Rubem de Souza Rodrigues disse:

    Lucas, parabéns. Seus textos estão excelentes. Neste, em questão, tento me enquadrar no último parágrafo. Os prazeres terrenos são tentadores, mas não suficientes. Principalmente, são passageiros. E penso que devamos nos ater a valores mais duradouros, que ultrapassem esta nossa passagem. Tentando me levar pelo aprendizado/missão ao qual o nosso espírito está lutando/aprendendo, penso que a ganância pelos bens materiais (dinheiro, sexo, drogas, farras, etc.), vai dificultar, com certeza, o crescimento que seria possível nesta vida. Assunto polêmico e para o qual, como em todas as questões desta vida, devemos respeitar todas as opiniões.
    Rubem

  3. Vivian Azevedo Rodrigues disse:

    Adoro esse texto e como ele mostra quão imediato, influenciavel e instavel é o ser humano! Respeito. Equilíbrio. Paz interior. Fé. Transcendência. Igualdade. Justiça. Sonho. Luta. Mudança. Valor.
    Valores…infelizmente, que não estão na moda dos atuais detentores do “pergunte-me como ser feliz?!”

  4. Laura disse:

    Concordo plenamente! Hoje vivemos uma inversão de valores e só. E se você não segue a maioria, você é que é o errado. A utopia do “que te faz feliz” nunca deixou de existir.

  5. Clovis disse:

    Lucas, é uma abordagem bastante interessante. Mas também penso que o extremismo religioso volta a crescer na sociedade contemporânea, haja vista a projeção internacional de grupos ligados a correntes ultraconservadoras do islamismo e, em nível de Brasil, o crescimento dos evangélicos e de bancadas desta mesna orientação no legislativo em suas diferentes esferas. O “antes”, de certa forma, ainda vigora e se revigora… infelizmente. Há radicais vivendo nos dois extremos, oxalá que novas gerações se orientem para o justo-meio de Aristóteles, às virtudes.
    Abraços, Clovis.

    • Verdade, Clóvis. A grande emergência do Estado Islâmico denota – assim como o extremismo ateísta – o outro lado do extremismo, o ultra religioso. Ainda assim, podemos notar que Aristóteles realmente está correto, com sua teoria do equilíbrio.
      Abraços,

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