Hitler – Kant x Utilitarismo

Há alguns meses, saiu uma propaganda muito polêmica da Mercedes. Você pode conferi-la aqui.

A publicidade afirma que o novo carro é tão bom que “detectam os perigos antes de eles surgirem”. Tal frase aparece no fim do vídeo, após o tal carro evitar o atropelamento de duas garotas e, logo depois, atropelar – nada mais nada menos – que Adolf Hitler, quando este ainda era uma criança.

O comercial acabou não autorizado pela montadora. No entanto, vazou na internet. Muitas pessoas acharam o vídeo genial por ter matado aquele que é considerado um dos homens mais crueis que já passou pelo planeta (e ainda mais pelo fato de Hitler, ao ser atropelado, ficar com o corpo “posicionado” de acordo com o símbolo nazista); outras condenaram o informe publicitário, alegando ser muito ofensivo e de mau gosto. Essas opiniões divergentes são interessantes, e podemos analisar o fato por dois escopos.

Se, de fato, Hitler tivesse morrido quando criança, quantos males poderiam ter sido evitados? Quantos judeus não seriam perseguidos, torturados nem assassinados? Será que haveria uma Segunda Guerra Mundial? E, se não houvesse, não haveria também a Guerra Fria? O muro de Berlim? A Guerra do Vietnã? O surgimento de Israel e as posteriores guerras com a Palestina, que duram até hoje? Portanto, é no mínimo plausível concluir que, se Hitler fosse morto ainda quando garoto, a História mundial teria alguns capítulos a menos de maldade e tristeza.

No entanto, será que é moralmente correto matar uma pessoa com poucos anos de vida – antes de cometer qualquer tipo de crime – mesmo com o conhecimento de que se tornará um adulto maldoso?

De acordo com a ética utilitarista, sim. Esta defende que uma ação moralmente correta é aquela vinculada ao Princípio da Maior Felicidade, isto é, aquela que se preocupa em aumentar o grau de felicidade para a maior parte das pessoas. E, notadamente, não há dúvidas de que a sociedade mundial seria mais feliz se Hitler tivesse morrido enquanto criança. Assim, de acordo com o utilitarismo, que é uma teoria ética consequencialista e não transcendental (dissociada de religiões), a moralidade está atrelada à felicidade, antes de analisar o certo e o errado. Logo, a “atitude do carro da Mercedes” foi totalmente moral.

Já para a ética kantiana, adepta do Princípio do Imperativo Categórico, que defende “agir de acordo com uma máxima que deva ter valor universal”, o caso aqui analisado nunca será considerado moralmente correto. Kant afirma que uma ação moral deve ocorrer tão somente pelo dever, nunca com um viés consequencialista. Dessa forma, é um dever não matar um ser humano, independentemente de esse dever resultar numa (ou várias) tragédias futuramente. Além disso, a máxima deve se tornar universal, não havendo, assim, possibilidade de exceção. Ou seja, se matar é universalmente errado – e é – nunca se pode abrir uma exceção. Assim como mentir é sempre errado. Furar fila do Banco também. Logo, nunca se deve matar alguém; nunca se deve falar mentira; nunca se deve furar a fila do Banco.

Bom, a partir de uma análise imediata do “caso Hitler”, não tenho dúvidas de que a grande maioria tenderá para o lado do utilitarismo. Mas isso não basta; o kantismo será duramente criticado, sendo chamado de utópico e de “moral de santos”.

Realmente, o que podemos ver na atualidade é um mundo no qual o utilitarismo ganha cada vez mais espaço, pois a felicidade é mais importante do que o certo e o errado (coitado de Aristóteles). O problema é que a felicidade é um conceito relativo, inclusive até mesmo dentro do próprio utilitarismo. Bernard Williams deixa claro que o utilitarismo não consegue realizar todas as suas promessas ao mesmo tempo, pois muitas vezes a promoção da própria felicidade não se confunde com a promoção da felicidade para todos. Além disso, Williams também assevera que o utilitarismo é uma teoria que em geral torna a sociedade pior, pois diminui a exigência moral das pessoas. Isto porque, se todos agirem somente com a preocupação de evitar o maior mal, podem admitir ações que compactuem com o mal menor. Assim, quase ninguém agirá segundo princípios mais exigentes, recusando-se a compactuar com ações más.

Mas, o que importa? Hoje em dia, em geral, é preferível compactuar com o mal menor do que buscar um dever maior. Por isso Kant é superado pelo Utilitarismo. Por isso os “politicamente corretos” são cada vez mais criticados, ao passo que os “espertões” são cada vez mais valorizados. E por isso que a propaganda foi aprovada pela maioria.

Imagem

(Na sequência: Aristóteles, Kant e Mill)

Anúncios

Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
Esse post foi publicado em Filosofia e Cotidiano e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

7 respostas para Hitler – Kant x Utilitarismo

  1. Texto muito bom, e claro, e necessário! Utilitarismo abarca o egoísmo, pois o conceito de bom e mau, assim como o de bem e mal fica restrito à necessidade, oportunismo, prioridade e importância de alguns, ainda que esses alguns sejam muitos, ou a maioria.

  2. Elaine Soares Rodrigues disse:

    A maioria gostou da propaganda??? Que pena, eu realmente esperava o contrário… Não concordo com “os fins justificam os meios” e não concordo com o “utilitarismo” – e olha que sou economista!
    Achei a propaganda de péssimo gosto, principalmente por envolver crianças. Atropelasse quando adulto, então, depois dos crimes… Apesar de eu ser contra o assassinato, de qualquer forma – e ainda que Hitler tenha assassinado milhares, eu sei…
    Bom, mas se o vídeo é de péssimo gosto,o texto é excelente e esclarecedor. Chamo a atenção para o último parágrafo, na conclusão, que amarra tão acertadamente as ideias expostas, e que nos lembra dos riscos de perdermos uma moral maior sob a – falsa – alegação de que devemos buscar a felicidade da maioria.

  3. FTC disse:

    Matar Hitler na infância não significaria nada em termos de história… Os profundos recalques dos alemães estariam lá, no mesmo lugar, até que aparecesse outro e fizesse o mesmo que ele fez.
    Levando em conta o “praticamente inexaurível” problema causal da preempção, tendo a crer que a propaganda é imoral, mesmo do ponto de vista consequencialista…

  4. waza disse:

    Discordo plenamente. Matar seria a única opção para impedir alguém a ser prejudicial?
    E no caso de você ser a pessoa a ser prejudicada (se no caso acima, seria morta), o que faria?

    • De fato, matar não seria a única opção para impedir os atos de Hitler, mas a mais garantidora, digamos assim…
      Quanto à segunda pergunta, não entendi seu ponto.

      Obrigado pelo comentário.

      Att,
      Lucas.

      • Wellington disse:

        Eu fico com Immanuel Kent, que sua decisão depende de seus princípios morais ou seja o meios não justificam os fins, a moral utilitarista de Benthan, Jeremy nos traz a maximização do PRAZER não da FELICIDADE (como foi colocada por você) e a minimização da dor. Aconselho a refletir sobre a metafísica da moral trazida por Kant( categórica). filosofia é muito massa realmente, mas precisamos refletir que essa filosofia precisa ter bases científicas e consequências ético morais…ABRAÇO.

      • Olá, Wellington. Bentham e Mill são adeptos do Princípio da Maior Felicidade; consequentemente o PRAZER leva à FELICIDADE.

        A moralidade metafísica de Kant é uma das coisas mais espetaculares que já vi em Filosofia, na Crítica da Razão Prática.

        Um abraço,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s