Sobre sorte, azar, acaso e coincidência

É bem comum as pessoas creditarem algum resultado em suas vidas à sorte ou ao azar. Faz parte do senso comum essa espécie de convicção, e “sorte” e “azar” são muitas vezes usados como explicação, justificação, desculpa, consolo e afins para várias situações, inadvertidamente. Qual a razão desses termos?
A palavra sorte vem do Latim sors, que significa “parte, porção, o que cabe a cada um”. Com o tempo, seu significado passou exclusivamente a denotar “boa sorte, fortuna”. Já a palavra azar vem do Árabe sahr, “flor”, pois uma das faces dos dados árabes tinha o desenho de uma florzinha. Em Espanhol, essa palavra tem uma conotação diferente da nossa; quer dizer “acaso”, sem definir se é bom ou mau. Por fim, acaso vem do Latim a casu, “por acaso”, onde casu quer dizer “possibilidade, acontecimento” e deriva de cadere, “cair”. Não é uma noção interessante, a de comparar o acaso a algo que “cai” na nossa frente? (http://origemdapalavra.com.br/artigo/jogos-de-azar-na-aulinha)
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Pois bem. Vejamos os conceitos desses dois termos, na atualidade de acordo com o Dicionário Aurélio. Começo com o conceito de sorte: “Força que determina ou regula tudo quanto ocorre, e cuja causa se atribui ao acaso das circunstâncias ou a uma suposta predestinação; Destino”. Assim, pode-se conceber alguns exemplos: ganhar na loteria; passar em um concurso; vencer um jogo; etc.
Agora, o significado de azar: “Má sorte; fortuna adversa; caiporismo”. Fortuna adversa é um acontecimento fortuito adverso, uma causalidade adversa. Caiporismo significa “má sorte ou infelicidade constante em acontecimentos fortuitos”. Exemplos de azar: pneu do carro furar na estrada, não se sair bem em uma prova; tomar chuva em um dia em que saiu de casa sem guarda-chuva; etc.
A partir disso, pergunto: será que sorte e azar existem mesmo?
Pode-se notar que – na denominação de sorte – existem as palavras “predestinação”, “destino”, “força que determina”. Não obstante a isso, essas palavras também estão presentes no significado de azar, uma vez que uma de suas qualificações é “má sorte”, ou seja, o lado negativo da sorte. Assim, aqui também há um “destino”, uma “força que determina”, porém em seu sentido negativo.
E qual seria esse destino, essa força que determina a sorte ou o azar? Separo, aqui, duas tendências: a das pessoas que acreditam em Deus e a das pessoas que não acreditam em Deus.
Vamos tratar primeiro das pessoas que acreditam em Deus. Deus existe e é o criador de todas as coisas. Logo, por mais que exista livre-arbítrio, Deus já sabe qual vai ser sua escolha e qual vai ser o resultado de sua escolha, afinal Ele é onipresente e onisciente. Dessa forma, a “força que determina ou regula tudo quanto ocorre” é Deus, e o “destino” também é traçado por Deus. Aqui não existe um acaso que determina tal força.
Com isso, para essas pessoas, a sorte não pode existir. Consequentemente, o azar também não. Tudo é efeito da causa universal chamada Deus. Ainda que o ser humano tenha um livre-arbítrio, Deus já sabe qual é o resultado de suas escolhas, e isso não denota sorte ou azar, mas sim destino divino.
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Passemos então para as pessoas que não acreditam em Deus. Para essas, o destino divino não existe, bem como a predestinação não pode existir. Se Deus não existe, há uma teoria do caos que “rege” a natureza. Logo, a “força que determina ou regula tudo quanto ocorre” é a força do caos, da natureza. E a causa dessa força se atribui ao acaso das circunstâncias. Existem tentativas de se explicar “tal força” (ou seja, essa natureza), como com a probabilidade, com parâmetros, variáveis, etc. Tentativas científicas ou matemáticas, mas as explicações não conseguem sair muito do âmbito do “acaso”.
Nesse caso, a sorte e o azar são bem mais plausíveis como possíveis existentes do que no caso anterior. Se a teoria do caos não explica uma causalidade, mas somente dá sua probabilidade, a noção de sorte e azar já é bem mais aceita.
Consequentemente, para quem crê em Deus, nada acontece por acaso, ou seja, não existe coincidência. Deus tem um plano para cada um de nós, que – mesmo com o livre-arbítrio para traçar nosso destino – Deus já o traçou ou, ao menos, sabe o que traçaremos. Dessa forma, não existe coincidência, que é o termo utilizado para se referir a eventos com alguma semelhança mas sem relação de causa e consequencia.
Já para quem não crê em Deus, as coisas acontecem por acaso, ou seja, não há uma relação de causa e consequencia. Logo, significa que podem haver coincidências. Coincidências estas que podem ser resultados de alguma sorte ou de algum azar.
Vale lembrar a origem da palavra coincidência: “vem do Latim CO, “junto”, mais IN, “em”, mais CADERE, “cair”. Estas duas últimas palavras formaram o verbo COINCIDERE, “cair sobre”. Assim, quando duas coisas caem (ocorrem, incidem) juntas dizemos que houve uma coincidência.” (http://origemdapalavra.com.br/palavras/coincidencia)
Enfim, concluo que: para quem crê em Deus, não existe sorte, azar nem coincidência. E, para quem não acredita no divino, o contrário. Concorda?
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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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