Os Beagles, a Utopia e a Hipocrisia

Foi na noite da última quinta-feira, dia 17/10 (verdade que já havia algumas denúncias e uma certa investigação do MP, mas o que importa, mesmo, foi na noite de quinta-feira). Algumas pseudocelebridades, por meio de redes sociais – principalmente twitter – manifestavam seu repúdio ante o Instituto Royal, e convocavam todos a se dirigirem até a porta do estabelecimento, na cidade de São Roque, no intuito de interromper ou cancelar pesquisas com pequenos cachorros, da raça beagle. Depois de algum tempo, houve invasão do Instituto e “recolhimento” de 178 cães. Pronto. Foi isso.

Logo após – e isso dura até hoje -, muito tem se falado do episódio. A grande maioria ficou muito feliz com a atitude das pessoas que foram até lá e muito brava com o Instituto Royal. Agora, as consequências são: (i) arrumar abrigo para os quase duzentos cachorros (dizem que dois deles já foram encontrados abandonados pelas ruas de São Roque); (ii) criticar o Instituto Royal. Interessante analisar tais pontos.

Antes da preocupação propriamente com (i), é importante verificar que essa preocupação só ocorre agora devido a uma causa, e esta foi a invasão de um estabelecimento. Constitucionalmente, está previsto a proibição da invasão de propriedade, ou de domicílio. Isso faz parte dos direitos fundamentais, neste caso, o da propriedade. A justificativa é dada embasada num fato de que alguém conseguiu entrar no Instituto como um funcionário e conseguiu provas de que havia maus tratos aos cães (e aqui entra o (ii)). Por outro lado, a instituição nega veementemente. Além disso, tal instituição é apoiada e financiada pelo governo.

Bom, que eu saiba, o Brasil é um Estado Democrático de Direito e está sob vigência de uma Constituição. Desse modo, se eu acho algo injusto, eu aciono a polícia ou a justiça para resolver. O “estado de natureza”, analisado por Hobbes, Locke e Rousseau, deu lugar a uma estado civilizado, baseado em um contrato social. Hobbesianamente falando, a Constituição é o Leviatã. Assim, não é permitido fazer justiça com as próprias mãos, mesmo porque o “homem é o lobo do homem”, e por aí vai. No entanto, não foi isso que ocorreu no fato comentado. Mas ninguém criticou esse pormenor. Muito pelo contrário, houve comemorações, tanto para a invasão, quanto para o “resgate”. Paulo Ghiraldelli Jr. teve um outro olhar. Não hobbesiano, mas rousseauniano, calcado no “bom selvagem”. Você pode conferir aqui. Sua opinião é (sempre) respeitável, mas dessa vez, discordo. E explico o porquê logo abaixo.

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Cachorrinhos são animais domésticos, de estimação. Culturalmente, amamos esses bichinhos. Bonitinhos, fofinhos, são chamados de filhos em várias famílias. Inclusive, algumas têm somente eles como filhos. O que me encuca é: por que uma revolução tão grande, porque tanto rebuliço em cima dos beagles e praticamente nenhum com relação às vendas de coelhos, hamsters, pássaros e etc no Mercado Central, aqui em Belo Horizonte? Por quê muitos paladinos da justiça para com os beagles e pouquíssimos para com os ratinhos de laboratório? A cultura condiciona tanto, assim? Será que haveria essa manifestação na China e no México, locais em que carnes de cachorros fazem parte do cardápio das pessoas? Não creio.

Vou ainda mais longe. Estudos mostram que os animais que não são considerados domésticos pelos brasileiros, como galinhas, vacas e porcos, por exemplo, possuem muito sentimento. Tanto ou até mais que os cachorros. A distância da “noção do eu” entre esses e o ser humano é muito menor do que os homens supunham (veja aqui). Porém, nós só conseguimos perceber isso nos cachorrinhos (muita gente só consegue percebem nos cachorrinhos mais bonitinhos e/ou de raça). Talvez seja por isso que eu não vejo manifestações na porta da Sadia, da Perdigão ou da Pif-Paf. Esses locais são tão legalizados quanto o Instituto Royal, mas, como as galinhas, as vacas e os porcos vão para os pratos dos brasileiros, no almoço, jantar e nos churrasco de fim de semana, ninguém se importa (ou mesmo nem pensam nessa situação). Maus tratos só, especificamente, com cachorros usados em experimentos. Ratos podem. E os “bichos de comer” também podem. Não entram na categoria.

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(relevem o “prá”)

Então, professor Paulo Ghiraldelli (e demais que já estão p*** da vida comigo), não há nenhum ódio de minha parte. Mas confesso que pode haver frieza a essa visão utópica. Isso me lembra Erasmo de Rotterdam e seu Elogio da Loucura, obra dedicada a Thomas More, autor de – nada mais nada menos – Utopia. A Loucura, que narra em primeira pessoa, é que mantém várias coisas, dentre elas a justiça, a mediocridade e a hipocrisia. Essa sociedade é contemporânea, é essa específica em que brotam paladinos da justiça contra “maus tratos a beagles” e indiferença aos vizinhos ratos. E que também são indiferentes com relação à miséria humana (enchem a boca para criticar a Bolsa Família). Por fim, que coerência há em comemorar e se emocionar com isso tudo que aconteceu, noticiado pelo Fantástico, num domingo à noite, saboreando um frango na janta ou um hambúrguer na sanduicheria?

Muitos podem me dizer: “É a cultura, estúpido!”. Eu retrucaria: “É a cultura estúpida!”

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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6 respostas para Os Beagles, a Utopia e a Hipocrisia

  1. Lucas, você tocou no ponto chave. É isso mesmo. Não sou contra a proteção dos cachorros, pelo contrário, sou a favor. Mas sou a favor, também, da vida dos outros animais inofensivos ao homem, e que servem, a ele, de alimento. Parabéns pelo rico texto

  2. Júlia disse:

    Estava conversando sobre isso outro dia com uma amiga. Acho que concordo com a maioria do texto, é muito seletivo esse amor e proteção pelos animais domésticos. Por outro lado, ainda que soe hipócrita ou sei lá o que o ato da maioria que estava lá, não acho que seja inválido por serem consumidores de carne… Já é “alguma coisa”. É melhor do que nada, ganhou uma boa repercussão e nunca tinha visto algo desse meio na mídia, fiquei bem contente. Mas almejo, sim, ver, um dia, aquela coisa de “fazer o bem sem olhar a quem” com relação aos animais. Quem sabe, né?! 🙂

  3. Angelo Bicalho disse:

    E também temos que defender as plantinhas que os seres humanos terríveis comem. Brincadeira a parte. Achei muito boa a colocação racional dos fatos. Esse episódio é um tremendo falso moralismo, além de ser um crime. Parabéns pelo blog. precisamos de debates racionais como nesse caso e outros. Sugestão de tema usina belo monte. Abs

  4. “And thus the native hue of resolution
    Is sicklied o’er with the pale cast of thought” – Shakespeare
    Se algum dia se tornar vegetariano, tente perceber que não o faz para se salvar, mas por uma evolução de consciência que “ninguém” precisa sofrer/morrer para que vc viva, ou sacie sua fome! Os budistas não são alienígenas, somos nos que fomos programados a consumir e a banalizar a morte e o sofrimento alheio! Um dia duvidaram do direito dos negros, um dia duvidaram do direito das mulheres, das crianças e ainda duvidam do direito dos animais… Não vou pegar em armas, nem vou ajudar os injustos! Apenas não vou comprar mais produtos da Royal e enquanto puder vou informar aqueles que estejam a minha volta para que também não o façam!

  5. Eduardo disse:

    E até onde isso vai se extender? Pernilongos, aranhas, mosquitos, virus e bacterias? Direitos do homem, direito dos animais, das plantas, das montanhas … O homem esta saquendo o planeta. Ah eh .. Tem a televisao … Todo mundo reclama, manifestacao pelas ruas, mas basta um joguinho de futebol e a populacao volta para o seu silencio, quebrado apenas pelo grito do gol.

  6. Laura disse:

    Acho que teve muito falso moralismo em todo esse alvoroço a favor dos beagles, e um exemplo foi mesmo o fato de terem esquecido dos outros animais (ratos e alguns coelhos). Mas no fundo concordo com a Júlia, ainda assim, fico contente que esse foi o primeiro caso desse tipo que teve repercussão na mídia, além, é claro, de ter inserido o debate na esfera pública.

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