Os desertores

Friedrich Nietzsche foi um filósofo muito importante para a história da filosofia. É considerado um dos maiores críticos aos valores morais-cristãos-ocidentais. Muito influenciado por Schopenhauer, acredita que a vida é cruel e sem sentido. E, apesar disso, não adianta recorrer a um Deus, uma vez que este não existe. Dessa maneira, o homem deve viver da melhor maneira possível, aproveitando o que o mundo oferece.

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Com uma crítica muito forte a Jesus e a Sócrates, os maiores responsáveis por criar uma falsa moralidade humana, Nietzsche busca a libertação do ser humano, que não deve ser tolhido por seus impulsos ou desejos. Por isso, essa falsa moral (moral de rebanho) deve ser abandonada, em prol do próprio homem. A partir de então, o homem pode e deve construir uma nova filosofia, com novos valores.

O homem que consegue abandonar os antigos valores e criar novos para sua vida é chamado de Super Homem, para o filósofo alemão. Para tanto, há um caminho a ser seguido, até atingir o status de Super Homem. Divide-se em três transformações: (i) o homem se transforma em camelo (que representa que carrega o peso dos valores da moral ocidental, mas que é capaz de abandonar a cidade rumo ao deserto); onde se transforma em (ii) leão (significa o êxito em conseguir romper com a moral ocidental e se tornar senhor de si mesmo); por fim, deve se tornar (ii) criança, para se tornar capaz de olhar o mundo de forma diferente.

Em Crepúsculo dos ídolos, Nietzsche afirma:

“Tu corres à frente?

Tu fazes isto como pastor? Ou como exceção?

Um terceiro caso seria o desertor… Primeiro caso de consciência”.

Interessante trazer esse trecho para o cotidiano do Brasil. Em pleno século XXI, é interessante notar que muitas pessoas – ligadas à ciência, área acadêmica, enfim, erudição em geral – preocupam-se sobremaneira em se demonstrar como desertores do conhecimento do senso comum. É difícil conhecer algum professor de universidade, algum cientista, algum filósofo, sociólogo ou historiador, em suma, alguém que tenha um nível intelectual acima da média do país, que acredite em Deus e não deboche de igrejas e religiões, ou que não critique os filmes hollywoodianos e valorize os filmes “lado b”, que não valorizem Nietzsche e desprezem Hegel e Platão, e por aí vai.

São os desertores que se consideram os únicos conscientes da balada, com nariz empinado e ar superior. Acima da ignorância que permeia a sociedade, estão além do bem e do mal, como já dizia outra obra nietzschiana, e se vêem como os Super Homens, sem qualquer sombra de dúvida.

Como vivemos numa enorme crise de valores, ao mesmo tempo em que há um tsunami de informações (?) de fácil acesso, o bonito é se mostrar intelectualizado. Junto disso, pode-se somar ainda a necessidade cada vez maior de estudo para se conseguir um bom emprego no Brasil. Ou seja, ter um conhecimento notável é cada vez mais valorizado. Porém, ser cristão, conhecedor de Tomás de Aquino ou Agostinho e curtir um cinema no shopping aos domingos não chama muito a atenção da classe intelectualizada. Reluz mais conhecer Filosofia Analítica ou da Mente, curtir filmes sérvios e dinamarqueses, com um forte apelo ateísta na vida política, econômica e social.

É engraçado. Essa tendência talvez pudesse até (forçar a barra e) ser considerado um Renascimento à moda contemporânea. Mas os desertores são poucos, e cada qual deve achar sua miragem mais verdadeira que a do outro. E se achar mais super homem que o outro. Nunca daria certo.

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Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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Uma resposta para Os desertores

  1. Laura disse:

    Concordo com cada vírgula. E posso afirmar que na universidade é aonde se vê mais isso. Egos inflados e desprezo por quem pensa diferente. Sad.

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