Racionalismo x Condicionamento

A Filosofia surgiu entre os séculos VI e V a.C. com o questionamento dos conhecimentos míticos. Isto é, em vez de acreditar na veracidade inconteste dos mitos, o pensamento filosófico trouxe pontos de interrogação sobre tais contos e buscou explicar a origem das coisas e do mundo (depois, do homem e de seu meio) sob uma óptica mais racional.

Na Filosofia Medieval, na qual não admitiam o conhecimento fora do âmbito do divino, a razão foi subjugada pela Igreja e por Deus. No entanto, com a transição para a Modernidade, por meio do Renascimento, o racionalismo voltou para ficar. Junto com o antropocentrismo e o humanismo, revolucionou a ciência e foi a raiz do Iluminismo, que transformou o mundo dos homens, até chegar na época atual, com a globalização e o boom tecnológico.

Porém, se até o início da Filosofia Contemporânea – fim do século XIX, o racionalismo caminhava lado a lado com a ciência (como o Positivismo), aos poucos, novas correntes surgiram, como a Fenomenologia e a Escola de Frankfurt liderada por Adorno e Horkheimer. Tais correntes, reforçadas pela Primeira Grande Guerra Mundial, deram início à era do desencantamento do mundo, que afirma a incapacidade da ciência de explicar a totalidade das coisas e do mundo (é o chamado cientificismo).

Diante disso, renovam-se as críticas marxianas de que as sociedades são controladas por poucos e não há difusão do conhecimento, não há ampliação da capacidade de raciocínio dos indivíduos, uma vez que vivemos numa ideologia (dissimulação da luta de classes) e somos regidos, nos dizeres de Adorno, pela indústria cultural (sociedade que é guiada pela razão instrumental e faz com que a classe mais abastada e que possui o conhecimento domine as outras classes).

Ou seja, somos cada vez menos racionalistas e cada vez mais condicionados. A educação, a política, a sociedade na sua totalidade é organizada e ditada de acordo com a vontade de poucos, por meio da difusão de modelos de comportamento e consumo, valores, linguagem, modos de ser e de viver. Engolimos sem mastigar o que a sociedade nos passa, por meio da mídia, e reproduzimos sem raciocinar, difundindo a irracionalidade no mundo.

Imagem   Imagem

Nesse escopo, Aldous Huxley escreveu – primorosamente – sua magnífica obra Admirável Mundo Novo, na primeira metade do século XX, uma ficção que critica a sociedade do mundo. Ele se debruça sobre um mundo no futuro, no qual não há guerra nem problemas que vivemos hoje, pois todos estão 100% condicionados por poucos que exercem o poder e tudo dominam.

Na mesma seara, Ivan Pavlov foi um médico e fisiologista, famoso por fazer diversas experiências com animais para estudar a questão do condicionamento na psicologia do comportamento. Existem técnicas para condicionar. A primeira é o cansaço. Hitler, que condicionou milhões ao seu ideal maluco, já dizia: “À noite o homem sucumbe mais facilmente à força dominante de uma vontade mais forte”. Pavlov concordaria que, com o cansaço, a sugestionabilidade ocorre de maneira mais fácil. A segunda é o medo. Em Regresso ao Admirável Mundo Novo – em que Huxley, 20 anos após a publicação de sua ficção, faz um ensaio sobre a situação do mundo comparada à sua obra – há um capítulo para falar do medo que condiciona. Huxley afirma que William Sargant, em seu livro Battle of mind, cita o caso de John Wesley, homem que se valia de um método infalível que consistia em, no início de sua pregação, incutir o medo nos ouvintes devido a um sentimento excessivo de culpa, levando-os a um processo de depressão cerebral. A partir desse momento, mudava seu discurso, alterando inclusive seu tom de voz e prometendo a extrema felicidade para aqueles que se arrependessem e buscassem a Deus.

Vejo o ser humano, antes de ser um animal político, um animal racional, uma tábula rasa ou coisa que o valha, como um ser cujo fim último é a felicidade, de acordo então com Aristóteles. Quantos não procuram a autoajuda para conseguir emagrecer ou para aumentar a autoestima? Buscam a religião para consolar? Leem livros e veem filmes para se mostrar mais cultos e eruditos? Tudo no intuito de alcançar a felicidade. Resta saber se essa busca ocorre mediante sugestionabilidade do meio ou livremente. Os budistas dizem que muitos de nós passamos a vida adormecidos, como sonâmbulos que obedecem a todas e quaisquer sugestões. A iluminação seria o despertar total.

No atual momento da história da Filosofia, os filósofos diriam que estamos num sono profundo, na escuridão. Achamos que somos livres e racionais, mas somos totalmente condicionados. Tal qual no Admirável Mundo Novo de Huxley. Ou na Alegoria da Caverna de Platão. Indo um pouquinho mais longe, até mesmo na Matrix dos irmãos Wachowski. Mas e se, mesmo nesses cenários, mesmo condicionados, sentirmo-nos felizes? É irracional? Uma pseudofelicidade? Não sei. Cypher, em Matrix, assevera: “A ignorância é a felicidade”.

Imagem

Anúncios

Sobre lucassrodrigue

Graduado em Filosofia pela UFMG e Mestrando pela mesma instituição. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
Esse post foi publicado em Filosofia e Cotidiano e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Racionalismo x Condicionamento

  1. Carlos Agnelo disse:

    SENSACIONAL.

  2. Pedro Siruffo disse:

    “A ignorância é felicidade”. Pode ser. Talvez por isso a infância (Olha o Dia das Crianças!) seja tão invejada…

    Se o condicionamento é a formatação do indivíduo a partir de informações e práticas plantadas em sua bagagem, a ignorância seria a libertação disso.

  3. Laura disse:

    Legal! Matrix é muito abstrato, assim como as outras ideias, rs… mas, se for assim, “a ignorância é uma dádiva”, pois mesmo vivendo no mundo da escuridão somos capazes de ser felizes, né?

    Prefiro assim, uma vida de sonhos, do que ser impossibilitada de sonhar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s