Primeiro mundo e Platão

Na política, existem os países de primeiro mundo e os países de terceiro mundo. Na verdade, nos últimos anos, essas nomenclaturas mudaram para países desenvolvidos e países em desenvolvimento, respectivamente.

O Brasil pertence ao segundo escalão. Singapura, ao primeiro. Ou seja, neste, há educação boa, saúde boa, acesso à moradia, crescimento econômico, boa posição mundial no IDH, entre outros fatores. Em cerca de 30 anos, tal país analisado, devido a um bom plano de governo, tornou-se um país desenvolvido. Porém, o que chama a atenção é o fato de que seu regime político seja dominado pelas mesmas pessoas há muito tempo.

Singapura foi citada no artigo de Eliane Catanhede (que escreveu Cingapura), na Folha de S. Paulo do dia 01/10/2013. Sugiro a leitura: (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/elianecantanhede/2013/10/1349813-tamanho-nao-e-documento.shtml). A preocupação da articulista, porém, fixou-se no aspecto da economia, para que ela pudesse criticar o governo brasileiro. Meu interesse é outro.

Platão, importante figura da Antiguidade, defendia que o governante deveria ser o filósofo, pois somente ele é capaz de se livrar das algemas que o prende (bem como prende a todos nós) ao mundo sensível, ao mundo das ilusões, ao mundo das sombras. Em sua Alegoria da Caverna, Platão representa esse mundo das trevas no fundo de uma caverna, onde as pessoas tomam as sombras – único meio de acesso às suas realidades – como verdade absoluta.

Por meio da libertação das algemas, o filósofo consegue se retirar do fundo da caverna, até alcançar sua saída, onde contempla a verdade, a Ideia, o Bem. Assim, ele sai do Mundo Sensível e chega ao Mundo Inteligível. Depois de encontrar e contemplar a Razão e o conhecimento pleno, o filósofo deve retornar à caverna e ajudar cada pessoa que ali ainda se encontra, presa às ilusões, no intuito de que todos possam alcançar a verdade, a felicidade. Isto é, deve ajudar a todos a encontrarem a saída da caverna e, conseguintemente, o sol, a luz, o progresso. Por isso, ele deve ser o político, o chefe de governo.

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Voltando a Singapura, os atuais governantes estão no poder há décadas. E eles foram os responsáveis por levar o país do terceiro ao primeiro mundo. Foram os “filósofos” que ajudaram a população a sair da escuridão da pobreza à luz da riqueza, com melhor educação, saúde, saneamento básico, transporte, moradia, etc. É fato que houve e há uma boa gestão política, pois não seria possível a rápida evolução desse país sem um bom trabalho das pessoas que estão no poder. Conclui-se, então, que elas agiram com conhecimento, com razão e sabedoria. Mantendo a analogia com a filosofia platônica, pessoas preparadas, mais próximas do conhecimento do Mundo Inteligível.

Porém, há o problema da perpetuação do poder em uma forma de aristocracia. Isso é correto? Platão diria que sim, pois cabe aos sábios, aos aristocráticos, dirigirem a sociedade. Isto é, antes um conhecedor do Mundo Inteligível que se perpetua no poder do que ser governado por pessoas não capacitadas, absortas no Mundo Sensível.

O Brasil está evoluindo, sem dúvida. E não se pode eximir dos méritos dos governantes. Não é a toa que muitos deles – e cada vez mais – conseguem se reeleger. Segundo Catanhede, “se o povo está feliz, de barriga cheia e com emprego, casa para morar e escola para estudar, quem está aqui para reclamar [se quem está no poder está há muito tempo]?” Esse povo ainda não é o povo do nosso País, mas as coisas estão melhores. Talvez isso explique quase 12 anos de PT no Poder (e tudo indica que vai pra 16). Só espero que Lula, Dilma e os seus não pensem que já alcançaram o Bem, a Luz e são os salvadores. Muito menos filósofos. Mas tem quem pense assim.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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Uma resposta para Primeiro mundo e Platão

  1. Interessante! Já achava que todo governante tinha, pelo menos, que entender razoavelmente de economia, sociologia e, claro, de política. Mas gostei muito do seu encadeamento e da lógica para defender que eles devem também entender de filosofia (ou mesmo serem filósofos).

    E o exemplo de Singapura vem a calhar, e muito…

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