A arma, o jogo e a inteligência: tudo de mentira

Nesta semana, foi aprovada uma lei, no Distrito Federal, que proíbe a comercialização de armas de brinquedo. As sanções pelo descumprimento vão de uma multa de alto valor pecuniário até o fechamento do estabelecimento comercial.

Trata-se de uma medida política acertada? E qual o motivo de ter sido aprovada? São questões que nos levam a pensar.

Isso nos recorda de que, no último 5 de agosto, cinco pessoas de uma mesma família foram encontradas mortas numa casa, em São Paulo. A polícia trabalha com a hipótese de que o membro mais novo, Marcelo Pesseghini, de 13 anos de idade, tenha matado pai, mãe e outros dois familiares, para depois dar fim a própria vida. E um dos fatores que o levaram a agir criminosamente seria o fato de confundir a realidade com a ficção, baseado em um jogo de videogame violento.

A partir desse fato, várias críticas caíram sobre a análise policial, no sentido de que, colocar o peso de uma tragédia como essa num mero jogo de videogame, é um absurdo – além de críticas à uma suposta jogada da polícia em criar um falso culpado, quando o(s) responsável(is) pelo crime seria(m) membro(s) da própria polícia. Mesmo partindo do princípio de que o garoto tenha sido o autor do crime – o que pode ser questionado –, não faz sentido colocar o jogo de videogame como o grande vilão. Nos primeiros dias após as mortes, grande parte da mídia se debruçou sobre esse pormenor, sem (ainda) saber o perfil psicológico do rapaz, a educação recebida por ele, o contato que tinha com os pais policiais (depois, aos poucos, alguns veículos jornalísticos se preocuparam com essas questões fundamentais, mas já estava vendida a bobagem quanto ao jogo do videogame).

Desta feita, vemos uma preocupação demasiada – tanto referente à lei aprovada no DF, quanto ao crime supra analisado – da sociedade brasileira com relação ao contato das crianças com a violência.

Será?

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Claro que não!

Sabemos que um dos principais fatores que diminuem a violência em uma sociedade é a educação de qualidade. E, em vez de haver um rebuliço para melhorar as estruturas das escolas públicas no país, o salário e o plano de carreira dos professores, a grade curricular do ensino básico, etc, agora a bola da vez é com o uso de armas de brinquedo e de jogos de videogames pelas crianças?

Ainda nessa seara, em vez de se preocupar com os novos valores passados de pais para filhos da nova geração, em que há cada vez menos atenção dos progenitores devido ao excesso de trabalho e de preocupação financeira – em que pode-se discutir a necessidade de mais carinho, de mais presença e de menos presentes, para formar melhores adultos –, o foco é nas armas de brinquedo e nos jogos de videogames? Esses dois fatores, então, são fundamentais para diminuir a violência no País e, mais, para criar pessoas mais educadas e pacíficas?

Pessoas que defendem tais proibições trazem dados, estudos, etc, com a certeza de que é um absurdo crianças terem acesso a tais divertimentos. São os chamados politicamente corretos. Não sou contra eles (como é modinha hoje em dia ser), e muitas vezes considero que a mídia os tratam pejorativamente, mas, a meu ver, nessa pauta nem se trata de ser ou não ser politicamente correto, mas sim de ignorância.

Aproveitando o ensejo da palavra ignorância, trago à tona outro caso recente: o julgamento do mensalão. Semana passada, o ministro Celso de Mello, com o voto de minerva, votou à favor dos embargos infringentes, o que resulta em um novo julgamento para 12 dos 25 acusados do mensalão. Esses 12 obtiveram ao menos 4 votos favoráveis quando foram condenados. E, de acordo com princípios constitucionalistas, como o do duplo grau de jurisdição, requereram – por meio de seus advogados – um recurso para obter novo julgamento nesse caso.

Os 12 já estão condenados por outros crimes. Não há chance de absolvição total. No máximo haverá absolvição nesses crimes que couberam os Infringentes, o que implicará na diminuição das penas (o que pode resultar em começar a cumpri-las já em regime semi-aberto, e não fechado, por exemplo).

Particularmente, fui contra aos embargos infringentes, menos pelo caso analisado em si, mais pela Constituição Federal, que – a meu ver – é adepta dos infinitos recursos e muito protetora do réu, mas não saí gritando que era culpa do Lula, do PT, ou alguma besteira do tipo.

No entanto, no povo, no senso comum, nas redes sociais, vimos indignação. Chamaram os ministros de pizzaiolos, tiraram a total credibilidade do Poder Judiciário, etc. Vi pessoas indignadas porque Celso de Mello “não ouviu a voz do povo”. Peraí! Quem tem de ouvir a voz do povo são os parlamentares, dentro do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras Municipais, pois esses, sim, o povo colocou lá dentro. Já os ministros do STF não foram eleitos pelo voto popular.

Além disso, vi também pessoas falando que o “julgamento do mensalão foi anulado”! Impressionante como muitos falam com a boca cheia, “intelectuais” sem qualquer conhecimento indignados com a situação ocorrente. Mas será que eles sabem o que significam os embargos infringentes? Ou direito ao duplo grau de jurisdição? Ou algo a mais que os ministros disseram, fundamentando o voto?

Por fim, algumas atrizes da globo tiraram foto trajadas de preto e fazendo bico, com a expressão facial fechada, indignadas com o voto do STF.

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Conclusão: não resta dúvida acerca dos problemas no âmbito da violência e da corrupção. No primeiro caso, basta eliminarmos as armas de brinquedo e os jogos de videogame violentos. No segundo, basta que as figuras políticas, do Legislativo, Executivo e Judiciário, sejam inteligentes como os paladinos da ética e da justiça e como as atrizes globais e lhes deem mais ouvidos.

É assim que a sociedade se mostra. Com análises superficiais de grandes problemas sociais, com pseudomanifestações de repúdio, que nos dão a famosa vergonha alheia. Assistimos às crianças violentas e colocamos a culpa na arma de brinquedo ou no jogo de videogame. Não nos lembramos das escolas sucateadas (hoje no Jornal Hoje em Dia de Belo Horizonte foi publicada uma reportagem em que um escola de Contagem – região metropolitana de BH – é comparada a um presídio, olha nosso nível educacional!), ou do descaso de muitos pais em criar seus filhos. Assistimos a um julgamento de um crime político e condenamos a torto e a direito, sem o menor conhecimento de causa, sem um mínimo conhecimento jurídico.

La Rochefoucauld, filósofo do século XVII, disse “ser tão fácil nos enganarmos a nós mesmos sem percebê-lo, como difícil enganarmos os outros sem que eles percebam”. Penso que só a primeira parte de sua frase está correta. A segunda também é muito fácil. Afinal, a arma é de brinquedo, o jogo é ficção e a inteligência é mínima. Isto é, tudo é de mentira. Mas vemos como a verdade mais verdadeira, que libertará o país de sua podridão.

Vou ficar de olho nos bandidos das lojas de brinquedo e nos viciados/inveterados/perigosos jogadores de Assassin´s Creed. Depois de denunciá-los todos à masmorra, vou pegar umas dicas jurídicas com a Susana Vieira.

Sobre lucassrodrigue

Graduado e Mestre em Filosofia pela UFMG. Dezenas de artigos publicados em Jornais, como Estado de Minas e O Tempo. Debates sobre o cotidiano e (i) a filosofia, com seus aspectos políticos, sociais e éticos; (ii) os filmes, com suas possibilidades de interpretações inúmeras; e (iii) o espiritismo, doutrina por mim seguida na vida.
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Uma resposta para A arma, o jogo e a inteligência: tudo de mentira

  1. Laura disse:

    Concordo. Todos nós vimos Cavaleiros do Zodíaco quando crianças, por isso poderíamos virar assassinos em potencial?! O que existe hoje é a pregação de um conservadorismo quase inexistente, mas no qual as pessoas ainda insistem em se apoiar para culpar alguém.

    Quanto ao caso do mensalão, prefiro não comentar, não sei muito de política. Mas achei legal o ponto de vista, só tenho visto pessoas condenando a decisão, sem justificativas.

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